Por comparação, Lúcifer seria o Justin Bieber da maldade, isso de acordo com uma lenda que revela outra entidade como o verdadeiro Diabo. Tão terrÃvel que até a própria essência do Mal se escondia de medo no lado oposto do mundo quando ele aparecia. Entretanto, como todos que padecem de descontrole emocional, era burro.
Foi à Bahia, encontrou um arbusto cheio de pimentas, abusou da virilidade, meteu logo cinco na boca e em segundos soube de seu castigo: usando os dentes como guilhotinas, arrancou a própria lÃngua. Assim que atingiu o solo, surgiram, concomitantemente, o pedaço de terra a ser chamado de Salvador milênios depois e a expressão “pagar com a lÃnguaâ€.
A cidade arde até os dias atuais, sem previsão de cessar. O velho Pag O’deeh, o tal pobre-diabo feito mudo, escondeu-se sabe Deus onde, mas o que se conta é que sua lÃngua tombou cheia de pústulas e toda vez que demônios com incontinência urinária obsidiam os cidadãos da uretrópolis, fazendo com que estes demonstrem seu amor lÃquido pela capital baiana, ele se vê obrigado a cantar o que ele chama de música e a soltar um bafo tão quente que chega a deixar o Astro Rei tÃmido. O Sol nenhuma culpa leva pelo calor daqui, portanto. E isso acontece todos os dias. Exceto hoje.
Chamem de misticismo, ou crendice, mas a impressão que tive permanece um fato: chegada a 31ª manhã de dezembro de 2013, algo mudou. Alguém deve ter sedado o velho Pag O’deeh.
Não sei se há um quilômetro inteiro entre minha casa e a academia, mas no caminho notei que a demarcação popular de território não diminuiu nem em gotas, nem em concentração, e ainda assim uma brisa quase fria corria solta. Fosse pelo fim iminente de um ciclo ou por qualquer outro ritual cabalÃstico, algo ficou diferente.
Quando esse tipo de coisa acontece, é preciso andar bem atento aos detalhes, especialmente os mais concretos e menores, quase imperceptÃveis. Pois foi justamente nesta manhã que avistei o segundo leprechaun (duende) deste entre-lugar chamado Lauro de Freitas, sendo que o primeiro é um homenzinho que frequenta a academia, o irmão gêmeo baiano do ator Warwick Davis.
Reconheço que tenho uma estatura compacta de 1,62m e já estou bem acostumado a ser chamado de hobbit. Mas esse par de criaturas mágicas devem ter 1,45m no máximo. O que vi devia ser um pouco menor. Era moreno, de cabelos pretos, com “entradas†de calvÃcie, tinha olhos castanhos brilhantes e estava vestido inteiramente de vermelho. Vinha andando em minha direção e a cada passo eu ficava mais apreensivo, me perguntando se ele faria algum truque de ilusionismo. Não fez. Desviou. Eu devia ser alto demais para seus poderes.
Pelo que dizem, essas criaturas, apesar de travessas, costumam trazer boa fortuna e esperança. Então comecei a lembrar de toda essa onda de bons augúrios que continuam a inundar as redes sociais. Toda sorte de desejos genéricos, uma bem-querença descarada e descomprometida vinda de lugar algum e direcionada para ninguém em especÃfico. “Um Feliz 2014 para todos vocês!†Como queiram.
O ano será feliz em qualquer circunstância, pois tendo o Tempo a única função de passar, subtrair e somar vidas, e multiplicar arrependimentos, sua felicidade jaz, obviamente, no sentimento de dever cumprido. As pessoas é que vão escolher entre o sofrimento e a paz interior, a depender de como queiram enfeitar a alma.
Eu só desejo às pessoas (e não ao ano, já que este não precisa) uma coisa: honestidade. Sobretudo consigo mesmas. Que rasguem contratos sociais e religiosos e partam para um lado mais prático da vida, o que pode facilmente levar à verdadeira felicidade que advém de livrar-se do fardo da adorável e socialmente cultivada desfaçatez.
Em aniversários, por exemplo, que deixem de desejar “tudo de bomâ€, posto que tudo que é bom varia de acordo com o contexto histórico e a moral predominante. Que não desejem nada, porque de fato nada desejam. Por que não expressar esses bons votos com algum objeto ou lembrancinha, ainda que singelo? Porque talvez custe algum trocado. E tais bons votos, como conselhos e elogios, são de graça. Por que não ir, então, fazer uma visita para dar um abraço ou beijo pessoalmente? Porque custa tempo e energia. E não estamos em condições de pagar nada em débito.
A todos os meus contatos do Facebook: eu não lhes desejo nada além de Honestidade (a Sabedoria é consequência). E se forem comer lentilhas, maneirem na pimenta. Ah, e que assim como o ano de 2014, sejamos felizes.
"Crônica" publicada online, em perfil do autor no Facebook, em 31/12/2013.
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