No exato momento em que sorvia uma xícara de café em requintada loja, tecia mentalmente o texto. O desejo veio súbito, talvez mediante as observações que eram feitas. Um paulistano muito bem trajado parecia desgostar do modo simpático como tratei a atendente. Mas quanto a isto sobram dúvidas, talvez ele nem estivesse dando a mínima. Adocei o café sem me importar em observar ao redor. De fato, um belo Café ali na Paulista. Minha presença foi tão rápida quanto o curto que tomei. Despedi-me da atendente e caminhei para a estação de metrô, cuja entrada estava a poucos metros.
O parágrafo acima passou o final de semana sem uma releitura. Ele fora escrito diretamente na tela do computador. Não me recordo por que não continuei o texto. Sei apenas que no final do expediente, último dia de trabalho da semana, fiz a impressão do texto. Levei-o para casa, onde tramava terminá-lo. Mas não o fiz. Houve tempo para tanto. Mas escrever é ato que requer alguns ingredientes, entre os quais o claro desejo. Falo por mim, evidentemente.
Estou em pé. A inoperância alheia é a culpada. Faz tempo percebo a dificuldade executória de muitas pessoas em suas atividades de trabalho. Talvez seja algo cultural. De qualquer maneira, isso enriquece esta construção literária. Creio que seja a primeira vez que escrevo assim, apoiado sobre balcão.
Era nosso segundo encontro. O primeiro produzira boas sensações. A química do beijo, dos toques, as palavras, resultou no contentamento. Mas a vida é rápida nos fatos e acaba por surpreender. Não tive culpa se um cupido mandou-me aquela outra mulher, que tomou conta dos meus pensamentos, sobre os quais controle algum era desejoso. Queria mesmo era pensar nela.
Assim que entrou no carro, depreendeu que agia por impulso, o que considerava grave equívoco. Quanto a mim, sentia que estava não com aquela a qual eu realmente desejava. Talvez por isso os assuntos se ausentassem. Nosso beijo, neste outro encontro, foi fugaz e já não produziu os mesmos efeitos. De fato, ela estava muito bela. Era gostoso olhá-la. Se meus desejos pendiam para outra mulher, nada minava meu carinho por ela. Não demorou, confessou nervosismo e contrariedade. Afirmava que avançáramos rápido demais os faróis que existem entre homem e mulher. Era o início de um rompimento precoce e necessário, além de desejado por ambos.
À mesa naquela rua dos Jardins, o papo franco preservou a amizade. Concluímos que não deveríamos seguir em frente. O encontro horizontal de corpos fora deixado de lado. Não queríamos correr riscos, ou as conseqüências do “depois”. Não havia tensão alguma, pelo contrário. Conversamos e rimos bastante. Eu confessei meu interesse por outra e ela elogiou a honestidade do ato. Levei-a até sua casa. No regresso, já ansiava contar à outra mulher que me fisgara o ocorrido da noite em questão. Sabedora do meu interesse por ela, lamentara que eu estivesse comprometido com alguém.
No dia seguinte contei a ela. Imediatamente, fiz o convite que eu tanto desejava. Aceitou com a simpatia gostosa que eu vira antes. Despedimo-nos depois de breve conversa. O que restou de domingo foi dedicado ao descanso e família. Por estes dias, a tranqüilidade tem sido fiel companheira. Faz tempo aprendi que a felicidade vem do interior, que por sua vez deve estar pleno de serenidade, o que podemos chamar de paz interna. A felicidade que lhe vendem na TV, nas revistas, filmes, novelas ou programas de auditório, é produto enganoso. Vai demorar para você perceber e fazer outras freguesias.
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