A menina que conheci
Sua religião é primitiva e também um tacho de angústia. Para atenuar o medo, vocês inventaram seres à sua imagem, que lhe darão o céu ou o inferno. Mas aqui, eu, os peixes e as gaivotas compreendemos as leis da causalidade e despoetizamos Deus. A nossa religião consiste em se extasiar ante o brilho do mar e o ruÃdo da luz do Sol. Você me entende?, disse ela, em tom de poema. Eu precisava infantilizar o meu coração para entender, mas já tinha 13 anos e tudo que eu queria saber era como uma menina, quase criança, tinha tanta sabedoria.
Era outubro chuvoso, as gaivotas estavam tristes sobre pedras e restos de antigas embarcações. A tarde já se equipava para a noite, eu ouvia vozes de pedras e das águas, que caÃam do céu, e me atrapalhava com anzóis, linhas e iscas. Não havia pescado nada, nem peixe, então ouvi uma fala pequena, ao ver, fiquei espantado. Os olhos da fala eram verdes e ela nadava feito golfinho. Era uma menina de boca vermelha e tudo. A pele era branca, pegava as cores do céu e tinha também pernas iguais a peixe. Santificamos a nossa amizade pra eu nunca ter que contar pra ninguém - fiquei surdo desse assunto.
Outubro seguinte, ela desapareceu entre as pedras da baÃa e nunca mais voltou – deixou uma flor aberta dentro de mim. Dizia ela, que nunca havia lido nem Proust, nem Platão e tão pouco Aristóteles ou João, mas sabia ler águas profundas e também céu, era formada em peixes, pássaros e gente. Também nunca escutou Sibelius, nem rádio em ondas médias, mas ouvia em freqüência modulada conchas e pérolas. Sua bagagem evolucionária era armazenada em tomos, então, o conhecimento passava para as gerações seguintes através dos genes. Calculei tudo aquilo e achei no mÃnimo intrigante... Voltei inúmeras tardes de chuvas e outubros e só recebi bilhetes de gaivotas.
Nunca mais soube sobre a tal criatura, assim como apareceu naquela baÃa numa tarde de chuva, desapareceu para sempre. A menina que conheci foi responsável pela insurreição da minha sabedoria sobre metafÃsica, inclusive dou aula na feira e, entre galinhas e ovos, sou filósofo.
fim
Está chegando a época de cheia no Pantanal, dias chuvosos... quem sabe Arlindo, voce não encontra a menina de boca vermelha....no Mar de Xaraiés?
Gostei!!!
saudações
Meu amigo Rangel! - foi nesse mar que a perdi.Hoje deve ser uma mulher...adulta e velha.
Abraços
Muito bom! Faz tempo que não encontro seres encantados, acho que perdi a sensibilidade necessária... obrigada por me lembrar Arlindo!
Abraços!
Obrigado Ana.
Vou te contar um segredo.Eu tenho muita propriedade em criar estas criaturas justamente porque não acredito em nada.Nem em Deus... a ciência é minha religião.Tais seres estão na mente da maioria das pessoas que conheço.
saudações
Ma-ra-vi-lho-so! Poesia e metafÃsica, filosofia e religião. Arte e êxtase!!!
Parabéns Arlindo.
A definição.
Falou tudo. Não ouvi definição melhor!
Muito obrigado,Claudio.
abraço
Prometo que se eu ver esta menina perambulando aqui por Belford Roxo eu te dou um toque. Valeu, amigo Arlindo?! Um abração.
marcio rufino · Belford Roxo, RJ 27/2/2007 21:53
Salve Marcio!
Obrigado. Acho que meninas como esta, vive no coração e na mente de algumas pessoas.
saudações pantaneiras!
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