Os shoppings centers são lugares conceituais. Basta dizer ‘vou ao shopping’, assim, intransitivamente, porque são todos iguais.
Numa de minhas idas ‘ao shopping’ - experiências quase sempre traumáticas - observei, enquanto tomava um café, o trabalho dos homens e das mulheres que fazem a limpeza das praças de alimentação. Atentei para uma mulher de seus, talvez, trinta e tantos anos, de uniforme, pano na mão e toca na cabeça. Elas transitam fantasmagoricamente por entre as mesas, recolhem o lixo deixado pelos ‘consumidores’, passam o pano sobre a mesa e saem, sem trocar palavra com ninguém somem por entre outras mesas. Olhei em volta e percebi que somente eu a enxergava - depois soube que estava enganado.
Soube, da boca da trabalhadora que se via como faxineira, que é proibida qualquer aproximação entre ela e qualquer ‘consumidor’, - ela é treinada para passar despercebida, ignorada, desconhecida. - É uma regra capital, a primeira coisa que aprendem. Contudo, como eu disse, meus olhos não eram os únicos a segui-la em suas incursões discretas por entre as mesas. Segundo ela, há seguranças cuja função, entre outras coisas, é vigiá-las, garantir que elas cumpram a sua função de ‘mulheres invisíveis’ que limpam o ambiente.
Para mim, as sensações que esses pensamentos ensejam são múltiplas e variadas, ligadas às formas de existência obtusas que a sociedade impõe à humanidade. Resumo, porém, a questão a um sentimento acerca do trabalho: durante séculos a classe detentora do poder pregou a dignidade do trabalho como forma de aplacar os pobres, e acabou, ela mesma, acreditando em sua doutrina, ainda que não a praticasse sob as mesmas condições dos mais pobres. Daí provém uma romantização do trabalho e uma demonização do ócio como pai de todos os vícios. Mas na realidade mais simples e imediata, os trabalhadores encaram o trabalho como deve ser encarado, uma forma de ganhar a vida, e é do lazer que retiram, aí sim, a felicidade que a vida lhes permite desfrutar. E nos shoppings centers, onde tudo é um cenário, é proibido lembrar aos trabalhadores que estão lá em busca de lazer, que existem trabalhadores que estão lá em busca de sobrevivência. Não se pode estragar o espetáculo!
Um bom texto, Fabrício!
Também já havia reparado nessas moças invisíveis. Engraçado como elas se revestem de silêncio e envergam seus olhares para baixo.
Em alguns shoppings mais populares elas até trocam uma palavrinha (mínima) com os consumidores, visto que elas trabalham nos próprios restaurantes.
Noutros (onde a elas só cabe recolher o material deixado na mesa e nada mais), elas realmente evitam trocar palavras, atrapalhar conversas, aparecer...
Nossa sociedade, suas evoluções e contradições, hein...
Abraço
http://interludios.blogspot.com
Fabricio Kc · Salvador (BA)
Um Trabalho de coragem muito bem feito.
Revela esses procedimentos de vigiarem as limpadoras que tem de passar invisíveis, o que pode constituir formas de envergonhar essas trabalhadoras e criarem um problema ainda maior do que elas serem vistas e até receberem agradecimentos do público usuário das mesas de refeições .
Seu Trabalho é uma grande contribuição pra nossa cultura e para o Overmundo.
Parabéns voto e abração
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