A ONÇA CANTORA 2ª Parte
Por onde passávamos nas redondezas havia notícia dela. Uns diziam que ela executava programação para todos os gostos. A música popular ela tocava mais pela manhã; à tarde agradava quem era fã da música brega; e à noite encantava os corações apaixonados com muito romantismo. Outros diziam com acerto o resultado das partidas do campeonato de futebol. E quando eram inquiridos, revelavam: ‘ouvimos da onça’. Não é de ver que ela virou o xodó do povo do sertão? Ai de quem falasse de caçar animal tão versátil. Bem, até que caçavam, mas só até encontrá-la. Depois se punham escondidos detrás de tocos ou mesmo em cima da copa das árvores para curtir os últimos lançamentos da música na capital. Sabedores de que a onça também falava desembestadamente, pois depois de tocar uma música o locutor dizia o nome do sucesso e o do cantor, quem ia à cidade mandava recados, combinando assim antes: ‘mando pela onça’. Tinha-se então que na hora aprazada procurar a bicha pelo mato. E não era difícil, pois com tanta zoada bem de longe já se ouvia o falatório. No período eleitoral, durante a propaganda política obrigatória foi quando ela conheceu mais descanso. Ninguém a incomodava nesse horário, e quando perguntavam sobre as propostas dos candidatos a resposta do povo estava na ponta da língua: ‘quem vai dar ouvidos a conversa de onça?’ Mas isso foi por pouco tempo, logo a perseguição passou novamente a ser em tempo integral.
Por cumprir função de comunicadora social, um vereador do município onde ela falava e cantava quis conceder-lhe o título de cidadão ou cidadã honorário. Não houve espanto nem discórdia entre seus pares na Câmara, apenas inveja pela brilhante idéia. Mas o título não foi concedido pela impossibilidade de determinar — malgrado muita investigação — se o animal era macho ou fêmea, para a distinção ser exata.
E nesse vaivém a onça continuou expandindo — contra a própria vontade, supõe-se — sua prestação de serviços. Como no sertão é complicado levar um padre para rezar missa seja porque é distante da cidade, seja porque as estradas ínvias não permitem a entrada nem de carro com tração nas quatro rodas, as velhinhas, depois de muito matutar, perguntaram a Adamastor — uma espécie de pajem da onça — se ela não rezava missa também. Abriram um largo sorriso de contentamento com a resposta afirmativa. Já no domingo seguinte a romaria de gente pelo mato em busca da onça pra acompanhar a missa foi grande. O bicho, acuado por tanta gente e alguns cachorros, empoleirou-se num pau alto e ali ficou. O povo contentou-se em ficar debaixo acompanhando todos os rituais da missa. E como ninguém se contenta com pouco, logo havia gente querendo que a onça batizasse os pagãos e casasse os amancebados na próxima oportunidade. Foi uma luta convencer que ela não executava esses misteres.
Mas a vida de onça é dura, essa que o diga! Por dois motivos ela começou a definhar: quando aproximava de uma presa para se alimentar, a dita cuja fugia alertada pelo som do rádio; e o povo não a deixava em paz — dia e noite estava em seu aceiro para ouvir música, jogos de futebol, recados, missas e tudo o mais.
Não deu outra. Um belo dia a onça foi encontrada morta por inanição. A comoção, tá na cara, foi grande. De tudo que é lado apareceu gente para ver a famigerada onça cantora. Levada para o pátio da fazenda onde comia bezerros, o João Açougueiro resolveu autopsiá-la em busca do surpreendente rádio que falou por mais de seis meses ininterruptamente. E então a surpresa foi maior ainda: no bucho da coitada fazia tempo que não existia mais rádio algum”.
No final, fiquei um pouco triste.
A onça é a natureza/ O rádio, a tecnologia e o progesso rudimentar invadindo a natureza e matando.
E o povo? Coitadinho do povo!!!
Acredita em tudo, corre atrás de uma notícia boa.
Coitadinho do povo!!!
Seu conto é fantástico.
Parabéns.
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