Viver é, de certa forma, acumular memórias - o que não significa viver do passado. Nesse contínuo de tempo e espaço, o saboroso trem da vida, de parada obrigatória em estação ignorada, felizmente não tem limite de bagagem. E da mesma forma que a gente se comporta numa viagem, naquele afã de marcar também na alma a beleza do roteiro, a intensidade ou importância dos momentos – para dias de futuro -, até inconscientemente, vamos colecionando os nossos souvenires.
Cartas de amor que, depois de todas as juras, sobressaltos do coração no compasso da espera, transformam-se num patético dossiê de injúrias. E mesmo assim, ali, intocadas no fundo da gaveta, para um dia de reminiscências e de dedos, resistindo a todas as faxinas, uma espécie de materialização de confesso que vivi - junto com todos os poemas grifados do Neruda e de quebra, os de Mistral. Fresquinhos na ponta da língua da memória, com o gosto de hortelã da bala que ainda sentimos ao ver o papel dobrado em forma de abraço – apertado entre as páginas e o pó do esquecimento –, um arremedo de origami que traz de volta a voz enamorada daquela leitura, inesquecível sim, daquele poema para um amor que não passou da fugaz estação da promessa.
E vamos enchendo o trem da vida de nossas lembrancinhas perdidas. Fotografias no repouso amarelo dos álbuns, sorrisos que se foram e não tivemos o privilégio de vê-los envelhecer em nossa companhia, com todas as linhas e sulcos dos possíveis risos e gargalhadas. Vozes que só raramente ouvimos pelo telefone, com toda a grandeza do nosso afeto, a única ponte tangível para as distâncias e tempos inomináveis. Um vestido que se perdeu de nosso corpo, amorosamente, pendurado no cabide acima de todas as modas. Dentro do guarda roupa, num cantinho escondido da alma, ainda nos desafia com o velho e insuspeito perfume daquela festa!
Existem memórias que estão nas coisas que tocamos e preservamos como sentinelas da memória. Basta passar perto, deter os olhos, tocar de leve, e, desembrulhamos mundos, sensações, sentimentos, dores, prazeres, prantos, cantos e encantos. Nossa preciosa memória palimpsesto, protegida pela cola do tempo para raspagens de leituras nos dias de depois.
(íntegra do texto em anexo para download)
Nossa Cida! Que lindo! Memória impregnada de cheiros, e de sabores e de música, é coisa que faz o coração de repente bater acelerado de novo, menino de novo, como se fosse possível a mesma emoção. Fujo do saudosisimo mas de quando em vez ele bate à porta, e vc soube colocar com uma leveza que caiu muito bem!
Roberta Tum · Palmas, TO 28/2/2007 18:26
"Nossa preciosa memória palimpsesto, protegida pela cola do tempo para raspagens de leituras nos dias de depois."
Uau! Que coisa linda, isso...
Pô, não consegui dar meu voto. Clico e não acontece nada. O que será?
Ilhandarilha · Vitória, ES 28/2/2007 20:27
Roberta, bom compartilhar essa memória com você.
Ilha, nem imagino o que possa ter acontecido em relação ao voto. Talvez uma falha momentânea na internet. Às vezes também tento votar e demora pra caramba. Tenta novamente. E obrigadão pela leitura mais que especial.
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