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A Mulher Que Ficou

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Luciana Nabuco · Rio de Janeiro, RJ
7/7/2008 · 116 · 10
 


Contava seis mulheres. Uma para cada dia da semana, e no sétimo o repouso merecido, privilégio até do Divino Criador. Companheiro dedicado, pai extremoso de 14 rebentos da raspa de tacho ao varão recém formado doutor desses de “bostinha no dedo”, rubra jóia, orgulho do pai.
Magalhães já embicava os sessenta sempre levando na frente a liberdade,de menino andava nu pelos cantos, cabrito inocente e selvagem. “Menino desaforado, isso, sim”, era o eco permanente da casa incompreensível aos pendores naturalistas daquele tico de gente. Verdadeira chateação essa de se vestir, cobrir, amarrar, dar nós, abotoar, enfiar por baixo, por cima; isso sem falar no ridículo das cores, o costume de marinheiro das missas de domingo, a obrigação de ser cabide educado às mãos zelosas da mãe, tias, avós orgulhosas de seus bordados e tricôs.
Quando crescesse aquela tirania de mulheres iria acabar. Donzela ou puta, ninguém iria domá-lo, seu leite iria espalhar pela terra a perfumar num rastro comprido, torpor das fêmeas sequiosas de seus carinhos. Agrados dados somente a quem merecesse, ou soubesse entender, sujeito livre, selado ao acaso das horas vadias.
O doce, porém, sempre acaba quando a boca se enche de gosto bom. Galo morto, galo posto. Viúva, a mãe reclamava casamento, queria netos antes da cabeça se cobrir totalmente de fios brancos, sinal do fim próximo, soltura da alma. E mais uma vez elas se intrometiam em seus acertos, arte feminina de tecer em fios invisíveis as tramas da vida, seduzir, escolher, dando linha a ir enroscando o indivíduo até a total castração!
“E tem mais”, vaticinava a matriarca, “esposa digna é a que não chora cortando cebola! Mulher que chora nesse serviço é ou vai ser pecadora!”.
Finalmente se arranjou a tal, rotunda, farta em quadris, sinal das boas parideiras, séria, moça distinta e de pouco conversar. “Meu filho, mulher tem é que saber de sua lida sem muito discurso”. Amarrou-se então Magalhães, jovem e também cheio de saúde à silenciosa e eficiente Ana, mais tarde chamada respeitosamente pelo marido de don’Ana, já que nas intimidades ela não acusava um ai,um gemido qualquer de prazer ou até mesmo de incômodo! O que se fizesse estava bem, era obrigação a cumprir para o aumento da família. E foram oito para orgulho do pai e ocupação da mãe.
O pequeno ainda sugava nos peitos da mulher, quando lhe veio sensação de dever cumprido,e logo já estava enrabichado por uma polaquinha frufru, que lhe reacendeu o gosto pela coisa ao remexer suas anquinhas em gritos descarados, música que lhe fazia falta. Ficou à terça-feira.
Tempos depois emprestou o lenço à moça que estava ao seu lado no cinema, filme triste e ela com seus enormes olhos castanhos disfarçando o choro. Ligou-se primeiro de amizade, aos poucos descobrindo os pedaços de sua vida, até o dia em que já bem íntimos, ele viu o singelo vestido de noiva pendurado no armário. Esperou inútil o noivo que nunca chegou. Entendeu o refúgio em salas escuras para poder chorar à vontade, era o pretexto do que tinha vergonha de confessar. Ficou à quarta-feira.
Encantou-se também pela Laurinda, cozinheira supimpa do trivial ao requintado, e na cama se lambuzava glutão, do mel dos seus segredos, que ela, generosa, jamais se fartava em lhe oferecer... Ficou à quinta-feira.
A outra pequena vinha com uma mãe cegueta e um menino em fraldas, mas não era afeita à tristeza. Conquistou-lhe pelo riso sincero, isento de sedução e trapaças, era transparente. Enchia de leveza em seus dias sombrios e seu colo representava as acolhidas e o perdão. Ficou à sexta-feira.
Mas sempre há uma perdição.
Era a que não pode ser moldada. Corre solta feito água e sendo assim, ora é barrenta, ora é cristalina, envenena e cura, nunca é por assim dizer, uma só. O recebia de cabelos presos, para que ele desfizesse o penteado caprichado e se derretesse dentro do seu corpo morno. Os beijos, para ela,nunca bastavam,havia sempre tempo para aquele último, da despedida apressada do “até a semana que vem”.
Começou a dar ouvidos e razão às vizinhas mexeriqueiras que falavam de feitiços e amarrações, forma certa de o segurar definitivamente. Insegura, deixou-se arrastar pelos terreiros da Gamboa, entrou na roda viva de trabalhos e agrados aos guias e entidades do além.
E pedia sincera, ignorando a maldade das que a acompanhava, sabedoras do motivo real de suas inquietações. De todas as mulheres de Magalhães, era a única de oveiro seco, impossibilitada de gerar, terra salgada, árida. E tinha medo do abandono, da solidão porque amava muito, mais do que jamais oferecera.
Sábado de carnaval.
Ele tinha prometido levá-la ao baile. Mascarados, ninguém os reconheceria, a reputação preservada,brincaram, dançaram feito criança, ele quis voltar um pouco mais cedo, história de aproveitar o resto da noite sentindo a sofreguidão nos seus olhos.
Gelou pela manhã quando ao se trocar, viu suas peças atadas às dela, bizarra arrumação. “Acorda, Marlene, que sandice é essa?”. De nada adiantaram os pedidos, o choro, o soluço incontrolável, deixou-a naquele instante, amuado, porque lhe perturbava a idéia da prisão invisível, temidos fios de mulheres matreiras.
Desfez-se dela e a largou em um canto qualquer da memória, desgostando também com o passar dos anos das outras companheiras, tendo apenas como vínculo afetivo os filhos.
Compreendeu que sua liberdade era ilusão, capricho de menino, tinha regrado sua vida ao cotidiano de mulheres que aceitaram serem divididas, partilhadas. Acomodadas em vidinhas pequenas.
Tudo tinha se tornado água parada. Como gostaria de voltar o tempo e se perder de uma vez só...


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Autoria
Luciana Nabuco
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Ivy Menon
 


"O doce, porém, sempre acaba quando a boca se enche de gosto bom"... Muito bom! o texto todo uma Jóia!
bjim

Ivy Menon · Maringá, PR 6/7/2008 18:49
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celina vasques
 

Meus votos!

beijo no coração

celina vasques · Manaus, AM 6/7/2008 19:49
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Ari Donato
 

De uma vez só, com uma mulher só? Quem sabe...
Bom texto. Gostei.

Ari Donato · Salvador, BA 6/7/2008 21:21
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Eric Araújo
 

Que lindo... escreves de forma caseira e gostosa... leitura fácil e com um ritmo bem gingado para acompanhar o balançar do berço dessa criança que resolveu brincar com o coração... o legal de tudo é a conclusão do texto, que pra mim trás uma lição importante... que nos percamos uma vez só... melhor assim :)
parabéns!!

Eric Araújo · Belo Horizonte, MG 7/7/2008 00:46
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clara arruda
 

Adorei seu texto.
Deixo meus votos e a publicação.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 7/7/2008 02:35
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Doroni Hilgenberg
 

Luciana, belo conto. Lembrei da lição: " quem tudo quer tudo perde" e fica só.

bjssss e Parabéns!

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 7/7/2008 18:54
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victorvapf
 

victorvapf · Belo Horizonte, MG 7/7/2008 19:53
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alcanu
 

Já chegou brilhando, Luciana !
Um beijo !
Alcanu

alcanu · São Paulo, SP 8/7/2008 09:54
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Falcão S.R
 

Luciana,

Prazer imenso curtir a leitura de sua obra.

Parabéns!

Votado!

Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 8/7/2008 23:31
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Sérgio Franck
 

Luciana, gostei muito.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 9/7/2008 11:16
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