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A poesia da pedra

Thays Costa de Lima
1
Cida Almeida · Goiânia, GO
9/11/2007 · 85 · 6
 






Enfio a mão no bolso

Sujo os dedos com as rimas derretidas

Cato a esmo no abismo

Palavras desvairadas no olvido

E tento ouvi-las

Tamborilando

A dor

A flor

- Adoroaflor!

Aflora

Enfio novamente a mão no bolso

Rimas não há mais

Nesse nunca mais

Nada mais

Nada demais

Nada de mais

Os dedos breves

Enfio a mão no bolso

Do fundo da aurora

Arranco a fúria de um pôr-do-sol

A orelha de Van Gogh

Sujo os dedos com as tintas

Do nunca mais a terra prometida

Sussurram pétalas na cabana da orelha

As ventanias endoidecidas

Descidas no abismo do meu ermo

A dor

A flor

Defloro

Ritmos da partida e da espera

Palavra partida

Dividida na espera

Pedacinhos do meu amor e da minha ira

Estalados nas profundezas da língua

Inaudível na espera

A música da partida

De dor e flor

De dor em dor

A fina flor da língua

A partida da pétala

Na redoma da flor

Na terra fértil da dor

Enfio a mão no bolso

Os dedos breves

E caminho a esmo no pontilhão do abismo

Descompassos

Os dedos leves

Contemplo

Profundamente contemplo

O poema magnífico da vida

E vou bobinha pela rua direita

Torcendo meu poema bobinho

Que escorre indelével entre os dedos

Breves dedos

Pó de alegria benzida pela vida

Pobre rima inútil

Volúvel ritmo na corrente das águas

Pelas ruas dos homens tortos

Pelas ruas das flores mortas

Pelas ruas de Babel vou subindo

Vou sumindo

Essa curva abissal do meu coração

Habito o cativeiro das palavras

Partidas na espera

Espera sem rimas

Partidas de nunca mais

O agorinha mesmo do abismo

Em que vou bobinha

Na esteira do poema bobinho

- À esquerda. Avisa solenemente o anjo torto.

Em que vou bobinha

Na esteira do poema bobinho

Retorcido no fundo do bolso

Em que meto voluntariosamente os dedos

Amarfanho o papel de seda das palavras intocadas

Que espera alucinada, meu Deus!

Habito por hábito a insensatez da espera

E vou vibrando

Rituais da partida na superfície da pedra

As palavras que nunca serão minhas

Que não serão rabiscadas

Que não se deitarão comigo no canteiro das flores

Que não se deitarão comigo na noite perfumada de vida

Que não se deleitarão comigo no fogo dos dias

Que nunca habitarão a perplexidade da pedra finda

Enfio, mesmo assim, obstinadamente a mão no bolso

Toco o que não tem nome

O que não tem carne

O que nunca beberei no cálice verbal

O que não quer palavras

O que prescinde de identidade

O que escarnece do espelho

O que se liberta de mim

A espera que se espera sozinha

A partida

A palavra fina flor da linhagem

Delicadeza esculpida no sangue

O sopro da palavra na pedra

Que lava os meus dedos breves

Que me leva na fina flor da linguagem

Que ignora a minha pedra

A fria lápide dos dedos breves

A poesia derradeira da pedra.


Goiânia, 6-7/11/2007.











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informações

Autoria
Cida Almeida
Ficha técnica
O que começou com o título de poema bobinho foi dar na pedra, a poesia da pedra.
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Tacilda Aquino
 

De bobinho seu poema não tem nada. Está mais para "a fina flor da linguagem". Adoro seus escritos e você está cada vez melhor, como poeta, quero dizer. Porque como pessoa você é D+. A " cara".

Tacilda Aquino · Goiânia, GO 9/11/2007 11:16
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BETHA
 

Cida,
quantas vezes um poema parece bobo ao seu criador.
Mas trabalhaste muito bem o verso e a inspiração, carregada um pouco de angústia e esperança. É o que minha subjetividade de leitora me diz agora. Belíssimo!
abçs de betha.

BETHA · Carnaíba, PE 9/11/2007 13:36
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j.alves
 

parabens Cida, tiro a mao do bolso para um abraço e parabens pelo seu belo poema.

j.alves · São Paulo, SP 9/11/2007 18:44
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crispinga
 

Publicada essa beleza, é o que você merece!
Beijos
CRIS

crispinga · Nova Friburgo, RJ 9/11/2007 19:14
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Frazao my brother
 

Pedras e flores, caminhos e dores: pedras de góiás e pantanais se encontrando entre ais...
Já dizia Lobivar de Mattos: "Pedras, ilusões da minha infância; ilusões, pedras da minha adolescência".
Pedras preciosas as suas.
abrs

Frazao my brother · Anastácio, MS 12/11/2007 21:36
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Juliaura
 

Eu, aqui tolinha, sem nenhuma modéstia, imaginava saber, até um pouquinho antes do final, que tua mão no bolso tiraria e rolaria entre os dedos uma lisa e pequena pedrinha, muita parecida com a menorzinha das que vi na foto e me parecia olhando no espelho.
Que lindo.
Quero contar entre tuas pedrinhas Cida.

Beijin.

Juliaura · Porto Alegre, RS 14/11/2007 21:03
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