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A REDAÇÃO INQUIETA DE GUSTAVO BERNARDO

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Joana Eleutério · Brasília, DF
18/7/2008 · 114 · 15
 

Amostra do texto

O cenário daqueles anos oitenta mostrava-nos, então, a abertura política ainda engatinhante e as pessoas quase reaprendendo um novo estilo de vida, reaprendendo a realmente “dizer”. Era como se todos quisessem “desengasgar”, depois de tantos anos de forte censura. E Redação Inquieta nos mostra exatamente isto. Gustavo Bernardo começa seu livro fazendo uma crítica às muitas publicações acadêmicas e jornalísticas daquela época. Tais publicações, partindo de uma seleção das “besteiras da juventude”, retiradas das redações de vestibular, criticavam a “desexpressão” dos jovens. E o autor, então, nos diz que era mesmo “DESEXPRESSÃO – mistura de desespero com expressão.” Tamanho era o problema, que a desexpressão de uma geração calada, mesmo quando escrevia alguma coisa, continuava calada. (p. 3). Portanto, nada dizia.
No entanto, autor nos diz que, diante de um olhar mais atento, o problema da desexpressão aparecia ainda mais amplo e mais profundo. Nos livros didáticos, editoriais de jornais, discursos políticos, teses de juízes e doutores e até mesmo na redação da jovem constituição cidadã, a CF/1988. Segundo ele, a preocupação ética com o discurso estava realmente em falta no mercado. “Desengasgando-se”, como tantos jovens de sua geração, Gustavo Bernardo nos alerta para a grande responsabilidade de todos os que desejam defender o prazer de pensar e descobrir o que havia por trás do desejo de dominar e vencer, inclusive, entre os estudantes. “Um modo dinâmico de explicar a confusão verbal de alguém está no enxergá-la como um sintoma visível de outras confusões mais profundas.” (p.19)
(...)
O autor conduz sua reflexão para os modos de aprendermos a falar e a calar, afirmando categoricamente: “Quem cala não consente. Quem cala, ou está se guardando ou está se submetendo. A segunda opção é mais comum: quem cala se submeteu.” (p. 40) Em tom de denúncia, ainda nos diz que a maioria de nós aprende a escrever em uma redução da vida, chamada “sala de aula”. Gustavo Bernardo critica a redação escolar que faz com que o ato de escrever perca o seu caráter primário e fundamental de auto-afirmação, assumindo o seu sentido inverso: o da autonegação. Diz que escrever deve ser a ação de nos reproduzirmos, nos multiplicarmos e nos imortalizarmos através de nossas palavras. E para isto será necessário desmistificar e superar a idéia de que escrever (escrever bem, dizer algo realmente significativo) é resultado de um dom ou de uma técnica.

Sobre a obra

Redação Inquieta é um ensaio, na definição do próprio autor. O livro é composto de uma pequena introdução, e mais sete capítulos: Ato, Método, Maniqueísmo, Erro, Estilo, Dialética e Ética. Cada um deles se divide em subtópicos, facilitando a reflexão e a compreensão da intrigante teoria ética da redação. Um conjunto de 44 itens compõe a referência bibliográfica, que Gustavo Bernardo intitulou de Dívida. O primeiro capítulo é composto em seis tópicos: Ensino, Teoria, Espelho, Rede, Rasgo e Fala do Mundo. Todo capítulo inicia-se com uma citação, em epígrafe. E a do primeiro capítulo, Ensino, é de Cacaso: “Pra se combinar comigo tem que ter opinião”..
Essa terceira edição é de 1988, sendo que o livro foi reeditado e atualizado em 2000. Embora seja um livro de grande valor, ele é pouco conhecido no país e muito pouco explorado por professores, o que é uma pena. O contexto da publicação do livro é rmuito importante -final da ditadura militar

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informações

Autoria
Joana Eleutério - apaixonada por redação e revisão de textos.
Ficha técnica
Para um trabalho acadêmico, busquei o meu velho e amarelado Redação Inquieta, que conheci na UFMG, com a saudosa e então jovem professora Graça Costa Val. Na verdade, foi apenas como acordá-lo dentro do meu coração.
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Nydia Bonetti
 

Que bela resenha. Deu vontade de sair correndo à procura deste livro, já. Confesso que não conhecia. Parece mesmo muito interessante, sobretudo considerando a época em que foi escrito, o que o torna ainda mais necessário. Que coincidência, ainda hoje conversava sobre o processo criativo com um amigo. O que nos leva a escrever? Que impulso é este, que se torna quase vital para tantas pessoas? E agora lendo este texto, vejo que faltou uma pergunta: o que nos faz (fez) calar?
Parabéns, Joana! Que belo retorno.
Beijos

Nydia Bonetti · Campinas, SP 16/7/2008 19:23
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Joana Eleutério
 

Obrigada, Nydia.

Então, não podemos nos esquecer de que calar também é uma forma de dizer. Ontem vi uma frase do Fábio de Mello que dizia algo mais ou menos assim: amar é ser capaz de ouvir o que o outro quer dizer mesmo quando o ele se cala.
Beijo grande.

Joana Eleutério · Brasília, DF 17/7/2008 10:27
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Saramar
 

Joana, que volta fantástica!
A resenha é um grande incentivo à leitura deste que deve ser um atualíssimo livro, apesar de ter sido publicado em outro contexto. Afinal, todos os dias, estamos lutando com a "língua presa", não?
Será que ainda se encontra para comprar?

Bem vinda, bem vinda!

beijos
P.S. Também sou revisora apaixonada.

Saramar · Goiânia, GO 17/7/2008 12:26
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Joana Eleutério
 

Oi, Saramar.
Que gostoso estar voltando devagarinho. E, melhor ainda, o reencontro com vocês.
O livro é ótimo, não conheço a edição de 2000 ainda até mesmo pela internet. Passeia pela Internet, acho que o autor até tem uma página também.

Beijos.

Joana Eleutério · Brasília, DF 17/7/2008 12:45
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Joana Eleutério
 

Saramar,

Estou meio sem prática, tá vendo? Comendo palavras e tudo mais. Mas queria lhe dizer que você consegue comprar o livro até mesmo pela Internet, se for o caso.

Beijo mineiro pra você. (Acho que o beijo mineiro tem gosto de "Romeu e Julieta")

Joana Eleutério · Brasília, DF 17/7/2008 13:01
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Nic NIlson
 

Minha amiga, nao importa se escrevo um garrancho, se minhas palavras quase dizem, se misturo verbos com pronomes, etc... o mais importante é saber q p se escrever basta querer dizer: para bons entendedores um ponto é uma imagem, acompanhada de legenda! Muito legal. Aplausos de pé! ( onde encontrar, onde comprar este livro?)

Nic NIlson · Campinas, SP 17/7/2008 17:35
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Noelio Mello
 

Joana, amiga.
Belo texto e bela indicação. Vou procurar o livro de Gustavo Bernardo. Excelente trabalho, rico em verdades.
Beijos
Noélio

Noelio Mello · Belém, PA 17/7/2008 18:15
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Joana Eleutério
 

Meus queridos Noélio e Hic,

O próprio Gustavo Bernardo já leu a resenha publicada no Overmundo, gostou muito e até me mandou um e-mail. Muito obrigada!

Um grande abraço.

Joana Eleutério · Brasília, DF 18/7/2008 08:33
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Ize
 

OI Joana,
como os demais, adorei sua resenha. O autor deve ter ficado orgulhoso e feliz de vc ter revivido esse livro tão importante. Li outras obras dele, mas essa não conhecia. Vou comprar, com certeza. Vc sabe qual a editora? E a sua resenha está muito boa. Bem escrita, concisa e sedutora.
Gostei muito.
Beijo grande da
Ize

Ize · Rio de Janeiro, RJ 18/7/2008 10:57
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Joana Eleutério
 

Olá, Ize!

Que bom que você também gostou. A edição de 2000 é da Editora Formato. é um livro para se ter mesmo.Muito obrigada.

Um grande abraço.

Joana Eleutério · Brasília, DF 18/7/2008 11:04
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Paulo Ednilson
 

Bela resenha Joana! Você é ótima! É exatamente isso que o autor precisa para mostrar seu trabalho! Bela apresentação!
Paulo.

Paulo Ednilson · Corumbá, MS 18/7/2008 18:03
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azuirfilho
 

Joana Eleutério · Brasília (DF)
A REDAÇÃO INQUIETA DE GUSTAVO BERNARDO
Um Trabalho Interessante de muito valor filosófico

As Vezes fala muito e ná diz nada e até causa atraso.
As vezes náo fala e esta preparando uma resposta melhor e decididora.
Quem sabe faz a Hora.
Muitas vezes quem cala esta optando por uma estratégia de so se manifestar com chances de náo causar danos no seu time.
Náo adiante falar e perder de goleada.
tem de náo falar e preparar para amanha ou depois vencer.
Cala mas esta somando forças.

Parabéns pelo seu trabalho.
Falou náo falou mas, a Luta continua.
Abração Amigo
Todo merecimento. Valeu

azuirfilho · Campinas, SP 18/7/2008 20:28
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Joana Eleutério
 

Obrigada, queridos Paulo e Azuir.

Quem sabe faz a Hora.
. Realmente. Tanto que ressuscitei um livro, cuja edição original é de 1985. Na verdade, apenas, acordei-o porque, como já disse, ele estava adormecido em meu coração.

Beijo grande.

Joana

Joana Eleutério · Brasília, DF 21/7/2008 09:41
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PauloDias
 

Ótima resenha! Esse livro é realmente muito bom, conheci através de um trabalho que fiz na faculdade, recomendo sempre que posso.
Beijo!

PauloDias · Taguaí, SP 16/11/2011 10:41
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Joana Eleutério
 

Para interessados, o livro finalmente ganhou uma nova edição:.
Vlae conferir. Grande beijo pra todos.

Joana Eleutério · Brasília, DF 17/11/2011 08:25
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