Todos nós apenas sentimos ciúmes do que gostamos e nos é importante. Tentarei convencê-los que isso é realmente verdade com a pequena história que vou contar.
Nos tempos de faculdade, ali pelos idos de 1980, nas constantes rodas de discussão nos botecos do setor Universitário em Goiânia, um dos colegas, nos intervalos das aulas ou quando gazeteávamos, cada vez que o assunto se manifestava, era incisivo ao dizer que duas coisas na vida ela não emprestava, mesmo ao custo de perder o amigo: “minha mulher e meu violão”.
Eu que não tinha mulher nem sabia tocar, apenas ouvia a sua sentença; ele devia ter lá suas razões.
Tempos depois, numa outra rodada — constantes nos finais de semana —, o assunto voltou à pauta e ele reafirmou sua posição, um pouco modificada entretanto:
– Duas coisas não se deve emprestar: mulher e violão!
Percebendo a alteração, testei a sua convicção:
– Mesmo? Isso é ponto pacífico?
Ele levou o copo de bebida à boca, lambeu os lábios, pôs o copo sobre a mesa novamente e falou:
– Bem, em casos extremos, empresto a mulher.
Todo mundo riu. E antes que alguém falasse, eu me adiantei:
– Sabe, já que não sou chegado a violão, nem tocar eu sei, você me empresta a sua mulher?
Ele olhou rápido para mim. Tive a sensação que fora longe demais e esperei que se não me desse um soco ao menos seria grosseiro.
Mas nada disso. A sua resposta veio com humor.
— Infelizmente não posso.
— E por quê? — tornei, debaixo dos olhares apreensivos e dos risos contidos dos demais colegas.
Ele fez uma careta séria, bebeu outro gole, coçou a testa com a ponta dos dedos e em seguida pôs a mão amistosamente sobre o meu ombro.
— Não é marcação com você, entenda, é que ela está emprestada.
—Jura?
—Sim, juro. É que nenhum dos meus amigos gosta de violão...
—Que baita coincidência!
Os outro colegas cairam na gargalhada.
Eu continuei o papo, procurando demonstrar seriedade enquanto queria mesmo era rir.
— E você não fica chateado com isso? Quero dizer, com os seguidos empréstimos?
— Nem um pouco.
Diante de tanto altruísmo eu quis saber a razão, afinal se a mulher fosse minha tenho certeza que não a emprestaria em hipótese alguma. Se tivesse violão, talvez o emprestasse. Mas a mulher, não!
E ele foi claro:
— Sabe, agora toco toda noite em uma boate, é meu ganha-pão. Dou graças a Deus porque meus amigos não se interessam por meu violão. Já pensou se todos eles soubessem tocar? Com tanto empréstimo seriam até capazes de estragá-lo.
A mesa toda vibrou numa só voz, levantando os copos em um brinde:
— Arlindo, você é um cara de sorte!
Ele secundou, sozinho:
—Meus amigos, vocês também!
jjLeandro
Mais uma crônica do cotidiano. Dessa vez uma reminiscência dos tempos da faculdade de Jornalismo em Goiânia.
Cada dia mais engraçado você, Leandro! Rsrs...
apple · Juiz de Fora, MG 10/4/2008 20:40
rsssssssssss....
Eu não devia rir, mas é irresistível...
Delícia de ler.
beijos
Saibam Apple e Saramar: Isso é verdade! Um amigo dizia a todos que não emprestava nem a mulher nem o violão. No resto me excedi para possibilitar a galhofa.
abcs
Crônica maravilhosa.Dei boas risadas... Arlindo um cara sábio rsrs
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 11/4/2008 21:17
Bravo!!!
Bem bolado, JJ.
Aquele Abraço.
http://www.overmundo.com.br/banco/tribunal-2
Uma bela crônica merece um banco e publicação.parabéns!
Está lá imortalizado.Um beijo em seu coração.
Amei!!!!...votado...estou na fila de edição com MULHER BANDIDA deixe seu comentario sobre ela...espero que vc goste...
http://www.overmundo.com.br/banco/mulher-bandida
beijos no core...
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