Aos meus amigos filósofos, Renata, Milka, Sara, Maureci, Eliete e Amanda.
Ricardo Toledo Luz Pontes, brasileiro de coração, nasceu em Lisboa em 1933, vindo para o Brasil, com os pais, aos sete anos de idade. Retornou para Lisboa, no ano de 1953, para estudar Filosofia, obtendo o diploma aos vinte quatro anos. Em 1960, voltou para o Brasil, onde se estabelece até o fim da vida. Toledo Luz Pontes foi professor emérito da faculdade de Filosofia na Universidade de... por um período de mais de quarenta anos. Renomado comentador das obras de Kierkegaard, Dostoievski, Nietzsche, Kafka, Walter Benjamin, Jean-Paul Sartre e Emily Dickinson.
A vida de Toledo Luz Pontes, entre livros lidos e obras poéticas escritas, foi de poucos acontecimentos para se relatar com vivacidade. O seu biógrafo parcas informações colheu de sua infância e da adolescência. Supõe ter sido uma criança introvertida e um jovem de grande habilidade nas ciências humanas e na matemática, mas de amizades escassas. A popularidade nunca foi seu principal atrativo. Na faculdade, em Lisboa, não conheceu ninguém que lhe ofertasse grande afeto, ou que ele, tomado de enorme estima, tenha chamado de companheiro. As festas universitárias, em seus excessos, quase sempre inesquecíveis e pretensamente libidinosas, não lhe causavam curiosidade. Entretanto, Luz Pontes amou. Amou, de verdade, com cada fibra de seu corpo, uma promissora romancista chilena que se chamava Isabelle Vargas. Um relacionamento que causava espanto aos jovens amigos de Isabelle e perplexidade aos colegas de curso e de dormitório de Ricardo. “Que relação inusitada!” Diziam alguns. A exuberância de Isa (era assim que, o formal imberbe, Pontes se dirigia à amada) contrastava com o aspecto taciturno do leitor contumaz de Dostoievski. Como Ricardo se entregava de mente e alma à filosofia e de corpo e coração à Isa, ele parecia, realmente, não ter tempo para terceiros, e para a convivência com bonachões que pouca intimidade tinham com os estudos. Alguém que o ouviu comentar sua opinião sobre os colegas, com a jovem chilena, espalhou que Ricardo era antipático e vaidoso. O que lhe valeu hostilidades gratuitas até o final do curso. Quando ele concluiu a graduação, uma tragédia abateu seu recém-descoberto animo para a vida: a morte da bela romancista chilena Isabelle Vargas, do sucesso em Portugal “O Mito Adolescente”, num acidente automobilístico nas ruas de Estoril. Depois do evento desastroso, Ricardo Toledo Luz Pontes retraiu-se ainda mais, aprimorando o seu semblante sombrio e a reclusão social a qual se impingira. Daquele momento em diante, ele decidiu que seria um homem voltado para o trabalho que constituiria todos os segundos do seu dia: lecionar filosofia.
No Brasil, Toledo Pontes Luz ministrava admiráveis aulas sobre o materialismo dialético marxista e sobre o Existencialismo, em especial sobre o pensamento de Sartre e Karl Jasper. O fato de recorrer, com frequência, a textos literários fazia com que os alunos de Letras e Psicologia, juntamente, claro, com os alunos de Filosofia, lotassem o auditório no qual o Professor Doutor Pontes falava por quase quatro horas. Contudo, depois da aula, o frenesi dos discentes se evaporava perante a silhueta, praticamente amorfa, que sustentava o semblante introvertido de um homem público.
Toledo Luz Pontes deixou como legado alguns poemas razoáveis, distribuídos em três publicações, no qual sua lúcida e triste personalidade se revelava. Os versos, prenhe de contradições e convicções, proporcionavam a aparição de uma visão crítica e niilista do mundo. Ele apregoava a recusa às imposições políticas e culturais, aos dogmas e as farsas. Cantava a impossibilidade do amor eterno, mas refletia que o amor deveria ser vivido no instante de sua emergência com sinceridade e liberdade.
Alguns alunos contribuíram para a biografia narrando com serenidade, com picos de admiração, as conversas e as orientações sensatas e o rigor na formulação de uma pedagogia que privilegiasse a Filosofia desde o ensino fundamental.
Os poucos envolvimentos românticos, ou de ordem carnal, desse notório estudioso da razão e dos sentimentos humanos, não ajudaram a preencher as lacunas sobre suas ideias a respeito da sexualidade e sobre a posição política dele. Muito do que foi ou fez permanecerá oculto.
A morte, que deu fim ao apego de Toledo Luz Pontes a solidão e a soturna dedicação aos livros, ocorreu aos setenta e um anos de um percurso acadêmico brilhante, mas sem o fulgor colossal daqueles que celebram a existência.
A jornada de um filósofo da formação a solidão.
pesquisarei vida e obra de Toledo Luz Pontes.....
tamanha força de expressao e emoçao em seu texto, meu caro.
gostei mto.
bjsssss;
Interessante como os contrarios se atraem e como as pessoas que amam de fato conseguem se manter firmes
cultuando um unico amor e se fazendo forte perante as adversidades mas levando a vida com sabedoria e se aprimorando cada vez mais.
bjs
Merecida e elaborado texto.
Saúde e Paz. jbconrado.
o próprio nome acusa
um homem iluminado!!!
Alô. Aqui apreciando novamente seu precioso post...
Abração.
suas palavras tem muito impacto pra mim...
Greyce Kelly Cruz · São Luís, MA 16/8/2010 23:10
passando para desejar uma ótima semana!
abraços...
bela homenagem, repassando conhecimentos e experiências, tirei proveito de todo texto.
parabéns. abraços
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