esta a sombra que arrasto em meus pés
ou ela a mim? pondero sem susto.
empurrados os dois pelo sol em litania
ou pela luz fria dos postes noturnos,
a cidade espuma de tanta sombra!...
sangra este negrume tão lentamente
que não chego a pensá-lo – motor de um
outro inverno, cerne de volúpia quieta.
sombras inexistem de per si, são sobras
d´outros seres, inconcretudes espargidas
sobre o chão das coisas. verniz fugidio,
esta escuridão escorreita e servil...
de que me serve afinal? chama-me “mestre”
sem contudo dizer, segue-me às cegas,
num pleonasmo ingênuo, sua teimosia tão
discreta, embrionária.
recordo: em feto o teu manto me envolvia
em fervura sanguínea. sou teu filho, pois,
assombras-me desde o ventre, e hás de
engolir-me por fim, em mortalha de terra
água ou fogo. receio ter, inadvertidamente,
aberto teu jogo – de fato me espreitas,
empurras-me a cabeça noite após noite
em teu regaço estreito, na planura satisfeita
de treva sem remorso, no ócio da tua
liturgia, que parece não querer nada
além de refugiar-se aos becos, no
extremo diamétrico de toda luz, cuja
presença próxima aos objetos intumesce
a tua ossatura pânica e muda!
ei-la, imensada às expensas de argumentos parietais,
fantasmagórica sombra minha – minha?
ou sou teu severo percalço, se busco encandear-me
as instâncias, as latências, o substantivo lato?
sombrazinha, sozinha de fato, sempre
a reiterar-me a irrevogável dor íntima de existir,
que seja, então, assim, tal expediente teu, iconoclasta.
a mim, basta saber que hei de afogar-te, alhures,
na oceania fulgurosa de um sol de meio dia.
parte desse poema foi utilizada na performance Satori, de Valério Fiel da Costa - Artesanato Furioso, Teatro Waldemar Henrique, 28 de fevereiro de 2007.
Pai dégua, Renato! E a tua leitura naquela noite foi fantástica. Pra mim a melhor apresentação do Artesanato. E agora finalmente conheci o original de um dos textos.
Abraços!
a mim, basta saber que hei de afogar-te, alhures,
na oceania fulgurosa de um sol de meio dia.
...pela beleza do poema, fico a imaginar como foi essa performance. Parabens. Bjos de luz, Grauninha
Que abertura! rasga o coração Renato. Quando houve essa performance e lá eu estivesse choraria , aprofundas a verdade de nossas buscas.
Admiração é pouco.
Um abraço amigo. Cintia Thomé
Renato Torres · Belém (PA) ·
a sombra
Um belo Trabalho shakespeareano com a presença do Poeta Amigo
Valério Fiel da Costa do Artesanato Furioso
Pra gente refletir e exercitar a nossa aptidão teatral.
...esta a sombra que arrasto em meus pés
ou ela a mim? pondero sem susto.
empurrados os dois pelo sol em litania
ou pela luz fria dos postes noturnos,
a cidade espuma de tanta sombra!...
sangra este negrume tão lentamente
que não chego a pensá-lo – motor de um
outro inverno, cerne de volúpia quieta...
Parabéns.
Abração Amigo.
fabitcho!
realmente, foi uma noite inesquecível, mano! só não sabia dessa tua opinião, de que achas a melhor apresentação do artesanato... que honra ter feito parte! sabes que te admiro imensamente, assim como ao valério. vocês são parceiros de que me orgulho muito!
abraços!
r
oi grauna!
menina, podes ter uma idéia do que foi vendo os vídeos do satori aqui. claro, não dá pra saber exatamente (até pela pouca iluminação e qualidade dos vídeos), mas é possível ouvir a paisagem sonora construída, e ter uma idéia da amplitude das experimentações eletroacústicas do artesanato furioso. recomendo também que confiras as obras dos mentores do artesanato, fábio cavalcante e valério fiel aqui mesmo no overmundo.
abraços,
r
lauro,
feliz de teres gostado do texto!
abraços,
r
mano marcos,
a perfeição é realmente uma quimera... mas agradeço a tua generosidade desabrida.
abraços!
r
cintia, querida...
não sei se chorarias... mas tenho certeza que ficarias instigada, pois são muitas as sensações possíveis dentro de uma experiência desse porte... acessa os links que sugeri na resposta a grauna pra teres uma idéia. quanto a aprofundar a verdade das buscas, creio que, se isso for possível, o é por nos identificarmos mutuamente, humanamente. as sombras, que nos acompanham, são o simulacro da alteridade a qual precisamos entender e burilar, como sugere o texto.
a admiração é mútua, minha amiga!
beijo,
r
azuir,
é, realmente é possível reconhecer algo de shakespeareano no texto, mas também baudelaireano, artaudiano, e augustodosanjeano, tantos links quantos forem possíveis ao nosso poder de associação. creio que, assim, percebemos melhor o quanto estamos juntos nessa existência, e que temos como balizas outros que, como nós, resolvem registrar suas sensações e percepções em palavras, num poema.
abraços!
r
raphael,
e de prima a sua resposta, positiva e generosa!
abraços,
r
há na sombra, entanto, encanto sem desacato, uma vez que, a afogar-se de tal modo, terá dado a vida por tanto. E por ambos é acabada.
Juliaura · Porto Alegre, RS 12/9/2009 23:26
juli,
sim, a sombra há de nos acompanhar sempre - e quanto mais forte a luz, mais forte a sombra. esse afogamento da sombra na luz do meio-dia que o poema sugere é, na verdade, uma ilusão: ela continuará sob nossos pés, a nos lembrar que, um dia, seremos tragados pro ela (pelo mistério).
um beijo,
r
Sem dúvida a melhor performance e Renato não podia deixar de estar ali com seu universo de gestos, falas em convulsão, com sua máscara ritual que, num desenho posterior meu, fundiu-se com o microfone na penumbra formando uma tromba sinistra. Sempre na espera da próxima oportunidade de trabalhar contigo. Grande abraço.
Valério Fiel da Costa · São Paulo, SP 27/2/2010 14:12
valério!
cara, que fantástica - e sinistra mesmo! - essa imagem que descreveste... desenhaste mesmo isto? gostaria de ver! repetindo o que disse a fábio, muito me orgulha saber que também consideras a melhor performance do artesanato. vocês dois são gênios criativos da música neste planeta, em seu grau mais puro: o da experiência e descoberta sem fronteiras do que pode essa linguagem imaterial.
abraços que também aguardam nosso próximo encontro!
r
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