Foi por aqueles dias, nos quais descobriu que o tempo não desencanta o ser mulher, que foi surpreendida como tal.
Foi no espelho que aquilo começou. Reparava as suas formas, suas texturas e consistências. Não estava mole, não estava flácida, também não estava perfeita, mas lhe agradava sua aparência.
Foi uma descoberta dessas que inquietam. Queria afirmá-la ao mundo, poderia brigar por ela: sentia-se bonita, sentia-se mulher, sentia-se femininamente fêmea.
Foi um deslumbramento particular. Não precisava brigar por isto. Não precisava afirmar isto. Não sabia o que fazer com isto.
Foi um impacto passageiro. Era melhor assim. Parecia tarde, ou mesmo inconveniente, ter se dado conta de que era uma mulher, de que esta era uma condição imune ao tempo.
Foi fazer compras. Vestiu-se com despojamento. Prendeu os cabelos sem cerimônias nem rituais. Apenas juntou-os com suas mãos grandes e firmes. Sentia a liberdade da juventude dentro de si, viva, pulsante, próxima, sua. Precisava de maçãs.
Foi então que percebeu que no mercadinho da esquina tinha tudo (ou mais) que no grande supermercado no qual habitualmente fazia suas compras.
Foi a primeira vez que se sentiu cidadã do seu bairro. Estava ali tão anônima e tão igual que se sentia especialmente acolhida. Havia uma graça completamente nova nesses pequenos acontecimentos.
Um olhar a fisgou. Arrebatou-a da cena. Denunciou o seu vestido, denunciou seus cabelos; denunciou sua descoberta. Aflita, disfarçou procurando desvencilhar-se. Procurou algo nas prateleiras, pegou um pote de soda cáustica.
Não havia, porém, conseguido se livrar do olhar. Lembrou-se que precisava comprar abacaxis. Julgou-se aliviada. Procurou as caixinhas com chás. Mas algo pesava sobre o seu ser: “Gostei de você”, disse a voz que pertencia aquele olhar.
A voz atingiu não somente os seus ouvidos. A vibração do timbre solene fez tremer suas pernas e acelerou os batimentos do seu coração. Sentiu que o seu sangue estava ainda mais vermelho e quente, quase a ponto de lhe transformar a tonalidade da pele. Apressou-se em pegar o álcool. Sentiu perigo.
Como que traída por si mesma, ouviu escapar de seus lábios uma resposta: “eu também gostei de você. Mas, isto é tudo. Acabou”. Afastou-se rapidamente, foi pegar maçãs. Que pecado cometera. Não podia crer. Falara mesmo aquilo?
Já em casa, lembrou-se de que havia esquecido o sabão.
Vitória,
Adorei. Leve e profundo ao mesmo tempo, se é que cabem adjetivações.
Um abraço,
Felipe
Felipe, outro abraço!
Gostei muito do seu comentário!!
+ outro
Vitória!
Eu gosto muito dos teus textos. Adorei mesmo.
Curioso, eu fiz algo com maçã e mulheres. veja
http://www.overmundo.com.br/banco/o-espaco-o-tempo-e-as-macas-afernandez
saudações pantaneiras
Alindo, fico bem feliz que vc goste. Sempre leio os seus contos. Aqui no overmundo são os meus preferidos. Muito bom mesmo!
saudações paraibanas!!
**vou agorinha ler!
Eita, faltou um "R" no seu nome, mas... acho que não fez falta!! rs
Vitória Maria · Campina Grande, PB 30/1/2007 09:41ótimo conto Vitória; leve, agradável fica um gosto de quero mais... E o retoque da foto tá lindo, adorei a arte. parabéns!
Claudiocareca · Cuiabá, MT 30/1/2007 12:18
um grande prazer receber seu comentário!!
muito obrigada Cláudio!!!
abraço!!
Nossa! Muito atraente esse pequeno conto!
Fico esperando, quem sabe, uma continuação.
Muito bom!
Grande Carlos! muito bom ter você por aqui!!
Sou sua fã!!
abraços!
Valeu o incentivo Carvalho!!!
abraço!
Femininamente fêmea
Gostei muito da sua concisão. Você contou uma bela história sem ser prolixa, quase sem adjetivos, desfiou seu conto delicadamente com se conversasse num botequim com um copo de cerveja bem gelada nas mãos... E demonstrou também ser femininamente fêmea.
Luca fico bem orgulhosa em ter leitores como você e ainda mais por comentários assim tão delicados e bonitos. Muito obrigada!!!
abraço máximo!
Mais uma vitória, Maria. Uma vitória feminina, como seu texto. Sensorial, sensual, paraibano, nordestino. Um texto com destino e tino. Muito bom. A gente acaba até ficando chato de tanto repetir parabéns, parabéns, para...
Bjs.
Ah Nivaldo... fico cheia de sorrisos. Me faltam palavras!!!
*** (suspiro)
Um abração!
* Mui grata!!!
Uau! Adorei! Adorei mesmo! - a ilustração também é sua?
jujuba · Santo André, SP 30/1/2007 17:23
Ah Jujuba, a ilustração não é minha. Linda né?
e eu adorei que você adorou! valeu!
abraços!
Espetacular!!!!
Para que falar tanto??? Para que procurar demonstrar esse apreço doido por essa mulher com mil palavras??? Eu não tenho verbo, substantivo e nem adjetivo para mais uma vez agradecer pela sua generosidade de dividir o seu talento conosco!!!
Bravo!!! Bravo!!! Bravo!!!
um abraço de alegria para vc meu Caro Osvaldo!!!
grata! grata!! grata!!!!
Linda Vitória: Que a Luz de toda Luz, seja sempre contínua e feminina em vossa caminhada para a eternidade.
Parabéns
Olá Carlyto!! muito obrigada viu?
abraços!
Que bacana é este texto e esta maçã-borboleta é muito original. Parabéns.
Carlos Magno.
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