A orelha

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Henrique Araújo - Grupo TR.E.M.A · Fortaleza, CE
21/6/2007 · 38 · 0
 

Ela me pediu a orelha.

Antes, quero dizer antes do pedido, banho frio, quase gelado, xampu ruim, nem sei de quê, mas muito ruim mesmo. O sabonete, esse era de erva doce ou qualquer coisa parecida com uma planta de folhas aromáticas usada para fazer cosméticos que são vendidos em revistas. Presente de uma colega de trabalho. Acho que ainda tem uns quatro envoltos em plástico brilhoso dentro da minha gaveta. Aproveito pra perfumar as cuecas e as meias. Um dia tentei colocar no bolso da camisa, ela ficou um pouco enviesada. Desisti da idéia.

Eu era desapegado das coisas e muito generoso com as pessoas, daí ela ter ligado e pedido quase aos prantos, às duas da manhã, “a sua pode me ajudar bastante”. Referindo-se à orelha, ora bolas, e tentando a um só tempo explicar numa voz dispersa, inexata e cheia de desvãos que nada poderia interferir no rumo dos acontecimentos. Enfatizou os acontecimentos como se, realmente, tudo pudesse acontecer depois de atendido o seu pedido. Um claro, óbvio e até mesmo estúpido e nada sofisticado contra-senso. Como numa história ordinária, dessas em que o enredo prende e solta e volta a prender, punitivo e bondoso, alternando-se nesses estados, interpolando-os em escala nunca antes vista, eu disse “espera que eu vou pensar”.

Pensei um pouco com o telefone suspenso numa mão e um cigarro ainda apagado na outra. Ia acender, estava prestes a riscar o fósforo quando ela me ligou naquele estado e foi logo dizendo que se eu não quisesse ela entenderia, não era comum alguém como eu oferecer orelhas a pessoas como ela. Tinha ligado apenas porque... Nem lembrava mais o porquê, mas apenas que ligara, choro intermitente, tanta coisa dando errado na sua vida, todos lhe viravam as costas exatamente quando mais precisava, sentia-se frágil, uma menina novamente posta no colo do pai, amém.

“Preciso dela, você sabe”. Eu não sabia.

Não disse nada, apenas olhei através da janela. Além, volumosas nuvens de chuva formavam figuras zombeteiras, um menino correndo atrás de bola, outro soltando pião. Sonho antigo, voar acima das nuvens. E cair das alturas. Ela queria voar e permanecer suspensa por cordas invisíveis. De onde sentenciaria: todos pequeninos. Acreditava, tudo se resolveria com a orelha. Eu duvidava, ela não.

Disse que iria pensar mais um pouco e desliguei sem ouvir resposta. Estava aflito, sem saber que fazer, se lhe oferecia a orelha – “vai facilitar muito a minha vida” – ou simplesmente a ignorava. Era fácil ignorar alguém, bastava mudar-se de cidade ou de bairro. Deixar de freqüentar os antigos lugares, como bares, restaurantes ou cinemas, apartamentos de gente comum, amigos pertencentes àquela região que na escola aprendemos a chamar de ponto de intersecção. Inclua na lista bibliotecas, mestrado ou mesmo saidinhas maneiras. Era fácil ser invisível. Restava saber se valeria a pena, se estaria disposto e se, depois de tanto tempo, nada mais me prenderia, não sentiria falta dessas coisas e pessoas e lugares todos que por anos tinham conferido certo ou total sentido a minha vida. Estava em dúvida. Ela, não.

CONTINUA...

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Henrique Araújo
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