A vida secreta dos anus-pretos
O dia chegava de susto em sangue banhando muros, casas e quintais de luz. Borboletas vermelhas desciam o rio de carona, num tronco de árvore morta. O vento que vinha do sul fazia as vacas pastarem de bunda ao sopro, enquanto os anus-pretos formavam quadrilhas por entre moitas de bambus e inauguravam o silêncio com seus palavreados. Isso era a rotina daquela estradinha viciada em bois e cavalos, a qual eu cruzava todas as manhãs de abril. Seguia rumo à charqueada, onde minha ocupação era espantar urubus – trabalho que me elevou à categoria de observador cientÃfico de pássaros.
Numa destas manhãs, notei que os anus-pretos se organizavam em grupos de vários indivÃduos, e que sempre obedeciam a uma ordem natural, a de viver em comunidades – como os humanos. Gostavam de apanhar sol se empoleirando uns sobre os outros, ao longo da cerca na estrada. As fêmeas lavavam suas roupas pretas nas águas empoçadas e, depois, tiravam os alimentos dos lombos dos bois - isso quando faltavam os artópteros.
Descobri que os anus-pretos falavam mais de doze dialetos e eram de estranha beleza, que variava de acordo com a nossa visão. Portanto, um anu-preto não era somente átomos cozidos em estrelas, mas o meu limite cientÃfico só sabia isso. Eu era incapaz de medir seus encantos.
No meu aniversário de 11 anos fiz um discurso em lÃngua de pássaros para aquela quadrilha de anus-pretos e descobri que eles queriam ser vistos por humanos razoáveis. Isso, porque João Rola-Flor, o benzedor, tinha a crença no valor curativo da ave. Ele vendia suas magras carnes para doenças venéreas – João curou meia cidade.
Para se tornar pássaro depende da prática, tive escola com aqueles anus-pretos por um longo perÃodo. Quase criei penas, mas em duras penas desvendei seus anseios e sua evolução.Tive a impressão poética de que tais criaturas eram parentes distantes dos dinossauros, que resolveram evoluir até criar asas.
fim
Arlindo!
Este conto me comoveu, uma obra prima...
Agradecido, José
Obra prima!
Que bom ... hoje digo eu, agradecido José!
Muito obrigado José. Voce é um grande leitor. tenho observado isso...
Saudações pantaneiras do sul
Lindo vôo seu Arlindo, pena que não te vi na praça do Peixe, queria te apresentar André Balbino....
Bia Marques · Campo Grande, MS 18/12/2006 20:02
Lamento!
Poxa, acho que preciso ler o cadernoB. - Não sabia que Andre Balbino estava aqui... que pena!
Não vai faltar outra oportunidade,tenho certeza.
Obrigado Bia!
Vou te ligar esta semana.
Um grande abraço.
A partir de amanhã estou em casa, até dia 26 só festa e descanso....
Bia Marques · Campo Grande, MS 19/12/2006 15:09
excelente, conto. bem original. estilo dez.
abs
Faço minha as palavras de Bia!!
Lindo vôo - Pena que não te vi na Praça do Peixe - Queria te apresentar Rangel Castilho...
Que pena....
Sem exagerar
A Lenilde fez o convite na sexta. (Pça do Peixe).
Eu estava ciente que iria...( eu disse, eu vou!)
50 anos se passaram e minha memória...
e como por encanto, esqueci!
Imagino que não faltará oportunidades.
Aguardo sua visita este ano, ainda.
abraços
Marcos Andre Carvalho Lins,
Nome comprido,nome de escritor e tambem um grande poeta.
Muito obrigado.
Saudações Pantaneiras do sul
Muito bom. Na minha infância, em Bela Vista de Goiás, dizia-se que se você secasse o coração de um anu preto ao sol e fizesse dele um pó, bastaria jogar um pouquinho desse pó sobre a cabeça da mulher escolhida, que ela ficaria "doidinha" pra dar para você. Não pude comprovar a tese porque nunca consegui matar nenhum anu.
Paulo José · Alto ParaÃso de Goiás, GO 20/12/2006 10:26
Muito lindo, Arlindo. Tudo é pantanal.
zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte, MG 20/12/2006 11:30
Paulo José,Eu também procurei um anu-preto para o "tal assunto"...
Na hora de matar o bichinho não tive coragem.
O tal mito permeia o Brasil todo - bem lembrando!!
Saudações pantaneiras
Bia,
Hoje, na adolescencia da velhice, prefiro os virtuais.(risos).
Beijos.
Salve Simpatia!
Tudo é pantanal e um pouco do Brasil tb.
Sou apaixonado pelo "Clube da Esquina" sobretudo por Milton e Beto Guedes, gosto das montanhas,das iguarias do queijo, das ruas e das pessoas alegres. Não existe lugar nem um no mundo como as Minas Gerais...
Saudações pantaneiras
Se te contar que moro na rua em que o "Clube da Esquina" se encontrava (Paraisópolis com Divinópolis, no bairro de Santa Tereza), você acreditaria?
Se contar que sou vizinho também do Restaurante do Bolão, onde o cenário musical brasileiro em passagem por BH se encontra, nas madrugadas intermináveis, você acreditaria?
Visite Belo Horizonte mais vezes, estaremos te esperando (conhece a fama hospitaleira do mineiro, não conhece?)
Quem sabe uma boa dose de botecos, Diamantina e pães-de-queijo?!
Abraços, e continue sempre talentoso como você é.
Felipe
Se jura que ta falando a verdade??!!
Olha que um dia desse apareço por aÃ...( eu tenho um tiquinho de mineiro) meu pai é baiano cansado, nasceu em Teofilo Oroni.
Eu andei visitando BH em 2003 - voltei com a mala cheia de queijo e pinga da região de salinas.
Vc tb. está convidado a conhecer os pantanais,seus corixos,onças, e um milhão de aves. Imagino que irá gostar de pudim de bocaiúva ou peixes em emulsões de guaviras...
Muito obrigado Simpatia!
saudações
Ps te convido a ouvir um dos nossos grandes compositores. Geraldo EspÃndola (está no Overmundo).
NatashaCorbelino
Muito obrigado.
Vc nasceu em Campo Grande?
Saudações.
Não, sou carioca, meu pai e minha avó moram aà e espero visitá-los em breve, e aproveitar as belezas q vc escreve
NatashaCorbelino · Rio de Janeiro, RJ 20/12/2006 15:54
Natasha,
Te convido a entrar no "banco de cultura" - entre em MS.
e veja quanta coisa legal tem aqui nesta terra.
Eu tenho animações,pinturas eletrônicas,roteiros de cinema,poesia e até musica...
Quando vier me avise.tá?
af.
Está convidado, pode vir. É verdade, eu sou de Santa Tereza, o bairro do Clube da Esquina, Sepultura, Jota Quest e Skank. É comum caminhar pelo bairro e trombar com Toninho Horta, Lô Borges e Henrique Portugal, entre outros.
Adorei o convite, e estarei, em breve, em terras pantaneiras.
A cachaça de Salinas é a melhor do mundo!
O queijo minas dispensa comentários.
Procurarei Geraldo EspÃndola.
Abraços,
Combinadissimo.
Simpatia,
Gosto muito do Lô Borges, sobretudo de uma obra-prima que ele fez com Milton, "Clube da Esquina n2" Ma-ra-vi-lho-sa!! (eterna).
Eu já risquei umas canções.Meu parceiro é Geraldo Espindola.
Veja no Overmundo. (tenho 4 canções postadas).
abração.
Natasha!
Tá combinadÃssimo. Aguardo sua visita.
Eu estive no Rio em 2004. Fui gravar um documentário. "O poeta é um ente que lambe as palavras e se alucina" (doc. que fiz para Manoel de Barros, nosso poeta maior).Foi pelo Doc-TV/Ministério da Cultura.
abraço.
Ainda que vc nao precisou matar nenhum anu-preto pra conseguir seu intento. Também, voce sabe que nao precisava. Nosso amor foi à primeira vista e tudo rolou por causa dele. Lá se vão 24 anos....
cristina medeiros · Campo Grande, MS 20/12/2006 22:22Bê, faltou uma palavra no inÃcio da frase (sou foca nisso aqui). "Ainda bem que vc nao precisou...."
cristina medeiros · Campo Grande, MS 20/12/2006 22:23
Caro Arlindo. Em meus aprofundados estudos sobre os anus-pretos, que, coo se sabe são também Crotophaga ani) e são encontrado em áreas abertas, da Flórida à Argentina e em todo o Brasil, com cerca de 36 cm de comprimento, plumagem negra uniforme e bico bastante alto, também chamados de anuaÃ, anuÃ, anu-pequeno, e geralmente observado em pastagens, alimentando-se de insetos espantados pelo gado. O anu-preto vem bravamente suportando as mudanças climáticas para se manter vivo. O mesmo não se pode afirmar do anu-branco (você sabia da existência dos anus-brancos?). Mesmo com cores diferentes esses pássaros vivem em grupos geralmente de oito a dez indivÃduos, que dormem sempre na mesma arvore. Sua alimentação é basicamente de insetos. Ah! Mas isso eu já disse. E eu acho que o anu-preto também pode ter a ver com a esperança. Só que a gente tem de pintar ele de verde.
Luca Maribondo · Campo Grande, MS 21/12/2006 12:16
Grande Luca!
fiquei estudado agora...
Sobre anu-branco. Conheci na minha infância, mas naquela época tinha até guavira!
IncrÃvel é a quantia de "cantos" - doze ou mais. ( um para cada tipo de emoção ou atividade).
abraços
Pois foi depois daquele email, sujeito, que vim esbarrar aqui nesta prosa boa pra homem-ave nenhum botar defeito. Apesar de "tudo aquilo", arlindo, bem vejo que ainda resta esperança. Nem que a gente tenha que pintar de verde um magote de anu-preto, como sugere o Luca Marimbondo. Agora tirei a prova de que os potes de conteúdo bom acabam se achando nesse mar de cabeça e rodilha. O jeito é tocar em frente.
Tenho dito a quem me parece gente de prosa e verso com gosto de funil ou cuador aqui... falo disso de apuração necessária que a gente já sabe e quer que entendam... sim, porque é preciso mesmo muitas vezes garimpoemar nesse imenso chão de palavras... tenho dito que retomo a colaboração no site pra ser doce e azedume. É isso aÃ.
Ah. Anu come carrapato. E carrapato a gente conhece. É aquele bicho escroto que gruda e suga. Uma praga. Olho vivo!!!
Gostei do texto. Parabéns pela verve boa.
excelências para um poeta contista
Ney Souza Lima · São Jorge do PatrocÃnio, PR 4/5/2009 22:42Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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