a sombra

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Renato Torres · Belém, PA
3/9/2009 · 14 · 18
 

esta a sombra que arrasto em meus pés
ou ela a mim? pondero sem susto.
empurrados os dois pelo sol em litania
ou pela luz fria dos postes noturnos,
a cidade espuma de tanta sombra!...
sangra este negrume tão lentamente
que não chego a pensá-lo – motor de um
outro inverno, cerne de volúpia quieta.

sombras inexistem de per si, são sobras
d´outros seres, inconcretudes espargidas
sobre o chão das coisas. verniz fugidio,
esta escuridão escorreita e servil...
de que me serve afinal? chama-me “mestre”
sem contudo dizer, segue-me às cegas,
num pleonasmo ingênuo, sua teimosia tão
discreta, embrionária.

recordo: em feto o teu manto me envolvia
em fervura sanguínea. sou teu filho, pois,
assombras-me desde o ventre, e hás de
engolir-me por fim, em mortalha de terra
água ou fogo. receio ter, inadvertidamente,
aberto teu jogo – de fato me espreitas,
empurras-me a cabeça noite após noite
em teu regaço estreito, na planura satisfeita
de treva sem remorso, no ócio da tua
liturgia, que parece não querer nada
além de refugiar-se aos becos, no
extremo diamétrico de toda luz, cuja
presença próxima aos objetos intumesce
a tua ossatura pânica e muda!

ei-la, imensada às expensas de argumentos parietais,
fantasmagórica sombra minha – minha?
ou sou teu severo percalço, se busco encandear-me
as instâncias, as latências, o substantivo lato?
sombrazinha, sozinha de fato, sempre
a reiterar-me a irrevogável dor íntima de existir,
que seja, então, assim, tal expediente teu, iconoclasta.
a mim, basta saber que hei de afogar-te, alhures,
na oceania fulgurosa de um sol de meio dia.

Sobre a obra

parte desse poema foi utilizada na performance Satori, de Valério Fiel da Costa - Artesanato Furioso, Teatro Waldemar Henrique, 28 de fevereiro de 2007.

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informações

Autoria
Renato Torres
Ficha técnica
Poesia Paraense
Poesia Brasileira
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Fábio Cavalcante
 

Pai dégua, Renato! E a tua leitura naquela noite foi fantástica. Pra mim a melhor apresentação do Artesanato. E agora finalmente conheci o original de um dos textos.

Abraços!

Fábio Cavalcante · Santarém, PA 4/9/2009 13:10
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graça grauna
 

a mim, basta saber que hei de afogar-te, alhures,
na oceania fulgurosa de um sol de meio dia.


...pela beleza do poema, fico a imaginar como foi essa performance. Parabens. Bjos de luz, Grauninha

graça grauna · Recife, PE 4/9/2009 16:27
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LAURO WINCK
 

Muito bom meu caro!
Votado.
absç

LAURO WINCK · Rio Pardo, RS 4/9/2009 17:10
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Marcos André Carvalho Lins
 

perfeito!!!!
abços,

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 4/9/2009 21:49
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Cintia Thome
 

Que abertura! rasga o coração Renato. Quando houve essa performance e lá eu estivesse choraria , aprofundas a verdade de nossas buscas.
Admiração é pouco.
Um abraço amigo. Cintia Thomé

Cintia Thome · São Paulo, SP 4/9/2009 23:49
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azuirfilho
 

Renato Torres · Belém (PA) ·

a sombra

Um belo Trabalho shakespeareano com a presença do Poeta Amigo
Valério Fiel da Costa do Artesanato Furioso
Pra gente refletir e exercitar a nossa aptidão teatral.

...esta a sombra que arrasto em meus pés
ou ela a mim? pondero sem susto.
empurrados os dois pelo sol em litania
ou pela luz fria dos postes noturnos,
a cidade espuma de tanta sombra!...
sangra este negrume tão lentamente
que não chego a pensá-lo – motor de um
outro inverno, cerne de volúpia quieta...

Parabéns.
Abração Amigo.

azuirfilho · Campinas, SP 5/9/2009 19:00
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raphaelreys
 

De prima o postado meu caro poeta!

raphaelreys · Montes Claros, MG 6/9/2009 19:57
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Renato Torres
 

fabitcho!

realmente, foi uma noite inesquecível, mano! só não sabia dessa tua opinião, de que achas a melhor apresentação do artesanato... que honra ter feito parte! sabes que te admiro imensamente, assim como ao valério. vocês são parceiros de que me orgulho muito!

abraços!

r

Renato Torres · Belém, PA 9/9/2009 13:48
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Renato Torres
 

oi grauna!

menina, podes ter uma idéia do que foi vendo os vídeos do satori aqui. claro, não dá pra saber exatamente (até pela pouca iluminação e qualidade dos vídeos), mas é possível ouvir a paisagem sonora construída, e ter uma idéia da amplitude das experimentações eletroacústicas do artesanato furioso. recomendo também que confiras as obras dos mentores do artesanato, fábio cavalcante e valério fiel aqui mesmo no overmundo.

abraços,

r

Renato Torres · Belém, PA 9/9/2009 13:55
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Renato Torres
 

lauro,

feliz de teres gostado do texto!

abraços,

r

Renato Torres · Belém, PA 9/9/2009 13:57
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Renato Torres
 

mano marcos,

a perfeição é realmente uma quimera... mas agradeço a tua generosidade desabrida.

abraços!

r

Renato Torres · Belém, PA 9/9/2009 13:57
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Renato Torres
 

cintia, querida...

não sei se chorarias... mas tenho certeza que ficarias instigada, pois são muitas as sensações possíveis dentro de uma experiência desse porte... acessa os links que sugeri na resposta a grauna pra teres uma idéia. quanto a aprofundar a verdade das buscas, creio que, se isso for possível, o é por nos identificarmos mutuamente, humanamente. as sombras, que nos acompanham, são o simulacro da alteridade a qual precisamos entender e burilar, como sugere o texto.

a admiração é mútua, minha amiga!

beijo,

r

Renato Torres · Belém, PA 9/9/2009 14:01
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Renato Torres
 

azuir,

é, realmente é possível reconhecer algo de shakespeareano no texto, mas também baudelaireano, artaudiano, e augustodosanjeano, tantos links quantos forem possíveis ao nosso poder de associação. creio que, assim, percebemos melhor o quanto estamos juntos nessa existência, e que temos como balizas outros que, como nós, resolvem registrar suas sensações e percepções em palavras, num poema.

abraços!

r

Renato Torres · Belém, PA 9/9/2009 14:07
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Renato Torres
 

raphael,

e de prima a sua resposta, positiva e generosa!

abraços,

r

Renato Torres · Belém, PA 9/9/2009 14:08
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Juliaura
 

há na sombra, entanto, encanto sem desacato, uma vez que, a afogar-se de tal modo, terá dado a vida por tanto. E por ambos é acabada.

Juliaura · Porto Alegre, RS 12/9/2009 23:26
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Renato Torres
 

juli,

sim, a sombra há de nos acompanhar sempre - e quanto mais forte a luz, mais forte a sombra. esse afogamento da sombra na luz do meio-dia que o poema sugere é, na verdade, uma ilusão: ela continuará sob nossos pés, a nos lembrar que, um dia, seremos tragados pro ela (pelo mistério).

um beijo,

r

Renato Torres · Belém, PA 22/9/2009 22:47
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Valério Fiel da Costa
 

Sem dúvida a melhor performance e Renato não podia deixar de estar ali com seu universo de gestos, falas em convulsão, com sua máscara ritual que, num desenho posterior meu, fundiu-se com o microfone na penumbra formando uma tromba sinistra. Sempre na espera da próxima oportunidade de trabalhar contigo. Grande abraço.

Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 27/2/2010 14:12
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Renato Torres
 

valério!

cara, que fantástica - e sinistra mesmo! - essa imagem que descreveste... desenhaste mesmo isto? gostaria de ver! repetindo o que disse a fábio, muito me orgulha saber que também consideras a melhor performance do artesanato. vocês dois são gênios criativos da música neste planeta, em seu grau mais puro: o da experiência e descoberta sem fronteiras do que pode essa linguagem imaterial.

abraços que também aguardam nosso próximo encontro!

r

Renato Torres · Belém, PA 1/3/2010 12:39
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