A casinha era humilde, encravada entre tantas, todas, igualzinhas uma e outra, praxe de final de rua, onde a população mais pobre se acotovela, quando pode, em janelas contorcidas, equilibradas em paredes de adobe sem reboco, quando não da ripa linhenta de palmito, travadas com cipó São João e revestidas de barro cru. São as casas de taipa, pra nós da região do Entre-Folhas, casas de pau-a-pique ou de barro batido.
Como a aparência externa, o interior também era de uma uniformidade estremamente resumida: piso de chão batido, “encerado” com bosta de boi diluída em água, paredes caiadas de barro branco e o fogão de lenha na vigília intermitente da porta da cozinha, como um duende, a bocarra fumegante voltada pro cômodo da sala. Este por sua vez tinha como ornato de parede uma estampa de Nossa Senhora Aparecida, uma folhinha Mariana, no costão da porta da rua, e uma foto do escrete brasileiro, campeão do mundo em 1962. A mobília resumia-se a um banco rústico, de madeira, com pernas arreganhadas, nada mais.
De comer, só o essencial. Havia mesmo dias em que o desjejum era uma“cruz na boca” e a misericórdia de Deus.
Tamanha miséria não afogava o carinho entre os dois amasiados, sem filhos, às mil maravilhas no benzin pra lá, benzin pra cá, naquele tiquinho de nada de casebre.
Quitéria bem cedo sacudia Venâncio, emborcado no colchão de palha de milho, esparramado sobre o catre:
- Levanta benzin!
Dava um trato ligeiro na arrumação da cozinha e sumia coxeando da perna, emaranhando guaximas pelo quintal até a pedra do poço. Mergulhava até a cintura, no remanso do corguinho e se punha a lavar... sabão-preto, fabricado em casa mesmo, resto de sebo ganhado do açougue, lata de querosene, das grandes, equilibrada sobre fornalha de pedra e a decoada pingando semana inteira: pim... pim... pim... à espera do ponto.
As trouxas de roupa pegadas pra lavar na rua, servia para aumentar o ganhame, tão minguado naqueles dias de sofreguidão; essas, lavava com sabão Mossoró, amarelo e pintadinho que nem banana ouro, de cheiro mais suave, utilizado também para o banho do sábado, pois os trocados da lavação recomendavam economia e não suportavam gastos exagerados e supérfluos.
De sua casinha, em mesmas proporções, no lado contra do rio, Nania vigiava e reparava as dificuldades daquela mulher trabalhadeira, no vai-e-vem de semana inteira, trouxa de roupa na cabeça, varando quintal pra-lá-e-pra-cá. De Venâncio não tinha referência. Era um folgadão.
Vida difícil. Venâncio era aquela pustema de paciência e sossego. Uns bicos daqui e de lá, na cata de lenha prá vender na rua, pegar animal no pasto, um mandadozinho aqui, outro ali... quando dava de encontrar animal arisco e tinha que correr atrás, dormia no descanso, feito um inocente, até perder o sol de vista. De tarde, não perdia por nada uma fiada de prosa no “pau-da-grosa”.
Que estropiada! Correr animal daquele jeito em troca duns míseros quinhentos reis, que não davam nem pra aumentar o tamanho da perna de fumo... o jeito era dormir; “dormir às bandeiras despregadas”, como dizia Quitéria.
Esticou os braços ainda adormecidos, enfiou os pés na botina chiadeira e saiu, sem nem ao menos perceber que sua mulher, ainda não retornara do batedor de roupa na beira do corgo. Bah! Conversa de lavadeira não tem fim.. .
Ganhou a rua empoeirada e tomou o seu rumo. Enquanto caminhava a passo medido, tirou da orelha o “toco” meio-pitado do cigarro de palha e acendia e reacendia o danado, que teimava em não pegar, devido, sei lá, à qualidade do fumo – “soca, com certeza...” Acender a binga naquele roletão de pavio comprido, sem o luxo da gasolina de combustível exigia arte, técnica e habilidade, fatores que o bendito do cigarro de palha não levava em consideração.
Entretido
Wagner, voltei e votei.
Gostei demais de seu jeito mineiro de escrever.
Nos encontramos nas esquinas do Over.
Um abraço,
Votadíssimo! Viu os meus em fila de votação? Gostou?
Abraços.
Mais um texto teu amigo Wagner que me agradou muito. Meus sinceros aplausos e abraços.
carlos magno.
Querido Wager:
Obrigada pelo convite!
Gostei muito do teu texto, realidade..., sem meias palavras.
"A PERNA DO BENZINHO, OU, O BODE"
Beijos_Meus*,
*
Wagner,
A descrição é rica, muita rica. Mas exige atenção redobrada na leitura pois muita informação está contida numa mesma frase. O estilo é para poucos.
A História é ótima e o vocabulário, realmente, enriquecedor, muito interessante e patrimônio de um importante legado cultural .
Parabéns pela colaboração!
NOTA:
Onde escrevi: Querido Wager
Leia-se: Querido Wagner
rsrsrs
Amigo Wagner,seu texto é de uma riqueza deveras,um forte abraço.A propósito,visite meu site: www.zegoncalvez.com
zé gonçalvez,o poeta da filosofia · Recife, PE 12/11/2007 10:10
Prezado Wagner,
obrigado pelo convite. Vim, li, e me delicei deveras com a riqueza literária deste seu texto. Muito bom mesmo. Parabéns!
Votei.
abrs fraternos,
Rico texto...gostei muito !!!
Bjs...Votei!!!
Parabéns! Muito bom, ótima qualidade e criatividade!
Erode Lino Leite · Campo Grande, MS 12/11/2007 19:19
Wagner,
Sem dúvida um apanhado importante da historia da vida
das pessoas situadas = entre as zonas de criatório extensivo e
as zonas da monocultura ou do açucar ou do café. Este capítulo da Historia Sociológica do Brasil precisa ser reapanhada. E estamos indo, tenho lido alguma coisa neste sentido aqui no Over.
um abraço.
andre
Wagner....
chamou, a gene foi lah.
a leitura eh boa, descricao leva a 'viagem'... era uma casa,... nao tinha teto..., rua das...
lembrou-me da cancao... e, eu fuquei querendo ver uma foto... aih, a viagem, ia mais longe - quica?
abr
Wagner,
gostei bastante desse seu texto, carregado de regionalismos.
Maravilha!
Desculpe a demora, foram os compromissos que me atrasaram.
Votado!
Olá Wagnei!
Gostei!
VO(L)TEI!
Beijos_Meus*,
*
Adoro cigarro de palha. Aliás, voltei a fumar, após três anos de intervalo, depois que estive em Minas, mais precisamente em Ouro Preto, ano passado, para um congresso. Lá, deparei-me com um tal cigarro de "paia de mio", desde então, não parei mais. Faz um ano e meses. Texto bom. Que saudades de Minas, gente tranqüila e hospitaleira.
Francolino · Salvador, BA 14/11/2007 01:02
Gostei e votei!
Obrigada pelo seu convite.
Um abraço cá de Portugal
uma verdadeira obra de arte o teu jeito manso e verdadeiro de escrever. parabéns, Wagner!!!! parabéns!!!!!
Candice Gonçalves · Crato, CE 17/11/2007 12:11o texto acima dentre outros, encontra-se publicado no livro "fala, filho da mãe!!!" que está sendo disponibilizado pelo correio. Maiores detalhes pelo e-mail w_mmartins@yahoo.com
wagnermmartins · Sabará, MG 17/11/2007 12:47Vários mundos são possíveis dentro do próprio mundo, particular, regional ou globalizado. O que difere tudo isso é a arte antiga de escrever, falando de literatura, coisa que com muito esmero e cuidado, fizestes muito bem, poderia a partir de seu texto, fazer-se uma pintura dessa realidade. Parabéns!
Filósofo · Portugal , WW 20/11/2007 13:50Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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