I
Ah! Se interrompêssemos o descorar das palavras!
Ah! Se desvendássemos a verdade do inseto!
Ah! Se curássemos virulentas feridas!
Oh! Oh!
Dores de mim.
O amor é tanto mais feliz
a quanto baste está putrificado,
ou impor-nos a proeza das metáforas infelizes
com seus séquitos e condimentos.
(Dor a quanto nos levas?)
Obriga-nos à existir por você,
és uma lágrima de quem não existe...
Teus cancros são contraídos
em pusilânime sorriso...
Teus fôlegos são como fomes remetidas
às gargantas dos orvalhos e esqueletos...
Gélidos arcabouços
cujos pingos que desdizes em pedaços
são bolorentos como as vertigens,
tem o poder de punir,
de guardar segredos e humilhar-nos
e se contradizem ao vomitar:
Oh! Dor! Oh! Dor!
é nesses lamberes sem alvo corpo
que dormes e te exilas
da bêbada desforra...
Apesar de impunemente
caires nos narcisismos da madrugada,
crias um indigente justapor
de vida e morte,
porquanto cabe à revolta
reparar os enganos que te seguem.
II
Ai! Tento não sobraçar a pergunta que foge...
Mas como não sobraçar de vez
nas difusas ribeiras de solidão?
A incomparável gravidez dos anjos.
trái o público do de mim
que, ébrio, assiste ao espetáculo
da paixão e êxtase da palavra...
Ao me esfregar no hímen complacente
das virgens de boca fácil,
melo-me de asfalto
e sigo e creio-me esvaindo
inexoravelmente ao vento,
à símile tez que se acumula
sobre a braguilha dos deuses:
Oh! Dor! Oh! Dor!
Crias-me parco deslumbre poético,
caias-me de rouca fumaça
e por tal feito só posso comparar-te
à fétida madrepérola
de aflito gozo.
III
A verdade existe...
Mas não me atirarei à submersão
dos náufragos, nem à usualidade
de quem os colide
com seus embebedados teoremas:
fazendo-os cópulas sem lógica,
ou até mesmo sujeitar vidas gozadas,
a rubricar, impelir, combater – definir!
Mas... É rumando
para o sal da carne de nada,
que o poeta desvirgina-se em sangue.
Lá onde os poemas deprimidos submergem,
soluçam, galam...
Apavorante testículo,
com o suor a escorrer-lhe pelos lábios:
bacilo dessas mentecaptas gramáticas,
desses incólumes testosteronas,
desses palavreadores indefinidos
e dessas vadias formas de penetrar.
©Benny Franklin
A quanto a dor nos leva?
Meu poeta del mundo,um maravilhoso texto.Na volta deixo meu comentário.
sempre uma honra te ler.
"O pênis é a caneta com que Deus escreve a vida", me disse Cláudio Barradas. Teu poema, como de bom costume, não é nada óbvio, beat de nascença, contestador de natureza, coerente no martelar que bate indiretamente. Nada óbvio.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 31/8/2008 19:03
Benny,
Li e senti o poema-espelho gélido das dores de mim. Também é arcabouço dessas dores, atravessado pelo desejo no ritmo forte das palavras. Fonte de lucidez possível. Alerta contra o poder sedutor da palavra não fertilizada pelo sal do corpo.
Leitura arriscada do que não é manifesto. Busco a verdade latente do inseto;)
Oh! Dor! Oh! Dor!
Crias-me parco deslumbre poético,
caias-me de rouca fumaça
e por tal feito só posso comparar-te
à fétida madrepérola
de aflito gozo.
Poeta é isso!
Basta dizer dos fãs que ele tem...
bj OS HF
Benny,
Belos e densos os seus versos. A dor que nos digere, ácida, que nos esmaga como insetos, sobrevoando o amor putrificado, como fruta que se estraga de tão madura, como o casulo de carne que é o homem, em sua lenta decomposição...
Parabéns ! Vo(l)tarei.
Abraços poéticos
Benny,
não há como passar ileso neste seu poema, simplesmente não! Meu ser inteiro remexeu junto...fiquei entre cruzes e espadas...e a reflexão do que estou fazendo mesmo?
Viajei...
abraços
Benny,
Cá estou novamente, votando em seu belo e forte poema.
Abraços poéticos
É rumando
para o sal da carne de nada,
que o poeta desvirgina-se em sangue.
Sempre com essa escrita resoluta.
Parabéns.
um abraço
Olá Benny!
...
A pergunta foge
A resposta escraviza
Escapadela virulenta...
Instigante!
Beijos_Meus*
*
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