Às sete e quinze da manhã, um insolente raio de sol se esgueira pela cortina xadrez pesada, mais parecida com um cobertor velho. O barulho dos carros no Minhocão já ecoa nos corredores úmidos e empretecidos dos apartamentos da São João, onde fuligem e mofo andam de mãos dadas, numa orgia de fortes e penetrantes aromas: feijão a cozinhar, esgoto, banheiro sujo, sexo.
Naquela diminuta quitenete dormia Osmanir o sono dos justos. Chegara há pouco da labuta, mas quem chegara não fora Osmanir, e sim Rayanna Power. Seu nome da noite. Seu nome de guerra. Sonhava sempre com sua infância em Mantena, leste de Minas. Com a enorme rocha que havia nos fundos da sua casa, como na casa dos amigos, das brincadeiras de roda e de pique-esconde, rouba bandeira. Da sua primeira namoradinha, Vandilene. Do seu primeiro grande amor, Célio. Do pai, bêbado, violento, gritando filho viado aqui eu não quero! quer ser viado, vá embora enquanto batia nele. E sempre acordava com o primeiro murro que sentia, aos berros, com o suor empapando a camiseta de dormir e o pranto rasgando-lhe o rosto como a navalha de um passado sombrio, tristono. Nessa hora pensava, sorrindo, Ryanna, agora sou Ryanna e ninguém me segura.
Saíra de casa aos 17 anos, sem novidade alguma, expulso pelo pai machão, com endosso da mãe evangélica e do irmão militar. A caminho de São Paulo, a terra das oportunidades, trabalhou de chapa, fez bico de pedreiro, entregou jornal em diversas cidadezinhas. Sem esquecer seu passado, suas cicatrizes e o quanto ainda poderia ser feliz longe de uma casa que não respeitava o outro, que não olhava para o lado. "Com o vizinho pode" ecoava o grito do pai nos armários empoeirados de suas lembranças "mas com meu filho nunca". "Que vergonha, meu filho" gemia a mãe em seus sonhos, nos quais acordava aos prantos, lágrimas que eram azedume em seus lábios finos.
Era um rapaz bonito. Moreno, pele bem cuidada. Para cair na "vida" foi muito rápido. Célio foi apenas um tira-gosto para as emoções que viriam: Antônio, homem mais velho, experiente, grisalho e que bancou Osmanir por um bom tempo. Terminaram numa boa, continuaram amibos. Depois Júnior, um furacão na cama, de um tesão interminável, mas filhinho-de-papai, não queria nada com a vida. E cada mês na vida de um casal gay vale quase um ano da vida de casais heterossexuais. E cada dia de vida de uma travesti é uma vitória. E com esse gosto de vitória nasceu Rayanna Power. Entre amigos, num papo de bar, vou ser travesti, disse Osmanir. Apoiado pelas "monas", fez o primeiro teste em uma boate do centro velho, perto da praça da República: aprovada e batizada pelas mais velhas, começou a "viração". Pediu as contas do mercadinho no qual trabalhava e, com o dinheiro da rescisão, comprou peruca com cabelo original, maquiagem e alguns vestidos. Estava com 21 anos agora e há muito não ouvira falar de sua família, não procurou saber, fugia de qualquer tipo de contato. Seu pai falecera logo depois de sua partida, a mãe, viúva, se virava como podia vendendo salgados e doces para a vizinhança. O resto da família, não queria nem saber.
Hoje seria mais um dia comum. Passa o dia pelas ruas, flanando em busca de um perfume novo ou uma roupa mais provocante. Encontra algumas "amigas" para o café, fofocariam um pouco, comentariam que não está fácil a rua, como é chato ficar ouvindo esse papo do Ronaldo e as travas lá do Rio. Que povo mais sem pendência, esse, diria Mirella, ou Juvenaldo, com seu inconfundível sotaque pernambucano. Depois volta para casa, umas oito, nove da noite, toma um banho, maquiagem, roupa e peruca. Desce as escadas de seu prédio na praça Roosevelt, apenas dois andares e a "neca aqüendada" já se acomoda. Pega no batente às 22h00, como marcando ponto numa esquina da avenida Amaral Gurgel. É nova, bonita, logo sai do ponto. Encosta um carro preto, ela olha a placa primeiro, Minas Gerais. Um aperto na garganta, mas ela encara. O vidro se abre, num segundo eterno.
- E aí gatinha?
Ouve o grito da infância naquela voz. O cheiro de sua gente, de sua pele.
- Tá assustada? Entra aqui, vamos conversar.
Corre pela primeira rua que vê, desesperada. Osmanir, Rayanna, todos gritam dentro dela. O choro mancha seu rosto em rasgos singrados com dor. Era seu irmão ali, no carro. Era seu passado, ali, querendo sexo, apenas isso. E o amor que sempre desejou dos seus deu seu último suspiro naquela noite quente.
Texto originalmente publicado em Canto dos Contos.
Um conto repleto de ingredientes que prende a atenção do leito. Parabéns! Voltarei.
Falcão S.R · Rio de Janeiro, RJ 23/6/2008 04:04
Perfeito!
Como você escreve bem!
Esse final está excepcional.
beijos
Como sempre, um primor. O mundo é pequeno. Como dizem os "gringos", você pode correr, mas não pode se esconder.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 24/6/2008 12:15Amigo, gostei do texto, da narrativa. Votado.
Ari Donato · Salvador, BA 25/6/2008 07:49
Se o título fosse Rayanna Power, ja tinha uns 50 votos, se fosse Misericórdia ja tinha 70. Mas este A vez... li, porque leio todos os textos de ficção. Agora, amigo, o recheio, o texto em si é mara... Olha cara, isso é cena de filme. Aplaudo de pé.
abcs
Se o título fosse Rayanna Power, ja tinha uns 50 votos, se fosse Misericórdia ja tinha 70. Mas este A vez... li, porque leio todos os textos de ficção. Agora, amigo, o recheio, o texto em si é mara... Olha cara, isso é cena de filme. Aplaudo de pé.
abcs.
(por favor, traduza pra mim: "neca aqüendada" , desculpe a ignorância.)
Olá Nic,
Eu sei que os títulos mais chamativos fazem a obra muitas vezes. Mas o título "A vez" me é caro, pois traz uma miríade de possibilidades. Meio que um desafio àqueles que, como você, lêem textos de ficção.
"Aqüendar a neca" é quando o travesti esconde o pênis entre as pernas para parecer mulher.
Abç
Nossa, Peterson, que texto tristemente forte!
Perfeitamente escrito, prendeu-me até a última letra ...
Deus proteja os outros de nós mesmos.
Belo, belo escrito, e ainda deixa tinturas de amor ...
Verdadeiramente rico.
Velu!
Maravilho texto meu amigo.
Demorei pq vim pelo caminho relendo.deixando meu carinho e votos.
Oi pessoal,
Obrigado mesmo por prestigiar meu segundo texto.
Abraço
Pete!
Que legal poder ler os seus textos por aqui tbm.
E o mais legal é saber que as pessoas estão gostando!
Parabéns!
Adoro esse conto, visual, quase cinematográfico, recorte de uma realidade dura tal como a vida, . Só acho o título vago demais para a força que tem o texto. Continue nos presenteando com seu talento.
Nanete Neves · São Paulo, SP 26/6/2008 14:43Sinestésico: o cheiro do feijão e o gosto do sangue se misturam e a narrativa flui para um desfecho brusco. Gostei.
Zerobill · Franca, SP 23/1/2009 15:56Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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