Reminiscências de escola
A minha avó não era uma vovozinha qualquer. Estava mais para lutadora de telecatch do que para uma boa velhinha, de tão forte. Forte, valente, impaciente e decidida. Dessas que não mandam recados, nem levam desaforos para casa. Com ela não tinha cara feia que não se dobrasse no muque.
Lutadora mesmo, no sentido amplo da palavra. “Mulher pai d’égua, pra lá de aloprada e porreta” – como diziam os cochichos. Determinada que só, era do tipo que não gostava de pavulagem e não alisava nem amocegava ninguém. Amanhecia cortando lenha e colocando a casa em ordem. Lavava e costurava roupas, pra dentro e pra fora, ganhando dinheiro dos categas para matar nossa fome e nossas curubas. Por isso é que não faltava jabá na chepa, nem andiroba e cajuada na pernamanca de remédios.
Aquela invergável senhora, de tez branca e amulatada de sol, que atendia pelo apelido de Peteca, era viúva e trazia no registro o nome de Maria da Conceição Frazão. Detestava ficar deitada, por isso morreu de pé, com derrame, agarrada ao trabalho. Mas, apesar de ser autoritária como sua época, Peteca era a guardiã da família. Ai de quem ousasse triscar na sua bacurizada, da qual, temerosamente, eu fazia parte. Peteca era meu medo, minha onça (como ela mesma dizia), mas também a minha supervovó.
Nossa educação passou, inevitavelmente, pelas mãos e carrancas da Vovó Peteca. Pelo menos na nossa aurora escolar. Meu pai não morava na mesma casa e minha mãe trabalhava fora. Vovó mandava e desmandava na família. Era uma espécie de comandante-geral. Todos a obedeciam, até os vizinhos. Mas havia nela uma particularidade pública e notória: a preocupação constante com a educação formal dos netos.
Desde o cantar do galo, quando nos arrancava do mosquiteiro para o banho forçado e frio à beira da cacimba, até a volta pontual da escola, vovó acompanhava tudo de perto. Chegava a nos espionar, das cercanias, na hora do recreio, só para ver se estávamos de “cavalhada” – brincadeira que, para ela, era prejudicial à educação, além de sujar e danificar o uniforme, que chamávamos de “farda”. As meninas usavam, obrigatoriamente, saia azul marinho e blusa branca; os meninos, calção e camisa do mesmo tecido – geralmente doado pelo governo federal, como parte da cesta básica (versão antiga dos atuais sacolões) fornecida aos pobres pela Legião Brasileira de Assistência (LBA). Vovó Peteca fazia toda a roupa da casa e também a nossa farda. E com os retalhos fazia as bolsas de carregar material didático.
Estudávamos no Grupo Escolar Euzébio da Costa (nome que os alunos de outras escolas difamavam com versos e rimas sujas, para nos afrontar. Mas a irreverente caçoada era recíproca). Era uma pequena escola pública primária, localizada num bairro pobre de Porto Velho, antiga capital do Território Federal de Rondônia, nos anos sessenta. (Continua no anexo – fazer Download).
P.S.: Amigos,
Acabei entrando na moda do "reminiscências de escola". O texto está anexo. O download, às vezes, precisa de duas tentativas para abrir. Abaixo cito o glossário do "falar portovelhês" em que foi produzido o texto. Uma olhada antes no léxico ajuda a entender melhor.
abrs
Glossário regional
Aloprada (exagerada, meio doida)
Amocegava (amocegar, pegar carona, escorar-se)
Andiroba (a árvore e o óleo dessa planta medicinal)
Bacurizada (criançada)
Cajuada (laxante feito de caju)
Catega (grã-fino, gente da elite)
Chepa (comida)
Curubas (coceiras, feridas)
Mugunzá (canjica, mingau de milho branco)
Muque (força do braço)
Onça (brava, no sentido de fiscal)
Pai d’égua (bacana)
Porreta (legal, gente boa)
Pavulagem (vaidade, conversa mole)
Pernamanca (pedaço de caibro, solto ou servindo de prateleira)
Pisa (surra)
Pira (rabujo de cachorro, brincadeira de pegar, para passar a pira)
Tosse de guariba (tosse semelhante ao grunhido do macaco guariba)
Tucumã (fruto regional cujo caroço é duro como bola de sinuca)
Comecei a ler agora e já estava pensando neste glossário.
A foto é idêntica á que ando procurando em vão por aqui.
Agora, perdão, vou para o download, terminar de ler.
Estou gostando muito de "Peteca" e de tudo que está contando.
beijos, volto daqui um pouco.
FGrazáo Brother de Primeira Qualidade
Muito Legal o seu trabalho.
Uma Memória bem ordenada.
Um texto muito atraente cheio de dignidade.
Deveria servir de modelo para cada jovem fazer um igual,
referente a sua época.
Parabéns merece todo elogio.
Professor,
Assim é demais, tantas lembranças, tantas semelhanças:
toda criança igual; todo interior igual; toda avó (e que avós); fico imaginando Prof. essa árvore igual a tantas interior a fora; ou mesmo nas cidades grandes e ou pequenas, cada uma com sua particularidade, mas aguerrida; e as que deixaram se medrar`ante
as dificuldades, o que será?
Prof. nunca tinha pensado na importância dessas lembranças,
vez ou outra se conversava, quando ia a Gilbués/Pi, mas como gracejo, do jeito de fulano, beltrato, etc. Agora sim,
Parabens Prof. um abraço, andre.
Saramar, obrigado. Realmente, sem a leitura completa desse texto não se chega ao clímax, que é a inédita "pedagogia" de Dona Peteca. É como diz o camarada Andre Pessego: "tantas lembranças e semelhanças, cada uma com sua particularidade."
Obrigado, Azuir, principalmente pela dignidade encontrada no cerne de Peteca.
abrs
Brother,
Que avó porreta heim?
Meu confrade Frazão,
Sem alopração, achei este seu texto possuidor da maior catega, pai d’égua, porreta mesmo!
Vo(l)tarei!
Gostei da foto (vc ta o mesminho, só mudou o corte do cabelo).
abraço, meu irmão.
Frazão,
Camarada, confesso que só não fui as lágrimas emocionado por estar rindo muito em razão das tantas hilárias passagens da tua excelente narrativa.
Tua avó Peteca, a mestra exemplar das mestras pela escola da vida, que muito também ensina, lembra muito na conduta para a aplicação no estudo minha mãe, maranhense, que só com os olhos nos passava pisa que eu e minha manha sequer triscávamos quaisquer confeitos antes da hora.
Gostei muito.
Agradeço o convite.
Voltarei para o voto, com a certeza que a vida nos permita.
Prof.
Vim rever a Dona Peteca; navegar nas tuas lembranças e votar, votar para dizer - Deus lhe paga Dona Peteca por ter ajudado na feitura desse neto zeloso, despreendido, um abraço meu caro Frazão, andre.
Marcos, obrigado. Deixei recado no perfil.
Rubenio, vc é o nosso catega porreta. (meus cabelos não mudaram; eles se mudaram rsss).
Adroaldo, o seu comentário é um diploma. Nossos avós não temiam Kant, Piaget, Bakhtin, Vigotsky, etc...
Obrigado, Barão.
André, Deus o mantenha sempre conosco, para nos ensinar sempre essa peculiar e sábia mistura de conhecimento, sabedoria e humildade. Obrigado.
Um tantinho de disciplina faz mal não a qualquer vivente. Até ajuda, se vai sendo por amor.
(Agora, Frazão, esse diploma que falas aí não sei se te garante algum assento em academia, ô meu bom escriba)
É isso, Frazão!
Algumas de tuas lembranças e comidas típicas vivi/vivo aqui no meu Pará.
Boa, mesmo!
Benny.
Havia esquecido... Votado para a eternidade!
Que vovó, hein My Brother?
Abçs. Benny.
Olá amigo Frazãõ,
gostei demais de ter lido o teu belo texto. Algumas palavras não são do meu conhecimento mas possúem uma sonoridade muito agradável e isso me despertou muito interesse pela leitura do teu escrito. Meus sinceros aplausos e um grande abraços.
Carlos Magno.
NOTA 10, com louvor, meu caro frazão... uma narração completa e perfeita daqueles tempos. PARABÉNS!
"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 15/10/2007 17:13
Querido Frazão:
Não sei o que houve mas tenho certeza que escrevi um comentário ao seu primoroso texto. Devo ter deixado de enviar, como às vezes faço. Coisas de sexagenario, Nele eu dizia que a Dona Umbelina certamente ficará muito honrada ao ser homenageada em nosso livro juntamente com a professora Peteca, de saudosa memória. É onde vejo o seu texto, no capítulo em que iremos prestar homenagem aos educadores "fora de série" como foram ambas e outros mais que saberemos encontrar ao longo da nossa caminhada,
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
PS Como disse no recado, por favor, não desista de encontrar uma foto da Vó Peteca.
PSS Viu que lindo o nosso livro comentado pela Helena Aragão no blog do observatório?
FRAZAO,
amei conhecer tua vovó Peteca e tuas tantas reminiscências de escola. Parabéns, esse projeto realmente é uma boa idéia!
Abçs de Betha.
Que lembranças Frazão!
Bacuri porreta., você!
As lágrimas sempre, muito gostoso...Narração bonita!
Voto.
abçs.
Cara,
É de fazer chorar a lição de vida ensinada por tua avó...
Putz, dá um aperto no peito misturado com vontade de idolatrar uma mulher como ela!
Frazão, agora me diga, por favor (vai me servir para análise na educação de meus filhos) o que, daquele rígido sistema antigo, te fez melhor e te serve ainda hoje? (excluíndo seu fantástico talento para escrever)
Querido Frazão, o Adroaldo e o Marcus parece que quase chegaram às lágrimas com a Vó Peteca, pois comigo, assim como com a Cíntia, não teve o quase. Estou com as lagriminhas aqui embaçando meus olhos no exato momento em que escrevo. Seu texto é lindíssimo!!!Nem dá pra exprimir o tanto de emoção que ele desperta. Tive muito prazer em conhecer sua avó Peteca, a Ilma. Profª Peteca.
De hj em diante, escolho-a como alegoria do que é ser mestre. E na homenagem que presto aqui à sua memória no DIA DO MESTRE , homenageio também todos os mestres e mestras que, como a Vó Peteca, imprimiram em nós a pedagogia do amor.
Por nos apresentar à Vó Peteca, bendito seja vc Frazão.
Beijo grande e agradecido
da Ize
Que vovó! Maravilhosa no seu amor, usava a psicologia afetiva.
Como professora fui homenageada indiretamente no meu dia ao ler sua publicação.
Você sabe colocar a pureza de um conto de forma sábia.
Parabéns!
Abrços
Frazão,
Sem palavras... Pura emoção. Deu um aperto no peito. Lindo de "doer". Raras vezes um texto tem esta capacidade de emocionar tanto! Parabéns!
Abraços,
Nydia
Voltamos todos à mesma idade, essa idéia foi genial! Parabéns pelas suas reminiscências!
Telecatch...rsrss Isso é do meu tempo, tinha aquele louro vestido de tarzan, um gorducho troglodita...Era muito engraçado!Ted Boy Marinho, não era esse nome?
BJS
CRIS
Frazão,
adorei as tuas reminiscências, que bacana!
E o que dizer da vovó Peteca...
Muito bom mesmo.
Um abraço,
Adroaldo, um barão sempre modesto e generoso. abrs
Benny, um brinde de cupuaçu às nossas avós. Obrigado.
Carlos, um magno abraço pela presença.
Nato, você é mesmo um professor - e dos poucos que já me deram dez.
Joca, obrigado pelo incentivo. Estou perseguindo a foto combinada. Mas, uma coincidência: o nome de Anastácio-MS se deve ao primeiro morador, Vicente Anastácio (italiano). Todavia, antes dele, uma fundadora nativa ganhara espaço na história - a líder indígena Umbelina Jorge, patriarca terena. No centro da cidade temos uma vila (antiga aldeia) que se chama Vila Umbelina (popular Aldeinha). Ela é citada no romance ecológico "Nas águas do Aquidauana eu andei" (3ª ed. esgotada) de nossa lavra.
Betha, obrigado pelo seu carinho para comigo e para com a vovó Peteca.
Cintia, teu comentário me fez voltar a ser baruri. Obrigado.
Marcos, um abraço de pé-de-cedro, historiador guaicuru. Respondi à tua pergunta no perfil.
Professora Ize, as lágrimas, mesmo as metafóricas, comovem mais do que as palavras convencem. Já iniciei um livro dizendo de um anônimo: "quando as lágrimas lavam o coração, vale a pena chorar"...
Clara, você disse tudo: psicologia afetiva.
Nídia, muito prazer. A vida é uma coleção de emoções. É importante vivê-las, se possível, intensamente.
Cris, orbigado. Acho que a dupla se chamava Ted Boy e Rasputin...
Letícia, que alegria! Tua presença é significativa.
Nídia, muito prazer. A vida é uma coleção de emoções. É importante vivê-las, se possível, intensamente.
Mano, vc ñ imagina a viagem que fizemos (eu e teca) lendo este texto.Foi uma mistura de risos e lágrimas. Realmente a "Dona peteca", foi um exemplo de educadora, que na sua sábia ignorância soube nos mostrar e cultivar valores tão importantes e necessários para nossa formação...assim como vc, eu, léa e teca, temos muito orgulho da vó que tivemos...ela foi importante e muito na formação de caráter de cada um de nós....vc é um exemplo e fruto da "psicologia petequiana aplicada"...rsrsrs..te amo meu irmão....
Tete Frazão · Porto Velho, RO 21/10/2007 02:46
Olha só quem chegou no overmundo! A Tetê!
Overmanos, esta é uma figuraça. E não é porque estou na frente dela, não. É porque sempre estivemos lado a lado. Minha irmã caçula, artista plástica de mão-cheia (a rainha da biojóia de Rondônia). No momento estamos separados geograficamente: ela em PVH, eu em Anastácio (2.500 km de estrada).
Bem-vinda, maninha. Que surpresa agradável. Logo você, que era a preferida da Vovó Peteca.
Beijos, beijos e beijos.
Queridos Frazão Brother e Frazão Sister:
Achei linda esta troca de carinhos, me desculpem a intromissão, mas alguém aqui tem de pensar.
Porque o Frazão não lhe fez a pergunta crucial sou obrigado a fazê-la: você tem ou sabe quem tenha fotos da Vovó Peteca?
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho
Que maravilha. Sem dúvida faz a gente se lembrar até do que não vivemos. Comecei estudar em 68 na Escola do "Padre Mário", já no segundo ano. O primeiro estudei na escolinha da Profa Marina Venânio, no Ramal São Domingos, em 67. Depois fui pro Mallet, Castelo Branco, etc. Nunca Estudei no GV, nem no Estudo e Trabalho.
O Nome "Zenóbio da Costa" não me é totalmente estranho. Mas não consigo lembrar de nada. Onde ficava? Quando acabou/fechou?
Queridos ASmigos:
Vejam aqui a montagem que eu fiz de uma foto da Võ Peteca que o Frazão me enviou
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