A troca justa
A rua não parecia tão iluminada quanto antes. Seguiu mesmo assim. O rosto de Maria Eduarda lhe pareceu espectral e quase sinistro, o que lhe fez pousar sobre ele o olhar mais uma vez. Não demorou, seguiu caminho. Voltou o rosto mais uma vez e ouviu seus próprios passos, baixou a cabeça ao brilho dos sapatos. Voltou o rosto mais uma vez e ela agora o olhava.
_ Não sei por que motivo as pessoas resolvem apagar as luzes de vez em quando por aqui.
_Vai ver não apagaram as luzes. Talvez as próprias luzes se apaguem.
Nada havia mais de espectral no rosto de Maria Eduarda. Um anjo pousara ali ao lado. No espaço de tempo em que ele olhava seus sapatos, uma troca justa se estabeleceu ali.
Resolvido a não pensar mais em detalhes, abraçou os ombros da mulher e enfrentaram juntos à escuridão. O perigo já existia, eles não sabiam. Na verdade, o perigo sempre nos acompanha. Somos nós e o perigo. Na verdade o perigo subsiste a cada passo. Na próxima esquina sempre um dinossauro ou algo mais moderno pronto a nos tirar a vida. Foi assim desde o início e foi o que encontraram.
Dois assaltantes os abordaram tranqüilamente. O que queriam do casal não se sabe. Mas, eles lhes entregaram jóias, dinheiro, cartões e até retratos. Os retratos ficaram no chão juntamente com o corpo de Pedro. A facilidade e rapidez com que se desfaziam de seus objetos davam a exata dimensão do quanto estavam assustados e prontos a fazer o melhor que pudessem para não merecer nada mais que um simples assalto.
Maria Eduarda foi arrastada para um carro que estacionou, logo depois, ao meio-fio. Pedro foi morto por acidente e o ladrão desajeitado resolveu prestar ajuda. Sem saber, é claro, que já não havia vida naquele corpo.
Agora, vejam, como pode um ladrão prestar ajuda? Não era um ladrão. Gostaria de passar a sê-lo e aquele era o primeiro assalto. Por que motivo lhe deram uma arma carregada para aquela estréia, o grande mistério. E não cabe a nós, agora, em cima da hora, e com o corpo ainda quente, tentar desvendá-lo. O aprendiz de ladrão disparou a arma sem motivo aparente também e agora tinha a cabeça do defunto sobre o colo. Não estava o quarteirão inteiramente escuro. Um poste a vinte metros de distância dava um ar de penumbra a toda a cena. E se nós nos colocarmos a uns outros dez metros de distância e não firmamos muito o olhar, veremos uma Pietá. Sim, a velha e boa presença de uma Pietá. Os braços caídos do cadáver, a cabeça para trás e as pernas flácidas do antes homem a notar o belo rosto de sua mulher, lhe davam a aparência indefesa de uma criança aos braços fortes de sua mãe, agora o ladrão, que lhe trouxera à morte, à treva. Não importa o sentido da caminhada, era o que o quadro humilde trazia.
Elaine Pauvolid
um conto experimental, leia um trexo: O perigo já existia, eles não sabiam. Na verdade, o perigo sempre nos acompanha. Somos nós e o perigo. Na verdade o perigo subsiste a cada passo.
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Uma cena infelizmente cada mais frequente...
Nada justo na realidade...
Primoroso texto, muito bem colocado !
A realidade é que não presta !
Um beijo !
Alcanu !
obrigada, alcanu!!!
mas, se gostou do texto, por favor vote!
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beijos
elaine
bela construção,gostei e votei.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 3/8/2008 17:05
Agradeço ao amigo Alcanú pela indicaçãp.
Amiga um texto com a nossa realidade,julgá-lo seria matar uma bela construção. Todos os dias vivenciamos algo que nos faz refletir.
Hoje leia e agradeço por estar aqui.
Deixo meu carinho e desejo suesso.
Cena,comum,corriqueira,em todo lugar ,infelizmente
Muito bom seu conto e to aqui registrando meu carinho querida
Olá Elaine!
Bom o seu conto de uma realidade nada boa.
Beijos_Meus*
*
VO(L)TADO!!!
Real, dinâmico, surpreendente! Li num fôlego!! Adorei! Votadíssimo
Lena Girard · Belém, PA 4/8/2008 07:58
A realidade em preto e branco.
Muito bem narrado.
Abraços e publicado!
meus votos e meu carinho!
beijo no coração
Gostei muito.
A trágica realidade das ruas apresentada em ritmo fluído .
Gostei também da interferência do narrador, principalmente neste final quase romântico e muito forte.
Parabéns!
beijos
Elaine,
Belo conto onde nos alerta para a importância do viver o presente, pois o perigo existe e persiste em todas as esquinas e em todos os espaços. O quadro por certo retrata a realidade cada vez mais presente em nossos dias.
Gostei,
bjssssssss
Medo? Mas esse medo, essa angustia, esse terror, essa injustiça, essas dores, roubos, o sangue, e a arte nos acompanham como sombras(sombras nossas). estamos inseridos neste texto, somos o texto, vivemos estes personagens. E abraçamos não importa qual morte. mas abraçamos em cada esquina pela qual transitamos.
Parabéns Elaine Pauvolid
com um bju
Ivy
Passando estou numa lan,
já está nos meus favoritos
beijos
claudia almeida
A todos vocês, amigos, que vieram me visitar meu muito obrigada!
pretendo ir visitando todos vocês aos poucos para conhecer o trabalho de cada um.
beijos
elaine
ERRATA:
TRECHO e não, trecho, como está logo na apresentação!!!
desculpem!!!
ERRATA:
TRECHO e não, trexo, como está logo na apresentação!!!
desculpem!!!
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