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A VIÚVA NEGRA - Crônica

jjLeandro
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jjLeandro · Araguaína, TO
3/2/2007 · 103 · 9
 


A VIÚVA NEGRA

Todos, ao lerem o título, vão pensar logo em uma mulher. Talvez extrapolem e imaginem uma deusa de ébano, fatal mistura de feitiço e volúpia. Mas longe disso, a Viúva Negra foi uma pipa. Isso mesmo, ao longo da história, vou explicando tudo. Ela aconteceu no Maranhão e lá se vão boas décadas (tive agora arrepios ao pensar em minha idade). O ano foi 1977. Estava eu com 17 anos incompletos. Estudava em Carolina e morava com meus avós. O Tocantins corria lento, banhando a ilharga oeste da cidade, que o namorava sobranceira ao resguardo da ira de suas enchentes pelo alto barranco. Quando ele se enchia de suas negaças de amor, era muita água querendo afogá-la. Mas sobrevivia sempre. Bom, já que apresentei a cidade e o rio, vamos à Viúva Negra.
Naquele ano o verão já havia terminado, a quadra das chuvas, digo, o rio minguava mas ainda não havia praia – único lazer do povo ali. A meninada, para se divertir, empregava todo o engenho possível na confecção de papagaios, salvo engano o primeiro artefato manobrável e mais pesado que o ar que o homem fez alçar aos céus(coitado do Santos-Dumont). Os ventos constantes eram um convite para colorir os céus e ninguém deixava escapar essa oportunidade. Eu não dominava a arte da construção de papagaios com a mesma destreza dos homens que construíam os seus barcos à beira-rio. Frustrava-me com isso. Mas tive um consolo ao receber o convite de um tio meu, sargento da Aeronáutica, para auxiliá-lo na construção da Viúva Negra. Recebeu esse nome porque o papel utilizado era negro, encontrado ao acaso no depósito do armazém de secos e molhados de meus avós. Tudo para mim era novidade e para todos os meninos da cidade também. França, marido de uma irmã de minha mãe, era do Rio de Janeiro, destacado para serviço no aeroporto local da FAB, e dominava como ninguém a arte de construir pipas, que para todos nós de Carolina era estranha.
Eu explico. Primeiro a terminologia, que isso é uma ciência complicada. Em Carolina chamávamos papagaio a todos os que tinham três hastes na armação e eram ‘suros’, ou seja, sem rabo; as arraias, duas hastes e também suros; e curica, três ou duas hastes e levavam rabo. As hastes eram de talos de buriti, retirados da folha da palmeira. Portanto, o bom construtor, que tinha as medidas exatas, construía papagaios ou arraias. Aqueles que tentavam estes e erravam nas medidas tinham o dissabor de colocar rabo para equilibrar a ‘criatura’, pois do contrário ficaria somente rodando ao vento. É justo imaginar que em Carolina, entre a meninada, tinha moral o garoto que jamais errava nas medidas, do contrário era gozação certa.

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Autoria
jjLeandro


Ficha técnica
Jornalista e escritor, 46, residente em Araguaína -To. Autor do livro de poesias Quase Ave, com o qual ganhou o concurso literário nacional para autores inéditos Cora Coralina em 2002, em Goiânia


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Nivaldo Lemos
 

JJ, que maravilha sua crônica! Viúva Negra! Fez-me lembrar dos papagaios de minha infância, em Teresina. Também os fazíamos com talos de buriti e rabos enormes, armados com giletes. E era lindo ver o duelo no ar, a habilidade daqueles pássaros de papel de seda (como chamávamos a fina folha) derrubando adversários com a habilidade de escorpiões alados. Depois vim para o Rio e conheci a pipa, sua inspiração, mas nunca uma igual a sua Viúva Negra. Parabéns pelo texto. Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 1/2/2007 11:49
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
jjLeandro
 

Beleza, Nivaldo. Então vc sabe bem do que estou falando, viveu as duas realidades. Tão próximos ali, Maranhão e Piauí, de fato a forma de empinar papagaios era a mesma.
Obrigado pela sua consideração e abraços.

jjLeandro · Araguaína, TO 1/2/2007 12:57
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Sebastião Firmiano
 

LI agora, mas estou bêbado.
Amanhã eu leio de novo e comento.
Mas se eu morrer esta noite, saiba que eu li.
Aliàs, nem vim aqui pra ler.
Vim só pra te mandar um abraço.

Estou triste.

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 3/2/2007 02:56
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jjLeandro
 

Vc é uma figura, grande Firmiano. Sei que não vai morrer. A bebida não mata de repente, só se for um porre homérico...sei que você é comedido. Contudo obrigado pq mesmo nesse estado etílico tenha tido a deferência de ler meu texto.
rsrsrs

abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 3/2/2007 09:45
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Sebastião Firmiano
 

O céu é da Viúva Negra
E eu vejo à pipa, mais puxando o menino
do que o menino, segurando a pipa
É a infância, elaborando o poeta

Sebastião Firmiano · São Paulo, SP 3/2/2007 12:46
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André Gonçalves
 

e eu, que nunca aprendi a empinar pipa?

André Gonçalves · Teresina, PI 28/3/2007 14:05
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jjLeandro
 

É, Ándré. Comungamos da mesma falha.
abcs

http://jjleandro-jjleandro.blogspot.com/

jjLeandro · Araguaína, TO 28/3/2007 14:17
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jjLeandro
 

Desculpa ter agudizado muito o seu nome...rsrsr
abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 28/3/2007 14:18
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victorvapf
 

Beleza de relato, detalhado com uma ilustracao muito bonita, li e gostei muito. Eu chamava de "surreco" o papagaio sem rabo, e nem bambolim tinha. A gente tinha que afinar a taquara de jeito que ela vergasse e nao desse cabecadas...Custa aprender raspa la no ideal...abrs. e votei, pois nao estava aqui na epoca!

victorvapf · Belo Horizonte, MG 6/11/2007 09:50
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