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A ONÇA CANTORA - Conto - PARTE I

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jjLeandro · Araguaína, TO
27/12/2006 · 99 · 1
 

A ONÇA CANTORA - 1ª Parte



Há casos que um cronista jamais devia contar — por mais interessantes que sejam — para evitar o risco de ser confundido com caçador ou pescador. Por achar que há mais absurdo na vida do que numa história — entre tantas que acontecem ou são inventadas — não me vou escusar de recontar a que ouvi na fazenda em conversa de peão.
Manoel entretinha com seu fabulário — no intervalo do almoço — os oito homens que roçavam pasto. Boquiabertos deixavam-se enlear pela vivacidade do vaqueiro quando ele resolveu então forçar a credulidade dos peões com a história da onça cantora. “Cantora?”, surpreendeu-se um mulato alto e espigado. “Cantora sim”, redargüiu Manoel. O homem calou-se, mas olhou para os companheiros em busca de aprovação para a suspeita de que ouviriam uma patranha. Um velho de pele curtida piscou um olho para acalmar o mulato e permitir Manoel deslindar o sucesso.
E ele não se fez de rogado: “Numa noite de puro breu eu, o Anacleto e o Zózimo fomos caçar uma onça faminta que andava comendo uns bezerros na fazenda. Praticante de um vezo recriminável, a bicha atacava nos pastos do fundo da casa, onde vocês estão roçando agora. Para a espera eu levava a espingarda, o Anacleto levava a lanterna e a isca para atrair a onça — um bezerro desmamado no laço — e o Zózimo seguia-nos de intrometido, calçado em sua chinela de dedo, ouvindo o radinho de pilha que não tirava do ouvido.
No local onde ela mais atacava, amarramos o bezerro em um tronco de faveira e pusemo-nos a esperar empoleirados na própria árvore de copa bastante grande. O bezerro berrava constantemente, e isso era positivo para atrair a fera. E nem precisou muito para ela aparecer. Veio pisando macio sobre as folhas do braquiarão. Eu e o Anacleto, ouvidos aguçados e treinados — matreiros de muitas caçadas —, não nos enganamos: era a própria que vinha em busca do alimento fácil. O Zózimo, o desleixo em pessoa, continuava com o radinho pregado ao ouvido, encantando-se com as músicas românticas despreocupadamente. A um sinal meu, Anacleto alumiou a cara da bicha quando ela já armava o bote para a presa irrequieta. Mirei para atirar na testa do felino. Foi então que o Zózimo despregou do pau e caiu quase debaixo dos queixos da maldita. Ela esqueceu o bezerro e partiu pra cima do coitado. Atarantado, ele abriu um berreiro e jogou contra a onça a única arma que tinha em mãos: o radinho, que, ainda na queda, elevara o volume ao último tom. Acertou bem dentro da boca da bicha. Ela o engoliu e, espantada com a zoada da música, sumiu no mato. Descemos da faveira e fomos acudir o Zózimo.
Foi aí que começou a correr a fama da onça cantora.

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Autoria
jjLeandro
Ficha técnica
Jornalista e escritor, 46, residente em Araguaína -To. Autor do livro de poesias Quase Ave, com o qual ganhou o concurso literário nacional para autores inéditos Cora Coralina em 2002, em Goiânia
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Sebastião Firmiano
 

Bom de verso
Bom de prosa.
Qual a próxima surpresa?

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 27/12/2006 01:11
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