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A menina velha

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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
5/3/2007 · 93 · 1
 

Ela era uma criança ainda, dois ou três anos, tinha um nome de ilha ou de estação espacial. Um lindo nome que ninguém acertava, Dickta ou Pkent. Na hora do almoço, que na sua casa era sempre tarde, antes do café com pão e muito depois que todos na rua já haviam devorado os seus bifes com arroz e feijão e entornado os seus copos de suco de laranja ou acerola ou goiaba, enquanto os mais velhos conversavam animadamente sobre os mais diversos assuntos, ela calçava sapatos ou sandálias, sempre assim, um ou outro, e punha na cabeça uma camiseta, qualquer uma que encontrasse pelo caminho e corria em seguida em direção ao aglomerado de pessoas, sua meta desde cedo.

Era a felicidade de Dickta ou Pkent, ouvir gargalhadas, rasgos de orelha a orelha, elogios aos desenhos que inventava quando passou a freqüentar a escola, assobios de meninos na hora do recreio. Discussões envolvendo os pais, os pais contra vizinhos, estes contra os vizinhos de trás, dos tios contra sobrinhos e destes contra os primos. Igualmente feliz quando, mais velha, via internet , recebia as mensagens do chefe contendo piadas pornográficas, convites para aniversários, casamentos, bodas de prata e velórios. Gostava de convites. Ia a todas as formaturas dos amigos e dos amigos dos amigos. Outras coisas também a deixavam muito contente. Xingamentos às suas costas e, de uns tempos pra cá, a língua de Hermano. Ele, Hermano, era bonito, cabelos enovelados e negros, caracóis. Os olhos, socados para dentro do crânio, dois punhados de areia. A boca amassada caía-lhe muito bem, e ela o amava por isso. Por estar em descompasso com as cousas do mundo e em conformidade com as dela.

Mas Hermano foi apenas uma sombra, que logo passou, passou, e não deixou rastros. Depois dele, porém, nunca mais. Nem mesmo sozinha, com as mãos, sozinha no quarto da casa antiga, na sala, cozinha ou banheiro. A casa antiga tinha muitos cômodos e em cada um deles muitos fantasmas que a assustavam, impedindo qualquer espécie de relaxamento. Sem motivo aparente, a avó vaticinara: viverás à mercê do tempo, ímpar. Não chorou. Sorriu no enterro da velha.

Das mãos moles de menina ou mulher, que a idade por vezes lhe escapava, escorregou certa vez uma garrafa, um copo, um globo feito porcelana cara, sabe-se lá presente de quem. Ocorre que, no chão, mil cacos. Centenas de milhares de pedacinhos de cacos de porcelana branca. Ela estava ali, sem dúvida. Fractais. Foi quando resolveu abandonar a carreira no banco e dedicar-se aos legumes. Aos bichinhos que criava e que dela se alimentavam amiúde. Cada um levando uma molécula. Que não faria falta alguma.

A menina cresceu e foi morar consigo. Um gozo, um silvo das paredes, das velas acesas todas as noites sobre a cômoda. No espelho, fotografias em branco. Riscara algumas, noutras permitira marcas do tempo. Era feliz às segundas, quartas e sextas, e infeliz nos demais dias da semana. Aos sábados e domingos, tirava na sorte. Nos últimos tempos, entretanto, dera pra andar fincada no estômago.

Cozinhava para si. Um segredo envolvia todo o preparo das refeições, de que ela mesma se encarregava, enxaguando a carne até branqueá-la, picando o frango juntamente com as verduras e, com a ponta da faca, desenhando formas estranhas no fundo da panela. Depois de muito tempo mergulhada em fervura, salpicava-a com venenos colhidos à horta no quintal da casa antiga. A cada dia, convites eram endereçados aos amigos mais distantes. Que viessem, nunca a esquecessem, viessem e trouxessem o máximo de amigos e guardassem bem o número da casa e a cor do muro, rosa, um rosa esmaecido inconfundível se posto em contraste com as cores vivas em derredor, mas principalmente com o céu da sua cidade. (Continua...)

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Henrique Araújo
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Débora Medeiros
 

Inquietante e muito bem escrito, Henrique. Adoro esse tipo de ficcção, que faz do ordinário uma coisa que fica na cabeça da gente, criando pensamentos...

Débora Medeiros · Fortaleza, CE 17/6/2007 13:19
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