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A MULATINHA - Conto

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jjLeandro · Araguaína, TO
1/1/2007 · 109 · 1
 

A MULATINHA

jjLeandro

Gente também tinha dono no sertão. Era um costume que permanecera mesmo depois de extinta a escravidão no final do século XIX. Anunciação tinha seu dono. Não reclamava disso. Vivia a expensas do coronel Dioclécio e bastou-se por algum tempo com os seus dengos e os presentes que lhe enfeitavam, atraindo os olhares de cobiça dos outros homens de Piabuçu.
Quando se sentiu cobiçada, descobriu a malícia e a lascívia.
Sentimentos e qualidades tais adquiridos a partir de uma lenta transformação interior que quando pronta se expressava em seus olhos como a melhor prova desse amadurecimento. Eles deixaram de ser aqueles olhos de menina — meigos e ingênuos — e passaram a enxergar o mundo com as artimanhas de quem tudo deseja seduzir. Nivelava-se afinal aos que a cobiçavam.
Ocupado com os afazeres na roça, o gado e os plantios, o coronel soube da transformação que se operara em Anunciação muito tarde, pelo falatório e o despeito dos homens, quando prevenir era já impossível e só restou remediar para restabelecer a honra. E a tardança em tomar conhecimento por muito tempo se justificou pelo medo, além da ocupação na fazenda. Ninguém se atrevia a lhe contar uma história que maculava a sua honra: o medo de morrer é comum a todos os homens independentemente de tempo e lugar. Quem ali tinha coragem de provocar a ira do coronel ao ser portador de péssimas notícias? Um medo suficiente para impedir de chegar aos ouvidos do coronel a malfadada notícia da traição, mas não para evitar que cada um dos homens do povoado corresse riscos se deitando com Anunciação. Quando esse equilíbrio se rompeu, o despeito geral falou mais alto. E, mesmo diante dos riscos, o coronel foi informado.
Mas enquanto isso não aconteceu, como veremos adiante, em Piabuçu somente o padre não fornicou com ela embora tivessem contatos quase diários, ouvindo todos os seus pecados no confessionário e ministrando penitências que, se estivesse disposta a cumprir, a deixariam para sempre com calos nos dedos de tanto bolinar as contas do rosário e por toda a vida ajoelhada diante de um oratório. Mas diziam que não era o remorso e o medo do pecado que a levavam à igrejinha. Os remoques das más línguas insinuavam que ela desejava seduzir o padre em suas constantes visitas ao confessionário. Era o único homem que lhe faltava na cidade. Jamais conseguiu. E o padre, para ser prático e ter tempo para os outros moradores que também pecavam, dizia-lhe, quando ela se prostrava diante do confessionário: “Anunciação, confesse apenas o último pecado”.
Ninguém era destemido ou louco o suficiente para ter um romance aberto e duradouro com Anunciação. Tudo acontecia furtivamente, na proteção da noite e no interior dos barracos de pau a pique incapazes contudo de impedir que os gemidos lascivos e as imagens do coito vazassem, pela falta de proteção das finas paredes e os muitos buracos que elas tinham.
O medo, o acordo tácito entre os homens para usufruir o quanto pudessem do pecado e os afazeres do coronel fizeram com que Dioclécio ignorasse por muito tempo as traições de Anunciação. Quando Dioclécio vinha da fazenda Potência para o povoado, os homens afastavam-se, Anunciação era uma mulher solitária que sabia queixar-se do seu isolamento. O convencimento que o sorriso maroto deixava transparecer nos finos lábios do coronel era para Anunciação a certeza de que ainda estava incólume às intrigas.

PARA CONTINUAR A LEITURA ABRA O ARQUIVO WORD EM ANEXO

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informações

Autoria
jjLeandro
Ficha técnica
Jornalista e escritor, 46, residente em Araguaína -To. Autor do livro de poesias Quase Ave, com o qual ganhou o concurso literário nacional para autores inéditos Cora Coralina em 2002, em Goiânia
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Marcos André Carvalho Lins
 

rapaz que texto longo!! mas perfeito, conto de primeira!! confesso que não li ainda até o final, mas vou lê-lo posteriormente com calma.( quase uma saga !!) excelente estilo e linguagem.
abraço e bom início de ano!! ( também passaram batidos alguns outros contos teus que nem mesmo votei, mas se forem como este , são espetaculares! )

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 31/12/2006 20:58
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