Subia pelo elevador, sim, subia por aquele meio de transporte, o barman – era especialista em caipirinha frozen. Sua cabeça estava recebendo descargas que avariavam parte de suas lembranças. Isso acontecia pela combinação do álcool com pílulas classificadas como tarjas pretas, classificação, essa, apenas burocrática ou realmente necessária? Ao psiquiatra havia relatado falta de emoção, letargia, entre outras mazelas que acometem a energia e adoecem o hospedeiro.
Durante a longa viagem até o 7º andar, teve um encontro amoroso com uma mulher, uma fêmea quase vaidosa que usava brincos de ouro e um colar vagabundo. A apalpava, sentia suas formas desenhadas no jeans. Cheirava-a como um cão sedento, desnorteado, também, pelo desejo. Não tinha certeza da verdade, afinal ele não estava ciente de si.
A porta se abriu, em seguida a outra, assim passou para dentro de sua morada. Como se estivesse perdido em um labirinto se desesperou e caiu profundo em seu leito. Abriu os olhos e estranhou como, em fração de segundos, recuperou a consciência. Estava, agora, solitário em um quarto branco, totalmente imunizado. Tudo era silêncio.
Levantou-se da prima-dona, colocada no meio do recinto, e andou pelos metros quadrados que o cercavam, chegou à janela e avistou um coreto, os músicos que ali fora estavam pareciam bonecos bem pequenos, foi aí que sentiu a vertigem – estava a uma altura inimaginável. Mesmo assim conseguia ver a bandinha flutuando em níveis mais baixos, o coreto era sustentado por uma corrente de ar. Aguçou o olhar e percebeu que todos estavam quietos, como se estivessem tocado a última música há anos.
A cena foi ampliada em sua memória e os detalhes saltaram aos seus olhos, como aquelas serpentes vermelhas de papel ou pano feitas de molas que assustam os desavisados que abrem as caixas. Podia ver as expressões congeladas dos artistas, a boca exata de um deles a soprar no bocal da tuba, os dedos rígidos do senhor, já de idade avançada, segurando as baquetas encostadas no tambor, e o requinte na execução petrificada do maestro. Saxofones, pratos e trompetes pairando na atmosfera.
Olhou para cima e, mesmo sem acreditar que existiria um patamar mais elevado, viu uma ínfima ilha por entre as nuvens gélidas. Ali estava a olhar para baixo a mesma mulher dos brincos de ouro e do colar ordinário, a moça tinha em seu rosto lágrimas que escorreram quentes por longo período, mas, agora, estavam geladas em sua pele, eram dois rios vitrificados. Ele pressentiu a dor e, mesmo sem entender o motivo, abriu a janela e perguntou: “O que fazes aí, com as mãos desesperadas, jogadas para baixo?”. Novamente estava sendo interrogada por ele, aquele momento acontecera outras vezes, era repetição. Antes mesmo da última letra do questionamento, ela responde em cadência suave: “Dê-me as flores e coloque o derradeiro bocado de terra em cima da minha morada”.
Booommm Diaaa Jornalista - Editor - Escritor/Poeta e antes de todos estes qualificativos talentosos - um Menino!
A repetição do Ato - nesse que chamamos de "cotidiano-diario" e que não seria "cotidiano", se não fosse diário ou seja = r e p e t i t i v o!
Ainda não tomei os meus comprimidos seja de Litio "aviado" (ñ confundir com "Há Viado") pelos Psiq's alopáticos nem os Prozacs de Fluoxetinas conjugados pelos Diazepans e menos ainda com wisky com guaraná, visto que não ingeri alcool há mais de 3 horas.
Disse isso, apenas para falar que tenho olhado para as Nuvens, esperando ver alguma Musa Nua, me chamando com o dedinho minino que seja. Bem - talvez seja pq nunca tive a chance de fazer amor para rimar num elevador!
...
Seu texto, traz a inspiração (que melhor penso talvez fosse não te-las) da Solidão das Solidões, que é aquela que nos devora nos quartos brancos virgens, e nos violenta "sem camisinha" nas madrugadas que sucedem as noites!
abraSSos deste Amigo (penso em ir a BSB nos proximos dias)
Zeca Feliz Avelar - gaDs!
Relato meio descabido, visto que não tem uma conclusão atraente, mas bem escrito, rico em detalhes, é bom o jeito que você escreve !
Um beijo !
Ler é como reviver, rememorar cada detalhe do que aconteceu e acontecerá na repetição concreta do ato e do fato. Esse sentimento poetizado que ganha vida cotidianamente, infinitamente.
Belíssimo texto!
O mundo invisível além nuvens, refletem na terra a vida.
Mundo Espiritual para Mundo Material.
Lógico que tudo se repete e assim continuará até o homem entender ou compreender que há vida após a morte.
Quanto ao seu maravilhoso texto, o meu muito obrigado e por sua presença, sua volta, parabéns.
Queridos amigos do Overmundo, muito obrigado pelas palavras, pelas críticas, pela gentileza da leitura.
Gilbson Alencar · Brasília, DF 19/5/2011 22:41
Voltou com tudo, hein?
Vou te contar... Me identifiquei muito com tua prosa um tanto quanto existencialista, surrealista até... O real e o imaginário se digladiando numa narrativa perfeita, de delírios imagéticos tão reais que confundem não só a cabeça do personagem como a do leitor.
Já fiz a bobagem de misturar psicotrópicos com álcool e tive sensações semelhantes. Coisas se movem, se ampliam, se dilatam, se encolhem, se afastam e a mente - como se pedisse arrego - só sabe rogar ao tempo que ele passe, que se descongele, para que, talvez, possamos eternizar o que antes havia, o que éramos antes de chegarmos até aquele ponto.
Fantástico!
Intetressante seu texto. Nunca ae sabe se esses remedios ajudam de fato ou só aumentam a loucura. Mas, se misturado ao alcool causam aluinações que confrontadas com a realidade nos fazem pensar que afinal, as causas e os fatos da vida se repetem sim... sempre! bjs
Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 20/5/2011 18:18A mulher tempo, a mulher relógio ou simplesmente uma mulher? Não importa , o que está em jogo é a felicidade desse hoemem a procura de paz, talvez. Gostei do texto, do fluxo de consciência da narrativa.vlw
Edson1970 · Mossoró, RN 21/5/2011 15:00
Um texto provocante, que incita o leitor a ler nas entrelinhas e traçar um paralelo com alguma realidade. O que não fica claro é se a mulher aí aparece como personagem central ou mero objeto no sentido literal da palavra.
Abraços.
Parabéns,Gilbson.Um texto instigante,um caminhar sobre o realismo...fantástico,uma perfeita descrição de uma situação vivenciada por muitos,como realidade e por outros como fantasia que se torna em realidade.
Todo o desenvolvimento do texto,feito de forma coerente,com um ritmo próprio de descrição perfeita,prende o leitor.Grande abraço.
Nossa! que texto! li de um fôlego só!
Adorei, uma imaginação rica em detalhes.
Apesar do contexto alucinógeno acredito que algo precisava realmente ser feito ou refeito.
Abraços e gostei muito de lê-lo
Gostei muito do texto. Achei sucinto e elegante.
Parabéns!
Gostei do texto. Deu para perceber que o caminho foi longo mas concluiu o pensamento. Parabéns!!!
YSIS · Novo Hamburgo, RS 25/5/2011 16:55
Gostei muito do texto, muito bem escrito, mas o final me confundiu... Preciso parar com as tarjas pretas...
Um beijo!
O real se junta com o sobrenatural, é um assunto fascinante! Parabéns.
Hélio Sérgio · Brasília, DF 26/5/2011 08:12Depois de um longo hiato eis-me aqui e que bela recepção! Um texto maravilhoso. Parabéns!
Nildo Cordel · São Paulo, SP 9/6/2011 20:20Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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