A menina era como todas as meninas. Nasceu e chorou. Depois riu muito. E aí, às vezes ria, às vezes chorava, com aquela intensidade de menina. Ouvia os pássaros voando, os suspiros dos cães, o ronronar dos gatos, ouvia até a grama crescer e a chuva cair gota por gota nas telhas. Mas foi sendo ensinada que algumas coisas se ouvia, outras não. Aprendeu que devia deixar de ouvir a tudo. E isso, ela pensou, poderia ser bom: deixou de ouvir gritos, barulhos de dor e, até, certas palavras que feriam, e muito muito mais, que nem percebeu... mas parou de chorar. Virou uma adulta normal, como todos os adultos, ouvindo só o que podia ser explicado e catalogado aprovado. E nem percebeu que seu riso já não era cristalino e a tristeza virava parte dela... só passou a se perguntar para onde tinha ido a alegria...
Depois de muitos anos, um milagre, um arco-íris no céu mais azul do que nunca: nasceu uma música dentro dela. Ela pensou até que, enquanto dormia, alguém a havia plantado nela-terra. Acordou confusa, olhou para os lados... percebeu que ninguém mais ouvia a música e tentou fazer de conta que ela não existia. Mas era alta... e bela, muito bela. A menina não pôde conter-se e saiu contando às pessoas sobre sua música.
Muitos procuraram fazê-la voltar ao normal, pensando que tinha perdido o juízo... A música, tão alta e tão bela, fazia com que ela entendesse que as árvores na rua bailavam ao seu ritmo e os pássaros no céu acompanhavam seus acordes. Mas todos sacudiam a cabeça de um lado para outro quando a viam assim, embriagada e feliz com sua música. Isso não era possível, diziam. Outros, ainda: isso não vai acabar bem...
E aconteceu o que às vezes acontece com os milagres que só nós percebemos: a música foi sumindo, sumindo... e a menina deixou de ser feliz. Passou a chorar muito, porque não podia viver sem a música. Caminhou por todos os lugares, procurou debaixo de cada pedra, dentro de cada lixeira, no verso de cada folha seca, no oco de cada concha do mar... mas não conseguiu reencontrar sua música.
Um dia, sentiu quase o silêncio. Caminhou pela beira da praia, deixando as ondas ir e vir dentro de seus pensamentos, que se debatiam angustiados... As ondas foram assim, de mansinho, chegando e levando, um a um, todos os pensamentos... e o silêncio foi total, então. O vazio fez-se completo. Ela se surpreendeu de novo, por que o vazio era bom. E parou de chorar... Passou a perceber que o mundo era cheio de músicas. Entendeu, por fim, que todas as músicas brotavam dela. Que o mundo e ela partilhavam tantas incontáveis e deliciosas músicas... E voltou a ser uma menina, assim como todas as outras, de vez em quando entregando-se a um choro muito triste... mas, quando ri, se percebe fácil, é riso de cristal, que nasce do fundo da alma reconquistada...
:)
Nem triste, nem alegre, Valéria, acima de tudo humanos... Esse se dar conta às vezes leva uma vida... Outras, nem isso: com todo o aprendizado, deixamos o essencial de lado para nos dedicarmos ao supérfluo... Costumo dizer que a poesia - a Arte, como um todo - nos redime... Obrigado oela leitura seqüencial de alguns textos meus... Sou muito agradecido pelos seus comentários... Beijos... Aguardo votação...
Pepê Mattos · Macapá, AP 20/7/2008 20:50
Valéria,
Muito bom seu escrito, em forma e em tema. Gostoso de ler, pode servir facilmente, ao meu ver, como texto de reflexão sobre o amadurecimento e os véus que a sociedade nos coloca de maneira a manter o "status quo". Poderia ser rotulada de "louca", como comumente o fazem quem tem algo "diferente", um olhar mais sensível, um coração em peito aberto e por aí vai, sorte dela que não é época de inquisição, senão, como bruxa iria a fogueira, viajei? Acho que sim....rs
Muito bom, mutio bem,
Parabéns
beijo
Valéria,
Esse belo texto fez lembrar-me do prazer que sempre tive em desligar o motor do carro e pedir para meus acompanhantes, ouvirem o som da natureza, nas estrada silenciosa da zona rural, pena que durava pouquissimo, pois eles acostumados com os barulhos da cidade grande, ficavam anciosos para seguirem em frente.
Muito bom seu trabalho!
Bjs
lINDO, Valéria, que menina é essa?
Você poetizou o escrito, e tornou a menina real.
Olá Val!
Então como falei, a menina que nasceu, chorou e cresceu,
um dia ouviu o som da 'mágica' música, o amor. Despertou para as suas notas, melodias, ritmos e os milagres que a embalou...
A música não cessou. Mas como tudo na vida, há intervalos. E nestes, às vezes a tristeza se faz presente. Mas também a alegria, a vida e toda a magia de viver...
Beijos
A Valéria Geremia · Fortaleza (CE)
menina e a música
Valeu Amiga Um texto admirável cheio de beleza e magia.
Cheio do que refletir de Humanidade.
Parabéns.
Abracáo Amigo
Muito merecimento.
Retornado e deixando meus votos de sucesso.
Bjs
excelente teu texto!
meus votos com carinho
beijos poéticos!
Como tantas canções que "ficam" hospedadas um tempo na nossa mente, esste texto assim ficará um bom tempo povoando a minha mente ! muito bonito !
Um beijo !
Um beijo e uma boa noite poeta
deixando minha marca mas sem tempo pra comentar o texto
[em viagem]
Valeria,
Que lindo texto
Parece a menina que um dia existiu em nos a procura de seu caminho, através de algo que a faça feliz.
Lindo mesmo!
bjssssss
Valéria,
é com prazer que estou eitando teu poema.
bjssssss
Meu voto e a indicação pra ler algo derramado... Abraços...
Pepê Mattos · Macapá, AP 23/7/2008 14:34Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!