A Tradição Remixada

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Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ
25/4/2006 · 88 · 2
 

Vou começar a disponibilizar aqui no Banco de Cultura uma série de artigos, ensaios, press-releases e textos diversos que publiquei em muitos lugares, alguns que se perderam por aí ou são de difícil acesso. Os arquivos terão sempre a extensão sxw do OpenOffice. Podem ser, é claro (depois de uma rápida tradução digital) lidos por qualquer processador de texto. Por que então criar essa "dificuldade" para a maioria dos leitores? Para incentivar o uso de software livre, para que quem ainda não tenha o OpenOffice no seu computador baixe o programa, faça o teste e veja como a vida, por vários motivos (não apenas pela gratuidade), torna-se bem mais fácil. Quem tem Windows e já usa o Firefox para navegar na internet (como muitos leitores do Overmundo) deve ter descoberto que software livre não é nenhum bicho de sete cabeças, pelo contrário!

Para começar, aqui está um artigo que escrevi com o Ronaldo Lemos (na verdade ele escreveu quase tudo, e eu apenas troquei umas palavras e acrescentei algumas frases), e que tem tudo a ver com as idéias que nos motivaram a estarmos juntos por aqui na coordenação do Overmundo.

O texto - publicado na página 10 do caderno Mais!, da Folha de S. Paulo, em 04/09/2005 - aborda o debate sobre as relações entre propriedade intelectual e as culturas chamadas de "tradicionais". Há muita gente hoje querendo, com a melhor das intenções (tentando proteger essas culturas), estender para todas suas manifestações (músicas, rituais, artes visuais corporais, conhecimentos sobre a natureza etc. etc.) a propriedade intelectual tal como foi concebida pela indústria cultural ocidental (e que tem sua rigidez hoje questionada por projetos como o Creative Commons, ou o próprio movimento do software livre).

Imagine que essa "proteção" vire lei. Por exemplo: quem quisesse fazer sua música baseada no ritmo do maracatu deveria pedir permissão ou fazer pagamentos tipo royalties para os grupos culturais considerados pela lei detentores da propriedade intelectual do maracatu. Imagine que o Chico Science e a Nação Zumbi, na hora de inventar seu mangue beat, tivessem pedido autorização e a resposta tivesse sido negativa (por inúmeros motivos, que poderiam ser até ideológicos - os detentores teriam decidido que misturar maracatu com hip hop seria uma traição à tradição - ou comerciais - a banda iniciante não teria verba para pagar os direitos). Essa situação teria sido absolutamente contraprodutiva para os próprios grupos tradicionais do maracatu, que hoje conseguiram muito mais visibilidade e vitalidade (e consequentemente: auto-estima) justamente porque o mangue beat fez milhares de jovens, no mundo inteiro, descobrirem aquilo que estava se transformando em quase um segredo pernambucano. O uso não-ortodoxo, sem pagamento de direitos, fortaleceu (até gerando mais dinheiro para todos) mesmo a tradição mais ortodoxa.

Essas coisas acontecem o tempo todo. Cercar as tradições com barreiras protecionistas excessivas, no lugar de fortalecê-las, pode sim provocar seu desaparecimento precoce.

Fui recentemente visitar Nazaré da Mata, Pernambuco. Há um monumento ao caboclo de lança do maracatu rural na entrada da cidade. Andando pelo centro, nas vitrines das lojas, era possível constatar que o maracatu rural tinha virado um símbolo oficial para a região. Siba me contou que no início dos anos 90, quando pisou por ali pela primeira vez, aquela tradição era desprezada pelo poder público, considerada brincadeira perigosa de arruaceiros e prostitutas. Hoje é bem diferente. Duvido que isso pudesse ter acontecido sem o mangue, que tanto foi atacado pelos tradicionalistas, em defesa da tradição. Mas, hoje, olhando para trás, é possível se perguntar: quem foi mais benéfico para a tradição?

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Ronaldo Lemos e Hermano Vianna
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Chico Egídio
 

Olá Hermano e Ronaldo, gostaria de saber se posso publicar o texto A tradição Remixada e se possível a introdução acima na nossa Revista Raízes Culturais, uma iniciativa da Associação Raízes que terá sua circulação gratuita em recepções e bibliotecas de Juazeiro/BA e Petrolina/PE e a preço de custear a distribuição nas bancas de revistas locais (R$2,90).
A Revista faz parte do Projeto Festival Raiz & Remix.
www.raizeremix.com.br
www.youtube.com.br "raiz e remix"
Se vocês aprovarem a publicação nos informe como deviria sair os créditos.
Abs,
Chico Egídio

Chico Egídio · Petrolina, PE 17/6/2008 15:04
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Hermano Vianna
 

oi Chico: pode sim! abraços!

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 17/6/2008 23:49
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