Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

A PRIMEIRA NUNCA SE ESQUECE

1
ANIBAL BEÇA · Manaus, AM
19/6/2008 · 90 · 7
 

A PRIMEIRA NUNCA SE ESQUECE

Anibal Beça ©



A granja era toda agitação. Na velha vitrola, tocava o disco com a música eleita como a preferida de todos: “Eu não vou mais trabalhar/ só vou criar galinha...laiá larilaiá...” Claro que a preferência se dava por conta da falta de um repertório maior, com outras opções. Aquele disco, 78 rpm, juntamente com a “Ave Maria”, tocada todos os dias no rádio, impreterivelmente, às seis horas da tarde, anunciada pelo speaker de voz de veludo (assim, o locutor Josaphat dos Anjos se apresentava), como ‘A Hora do Angelus” , eram as únicas alternativas musicais da granja. Havia outros discos, mas pelo uso, empacavam entre a repetição fanhosa, por falta de ajuste na rotação, e pelos arranhados das bolachas negras. Daí, a indefectível música das galinhas, eleita como característica musical da “Granja New Hampshire”.

Hildeberto Mascarenhas, o dono da granja, tinha outras preferências musicais. Era fã de programações radiofônicas. Mas só da Rádio Difusora, aquela que “fala para o muuundooo”. Quando não estava ligado em seu outro passatempo de rádio-amador (fazia questão de falar: “my hobby”), lá estava ele cantando, acompanhando os jungles de propaganda: “Melhoral, Melhoral/ é melhor e não faz mal...” (...)”quem bebe grapette/ repete...”, Quem passasse ali todos os dias pela Estrada da Colônia Japonesa, da República Livre do Parque Dez, não deixaria de ouvir, em alto som, o programa dedicado aos aniversariantes do dia: “a jovem e prendada Irlanda Pais, flautista de dotes invulgares, descasca, hoje, mais um abacaxi no pomar de sua existência...” ou “ Os passarinhos amanheceram cantando, em louvor ao aniversário da veneranda senhora dona Marilene Courrier, do signo de aquário, doceira de mão-cheia,,,”

Festa maior, só quando era dia de abate. As discussões dos peões, em torno da sexualidade das galinhas, contribuíam para aumentar a barafunda. Não adiantava as explicações do veterinário de que, aqueles animais, eram frutos da alta tecnologia de ponta, dos avanços nas pesquisas hormonais da engenharia genética.

As galinhas empoleiradas, aguardavam a hora do abate. Já tinham dado o que tinham de dar. Pelo aspecto, não se notava se eram novas ou velhas. A não ser pelas pernas finas, e aquele tremelique estranho.. Delirium tremens, parkinsonismo, Doença de São Guido é que não podia ser. As coitadas nunca saiam daqueles engradados.
- Frango, não, franga...
- Que galo que nada... é galinha... no duro...

Os comentários entre os peões às vezes se acirravam e virava discussão braba. Até uma pequena loteria de apostas era instalada.O mediador da peleja era o próprio Hildeberto Mascarenhas. E o veredito final, aguardado como ansiedade de parto, só se saberia com a presença do veterinário, Dr. Inácio Barroso Barros, profissional tão respeitado no meio rural que, lhe valera, já, a alcunha carinhosa de “Dr. Galinácio”.

O fato é que as bichinhas nunca chegavam a saber a que sexo pertenciam. Galos com certeza não eram. Galo não coloca ovo. Aquelas tinham crista e espora, mas colocavam ovo e não procriavam. “Assexuados”, “bissexuais”, “transexuais” diziam, os peões, daqueles bichos estranhos para eles.

Certo dia, um deles conseguiu sair do tal quadrado de ripas e pulou para o terreiro. Até que tinha pinta de pai-de-galinheiro. Imponente, o papo empinado, crista insinuante, esporas afiadas, um modo de andar firme, resoluto, passava uma impressão de segurança, de quem sabe o que quer.

No terreiro, Hildeberto criava algumas galinhas, dessas que o povo chama de pé-duro, caipiras. Não tinham pedigree, Raça ninguém sabia e nem de alguma árvore genealógica que se pudesse precisar o paradeiro certo daquelas pintadas, pedreses, carijós. Eram pés-duros, não tinham pedigree, mas de uma coisa tinham certeza: eram galinhas, no duro. As penas eram ralas, arrepiadas, o pescoço pelado. Eram galinhas-pirocas, mas faceiras, orgulhosas de seus pintos, da ninhada quase chegando a frangos e frangas,

Os bichos do terreiro tinham sexo. Havia um único galo. Já meio velho, cansado de cobrir as 30 galinhas-pirocas. Hildeberto, inclusive, já havia encomendado um galo novo para pai-de-galinheiro. O galo velho, de há muito, vinha notando, não dava mais no couro. Já era hora de virar capão, estava dobrando o Cabo-da-Boa-Esperança. Andropausa, com certeza. Uma vez ou outra, quase raridade, se peneirava pra cima de alguma franga nova: “galo velho, caldo novo”. Ora, dar assistência só às novas, não estava certo. E as galinhas maduras, balzaquianas, como iam ficar? No caritó da saudade? Nem por brincadeira!

Foi aí, então, que uma delas sentiu a presença imponente do fujão, aquele frangão vermelho, quem sabe, new hampshire, galo de griffe, pedigree de alto escalão. Era a própria nobreza misturando-se à plebe. Sacudiu as penas do rabo, arrepiou-se toda, sentiu um calafrio correr pelo pescoço piroca, um frenesi diferente. A temperatura aumentou, o coração batendo mais forte. Estava ardendo em febre: um frisson de poulle .

O frangão novo, vermelho, quem sabe, new hampshire, galo de griffe, pedigree de alto escalão aproximou-se. Ela respirou fundo, envaidecida. De todas as galinhas do terreiro havia sido a escolhida. O frangão novo, vermelho, quem sabe, new hampshire, galo de griffe, pedigree de alto escalão aproximou-se mais; balançou a crista, os olhos brilhando, levantou as asas, ensaiou um cocoricó,

A galinha eleita, acocorou-se, tremendo e arfando. Todo o terreiro era silêncio. Apreensão. As outras galinhas aproximaram-se, invejosas, Só o galo velho ficou no seu canto, trepado em cima de um abieiro, triste e solitário, ferido nos seus brios de galo macho pai-de-galinheiro.

O frangão novo, vermelho, quem sabe, new hampshire, galo de griffe, pedigree de alto escalão acocorou-se ao lado da felizarda. Espremeu-se todo e, rapidamente, levantou-se olhando para trás, orgulhoso, cacarejando de felicidade. Aquela era a primeira vez. Nunca havia feito aquilo fora de seu pequeno quadrado de ripas: um ovo enorme, rosado, brilhava no terreiro.

compartilhe



informações

Downloads
514 downloads

comentários feed

+ comentar
graça grauna
 

meus queridos Anibal Beça e Marco Bastos...o que acontece quando a essência da imagem e da palavra se juntam? Uma maravilha essa união da imagem e da contação de história. Parabens!

graça grauna · Recife, PE 18/6/2008 15:18
sua opinião: subir
clara arruda
 

Passando para deixar meus votos e meu carinho.Se Deus permitir semana que vem estarei de volta para ver seus trabalhos.
Saiba que essa amiga te ama.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 18/6/2008 17:13
sua opinião: subir
ANIBAL BEÇA
 

Graça e Clara, obrigado pela visita e pela leitura. De fato, a arte do Marcos Bastos ilustra muito bem o meu 'causo' galináceo.

Beijos muitos

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 19/6/2008 00:03
sua opinião: subir
EdimoGinot
 

É...
Acho que nem o galo esquece...
Excelente.
Um abraço
EG

EdimoGinot · Curitiba, PR 19/6/2008 08:37
sua opinião: subir
Cintia Thome
 

Conto sempre suave, primeiro.
Imagem da arte de Bastos, impecável
Um abraço

Cintia Thome · São Paulo, SP 19/6/2008 13:06
sua opinião: subir
Doroni Hilgenberg
 

Oi Anibal. Que conto!!! Ri bastante... é um causo galináceo e tanto, e aliado a tela se completam. he..he... Para as galinhas, mais vale um galo velho que uma franga vermelha". Bjsss e votos.
Já leu meu Soneto?

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 19/6/2008 16:12
sua opinião: subir
ANIBAL BEÇA
 

Obrigado pela visita, pela leitura e pelas palavras generosas.

Abraço amazônico

ANIBAL BEÇA · Manaus, AM 20/6/2008 13:44
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 6 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Revista Overmundo nº 6: esquentando as turbinas!

A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados