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A ORELHA - Conto

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jjLeandro · Araguaína, TO
10/4/2007 · 104 · 0
 

A Orelha






Esta história já conta tempo que a ouvi. Sete ou oito anos. Mas esse interregno não é confiável, pois essas histórias - por serem tantas - idênticas em diferentes lugares mais parecem folclore que fato real.
Juraram-me que esta aconteceu, mas invariavelmente assim diziam em todas as pensões de interior – onde eu descansava à noite do dia atribulado de vendedor de tecidos. Ouvia muitas histórias à espera da hora de dormir, à luz da lua sob uma árvore, que naquela época a luz elétrica não chegava a todos os rincões com a mesma velocidade do homem. Era praxe só contar a história depois de convencer o interlocutor de que ela era veraz, com isso garantindo uma aura de autenticidade à narrativa e excitação ao ouvinte. Eu aceitava o jogo e deixava-me enlear às primeiras palavras, abrindo caminho à imaginação criativa do fabulista. Aquele me disse:
— Senhor, o juramento é um velho código de honra de cavalheiros. E quando feito sobre o sangue derramado, torna-se impossível transigi-lo.
Assim aconteceu com Jerônimo Macedo, comerciante do lugar, meio século atrás. Ele era então um velho de oitenta anos e viu-se com tão avançada idade diante do último desafio de sua vida: vingar a morte do único filho restado adulto entre os tantos que concebera e a morte tomou-lhos sem condescendência.
Em Gaudêncio Macedo depositava, pois, uma esperança quase terminal, como a vida que já se ia extinguindo em seu semblante taciturno e encarquilhado, de sucedê-lo à frente dos negócios ainda em vida. Em momentos de desalentada reflexão, lamentava a tirania do destino e a imperfeição dos seres humanos: talvez entre os filhos que não vingaram estivesse o que seria a sua cópia no caráter e nos negócios. Mas logo se rendia à fatalidade e contentava-se com o que lhe restara, talvez temendo que sua inconformidade com os desígnios superiores fosse punida com o castigo de também perder o único filho vivo: antes com um do que sem qualquer!

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Autoria
jjLeandro
Ficha técnica

Jornalista e escritor, 46, residente em Araguaína -To. Autor do livro de poesias Quase Ave, com o qual ganhou o concurso literário nacional para autores inéditos Cora Coralina em 2002, em Goiânia



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