Pra mim não chegava a ser um mistério, algo desconhecido, como foi para a Tia Iva ou para a Tia Dora, mas, ainda assim, a minha primeira vez deu um certo trabalho. Tia Iva achou que a amiga Zilinha estivesse doente quando aquela lhe disse que sangrava todos os meses.
- Zilinha, você está doente. Olhe, a minha veio uma vez só e parou. Isto é o certo. Imagine, sangrar todo mês, você vai acabar sem sangue nenhum e vai morrer, Zilinha! Preste atenção, você vai morrer sem sangue, branca como Zéfa de Mané Zulão.
Naturalmente, Zilinha ficou apavorada com a ideia de morrer e correu para avisar a mãe que estava gravemente doente. A mãe, por sua vez, avisou a de Tia Iva que, esta sim, levou a filha imediatamente ao médico.
- Vamos ao médico, Ivinha.
- Ao médico, mamãe? Mas eu estou doente?
Sem querer assustar a menina cujas regras haviam sido suspensas assim que se deu a menarca, a mãe respondeu:
- Não, Ivinha, vamos apenas ver sua garganta.
No consultório, Ivinha ficou roxa de vergonha quando o assunto veio à tona e saiu de lá com uma receita de injeção e a cara deste tamanho:
- Garganta uma ova!
Com Tia Dora também foi inusitado, pois nem a mãe dela sabia todas as denominações do “chico”. Dorinha, aos treze anos, andava desmaiando pelos cantos da casa quando sua mãe a levou à drogaria de Raimundo Nonato, que tinha “consulta” de graça. Quando Nonato perguntou se ela já tinha ficado menstruada, a cara de espanto se formou nas duas que não tinham a menor ideia do que queria dizer aquela palavra tão difícil de se pronunciar.
- Incômodo? – Tentou ajudar o Raimundão – Aquele sanguinho que vem todo mês...
- Ah! O “chico”! – Compreendeu, enfim, a mãe de Dorinha, que explicou para a filha, ali mesmo na frente daquele homenzarrão, quem era o “chico”.
Já comigo, “os ingleses chegaram” dentro de um ônibus, aos meus treze anos, quando eu voltava de férias de Fortaleza para o Rio: 44 horas de viagem. Eu estava voltando na companhia de uma amiga da minha mãe: uma senhora gorda que ocupava o banco dela e metade do meu ao seu lado. Ela não fazia outra coisa a não ser mastigar para passar o tempo. Ali pela décima quinta hora de viagem "desceu" e eu não soube o que fazer, pois apesar de ter conhecimento do que se tratava e saber que ia ocorrer cedo ou tarde, eu simplesmente não esperava que acontecesse.
E agora? O que fazer? Era eu pensando no cubículo sanitário do ônibus em movimento, me debatendo nas paredes enquanto tentava acomodar um monte de papel higiênico na calcinha. Eu não tinha outra saída a não ser informar à minha acompanhante e pedir-lhe ajuda.
Nunca me arrependi tanto de uma coisa. A gorda, emocionada, foi de banco em banco, na mesma hora, perguntar a todas as mulheres do ônibus se alguém tinha um absorvente, pois a “coitadinha” acabara de menstruar pela primeira vez. A “coitadinha” era eu.
Passei o resto da viagem olhando fixamente para o encosto do banco da frente, sem desviar o olhar para nada, ouvindo cá e acolá um cochicho sobre minha menarca. E a mulher ao meu lado, orgulhosa de ter participado desse “momento tão especial na vida de uma jovem”.
Alguma dezenas de anos mais tarde, fui eu mesma, sem me dar conta, a “senhora gorda” quando minha filha, adolescente, saiu do banheiro enrolada numa toalha, dirigiu-se à cômoda no quarto, olhou pra mim e disse:
- Mãe...
Não precisou dizer mais nada e eu entendi tudo. Não pude conter as lágrimas nem o impulso de abraçá-la e, pasmem, correr para o telefone e ligar para o pai dela, que mora em outro estado, já com outra mulher e outros filhos:
- Zé, ela é moça, Zé!!!
- Claro que é, desde que nasceu, você tá variando, mulher?
- Você não tá entendo, Zé, ela é moça agora...
- Do que é que você está falando?
- Os ingleses chegaram, Zé!!!
Escutei o fone caindo. Será que ele desmaiou? Entendeu o que tinha acontecido à nossa filha e desmaiou de emoção. Claro! Mas ele retornou ao fone:
- Desculpe, o fone caiu, você sabe como sou desastrado. Você pode ser mais clara?
- A nossa menininha, Zé, não é mais uma menininha, ela já é uma mocinha, ela menstruou.
E choramos os dois ao telefone, até ele decidir que pegaria um avião naquele mesmo dia para dar um abraço de “boas-vindas” na filha, que ficou dias sem falar comigo direito, e com razão, mas virá a filhinha dela também e, um dia, ela escreverá a sua própria “crônica da primeira vez...”
DELÍCIA DE CRÔNICA! GOSTO MUITO DA SUA PROSA SOLTA E FLUIDA.
A minha "senhora gorda" foram duas, minha mãe e minha tia que inventaram de fazer um bolo decorado com rosas vermelhas pro lanche daquele dia....
Claro está que a história correu a família, virou "causo" contado nas reuniões familiares...
Quando perguntei à minha filha se ela ia querer bolo também, a resposta foi um indignado EU ME MATO SE VOCÊ FIZER ISSO! e foi assim que reprimi meu impulso nos chochichos sorridentes trocados a semana inteira com o pai, amigos e parentes...
Suraia, obrigada! Essa coisa da primeira vez dá mesmo boas histórias...
Morgana Pessôa · Araruama, RJ 17/4/2009 09:42
Olha... dá um livro! Aliás, dois livros... rs porque tem "aquela" outra primeira vez....
Suraia · Rio de Janeiro, RJ 17/4/2009 10:08
...e a minha se formando aqui.
nossa ! q emoçõ, não !?
escreve mto bem , cara Morgana.
bjsssss;)
Morgana,
pois é, para as meninas esse é um negócio mais chato
do mundo e muitas pensam que vão morrer mesmo.
A minha foi orientada desde cedo e quando chegou
escondeu de todo o mundo.
Não deu para comemorar, heheheh!!!
mas elas detestam que se faça alarde.
bjs
um ótimo texto, parabéns e votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 18/4/2009 19:42Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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