Estavam os dois amigos tomando um sol na piscina do clube. Um deles lia compenetrado uma matéria numa revista de variedades. De repente, irrompe assustado:
- Você leu isso daqui ?
- O quê ?
- A última pesquisa dos cientistas lá fora ...
- E daí ?
- É sobre caipirinha.
- O que tem pra saber sobre caipirinha que eu não sei ?
- Dá câncer !
- Como é que é ?
- Isso mesmo. Quer dizer, mais precisamente, caipirinha em copo de plástico.
Odacir olha pro seu próprio copo com espanto e dispara:
- Pô, Juvenal, tu tá de onda com a minha cara !
- Não, não, é sério. Vê aqui, ó. – e aponta para o texto.
O homem toma a revista do amigo com violência, força um pouco a vista – já não era tão novo – e depois desiste.
- Lê aí, lê aí que eu tô sem óculos.
- Pra olhar as menininhas você não precisa de óculos.
- Não me avacalha, vai ! O que é que tá dizendo aí ?
- Diz mais ou menos o seguinte: o álcool da bebida - e não tem diferença se é cachaça ou vodka – reage com o ácido... ascórbico. E aí, essa mistura explosiva, em contato com o plástico, libera uma substância tóxica pra caramba. Ela que causa o tumor. Mas não é da noite pro dia, tipo bebeu uma vez só, que a pessoa fica doente. Tem que ser durante muito tempo.
O amigo olha pro Juvenal com um ar pensativo. Estava tentando se lembrar desde quando tinha aquele hábito de tomar sua bebida predileta à beira da piscina. Era sócio do clube fazia décadas. O pai fora um dos diretores por um bom tempo, daqueles que marcam a administração pela competência e lisura. Mas começara a frequentar a piscina com mais regularidade somente depois do nascimento dos filhos, que já eram adolescentes. Raciocinou com cuidado, e chegou a um número: quinze anos. Forçou a cabeça durante uns instantes, era bom em cálculos. Afinal, não trabalhava com contabilidade por acaso. E chegou a outro algarismo: eram exatamente cento e oitenta meses, mais de setecentos e vinte finais de semana. Ou mil, quatrocentos e quarenta sábados e domingos. Juvenal, por sua vez, já havia largado a revista, chamado a atenção dos dois filhos por uma bobagem qualquer e naquele instante admirava uma mulher que se molhava no chuveiro.
- Quanto tempo ?
- Quanto tempo o quê ?
- Quanto tempo o cara tem que tomar a porcaria da bebida pra ter câncer ?
- Não acredito. Você ainda tá pensando nisso ?
- Claro. Você me chama a atenção, sabe que eu bebo essa droga direto, e agora quer mudar de assunto ? Hein ? Fala logo !
- Calma, mermão, não precisa brigar comigo. Deixa disso, você só bebe final de semana. E copo de plástico, só aqui. Ou eu estou errado ?
- Todo santo sábado e domingo, Juvenal ! Durante quinze anos, homem. Quinze anos ! Eu fiz a conta. Isso dá quase mil e quinhentos dias, juntando os sábados e domingos. Tudo bem, vamos considerar que mais da metade tava frio, choveu ou eu viajei. Ou não tava com saco de vir aqui. Vamos dizer que eu bebi, por baixo, durante uns quinhentos sábados e domingos. Quinhentos, entendeu ? Multiplica por uma média de quatro caipirinhas por vez, dá umas duas mil. Tu acha pouco ? Duas mil caipirinhas ?!?
O homem se espanta com o argumento preciso do amigo. Em seguida, dispara em tom zombeteiro:
- Olha, acho que eu vou tomar isso aí também ! Se é pra ficar com esse raciocínio, vale a pena o risco.
- Para de deboche, seu desgraçado. Me fala logo, quanto tempo tá dizendo aí ?
- Não tá dizendo tempo nenhum. Diz só que não é de uma hora pra outra. Tem que levar em conta também a saúde geral do sujeito, outras coisas tóxicas que joga pra dentro, o estresse ...
- Tô ferrado, tô ferrado !
- Calma aí, se soubesse que tu ia ficar assim, nem te falava.
- E ia me deixar morrendo aos poucos, sem saber a causa ?
Juvenal começa a ficar preocupado. Afinal, ele quem provocara aquela situação.
- Escuta aqui, Odacir, eu vou ser sincero: não acredito em qualquer besteira que eles publicam. Esses cientistas, cada hora falam um coisa. Que isto aqui mata, que aquilo outro faz mal. Se for assim, você não come nem bebe coisa nenhuma.
- Deixa de ser descarado. Agora tá querendo me consolar ? Tadinho do moribundo, né ? Eu tô perdido mesmo. Como é que eu vou falar pra Marta ? E as crianças, meu Deus, e as crianças ?
- Que isso, mermão, você tá ficando maluco ? Eu falei só pra botar uma pilha em você. E tem mais: acho que eu não usei a palavra certa. Olha aqui, vai. Bem aqui. Não diz que dá câncer. Diz que pode dar. É completamente diferente. Completamente, entendeu ? E não tem um montão de outras coisas que podem causar a doença ?
Odacir para pra pensar por alguns segundos. O amigo tinha razão: era diferente sim. Pode dar é como a poluição que a gente respira. E não tinha lido mais de uma vez sobre os agrotóxicos das verduras ? E também os corantes, conservantes e espessantes de um monte de alimentos, e por aí vai. Até o iogurte dos meninos, tadinhos. Cigarro, então, nem se fala. Ainda bem que tava livre desse mal.
- Bom, sendo assim, a coisa muda um pouco de figura ...
- Muda um pouco, nada. Muda tudo. Fica tranquilo, falou ? Vamos esquecer esse papo.
- Tá bom, tá bom. Não comenta nada com a Marta.
- Claro que não.
- Por via das dúvidas, aqui na piscina, só tomo cerveja agora. Mas olha lá o Alencar com o copinho na mão, mexendo o canudinho ...Você acha que a gente deve avisar, alertar ele de alguma coisa ?
- Esquece, já te falei. Faz o seguinte: toma a minha cerveja aí e fica quieto. Eu tô a fim de alguma coisa mais forte - diz, pegando a caipirinha do amigo.
Texto do livro "O Enforcado e Outras Histórias".
rssss
isso ta com cara do Veríssimo, bom demais mermão...rsss
taí, tu ta fazendo bom mesmo.
abreijo meu irmão.
mas alcool em copo de plastico não! rss
Aí está uma crônica, com cara de crônica, corpo de crônica, humor, rítmo , atualidade, etc.
Pô, adorei! Vou tomar uma caipirinha em homenagem!
abraço
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