Um impestado de um boi
Entonce o cabôco foi
Tirá da roça o marvado.
Correndo prá aqui, prá ali,
Levando tudo di eito,
Mais forem sim havê jeito
Do boi “greguena” sabi...
Dizisperado o cabôco,
De suó todo lavado,
Correndo prá todo lado
Prú riba de péda e touco!
O roçado era incostado,
Bem incostado ao ranchinho.
Já o cabôco afobado,
Gritou chamando o minino.
Qui imbora um tanto franzino,
Mais porem já cricidinho.
Chegou o minino e se trava
A luta, os dois pelejando,
Pedrada e pau atirando,
Mais o boi não acertava
Cum a sahida do roçado.
Tava o minino agaixado
Prú ditrais de um-a moiteira,
Pau e peda percurando.
Do pai qui vinha ataiando,
Um-a pedrada certeira
Tangida prú braço forte
No boi im toda carreira
Foi cahi lá na moiteira
Levando o minino a morte!!
Uviu-se um grito e mais nada.
Corre o pai lá afrito...
Arrissuou na quebrada,
Muito mais forte outo grito!
Muié... Muié... Eu... matei!!
Eu matei...! Nosso fiinho!!
Cuma foi isso?!Não sei...
Nossa senhora... Me acuda!
Ou muié... Vem cá. Me ajuda
Leva ele pra o ranchinho!!
....................................................................
Tava a muié mamentando
O novinho inda de braço,
Sentada ali no terraço.
Vendo o marido a chamando,
O piqueninho chorando,
Bota no chão e vai vê.
Caicule agora voincê...
Lá chegando a pobezinha,
Ficou de tudinho muda!!
Diz-lhe o marido: Me ajuda,
Leva ela prá o ranchinho!!
A muié tudo iscutou
Tudo vendo sem chorá
Sem dá palavra ficou!
Ajudando a carregá
Prá o rancho o fio difunto!
É triste de mais o assunto!!
Mais porem vou triminá...
Quando no rancho o cazá
Chegaro cum o fio morto
No maió dos disconforto,
O qui incontraro, patrõ?
Tacos de carne de gente,
Do corpinho do inucente,
Num má de sangue afogado,
Qui ali foi isfatiado
Pelos dentes de um barrão!!!
Não foi isso só, patrão...
A pobe mãi da criancinha,
Qui inté ali se mantinha
Sem chora! A dô damnada
De quem dois fio perdeu,
A féis ficá sufocada!!
É qui a mãi disventurada,
Ficou chorando e sirrindo!
E a dô não rizistindo,
A coitada indoidiceu!!
Louca! Correndo prú mode
O qui viu, o qui avistou!
A dizê: Quem me acode?
Quem me mata prú favô?!!
E o cabôco desgraçado
Vendo chão insanguentado,
E os pedaço do inucente!!!
Damnado, rigindo os dente,
Louco di dô pelos fio,
Pelos dois fios quirido,
Viu num armadô di rêde
Qui tinha assim na parede,
Sua pistola. E no uvido
Meteu, pruchando o gatio!!!
Dispois do cauzo, dois dia,
La na mata qui ixistia,
Di tarde tudo silente,
Uviu isso um caçadô:
O fala de um inconciente,
Falando piedozamente,
Quem é qui mais qui Deus pode?
Quem me acode? Quem me acode?
Quem me mata prú favô?!
A doida pouco sofreu,
Prú dipressa morreu!
Nesse mundo im qui vivemos,
Dasse cauzo meu patrão,
Qui nóis nunca qui sabemos
Dizê quá foi a rezão.
Não havendo home sabido,
Ninhum doutô intindido,
Qui daquele acuntecido
Saiba dá ixpricação!
(05/04/1945)
Meu Deus, que coisa mais triste!
Fiquei emocionada com a beleza desse lindo cordel.
Obrigada por mostrar.
beijos
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