Numa manhã de segunda,nebulosa,úmida e quase fria...
Andava a cruzar uma pequena ponte, era Março...
sobre riachinho tão cheio de alegria!
Um caminho entre sítios, roças, eu descalço,
cercado por gentes simples, mas arredia
Desconfiadas de todo novo ente, urbano, forasteiro, intruso... Seus olhares, seus gestos... O que querias?
Cono muralha, todo o vale era abraçado por inúmeras
e belas colinas, verdes e serenas, tal mosteiro!
Estas montanhas e cumes tornavam nossa pequenez
tão fértil e vadia, na paisagem amena! Vi quimeras...
"Que adianta tanto conhecimento e sede de vontades
tão díspares? Que ínfima existência, serdes humus, talvez?"
Assim, pelas trilhas vagava, aos sons de pássaros, vivas vidas, distraído e absorto, até meus olhos serem assombrados
por radiante brilho que emanava do milharal abandonado...
Era esta pequena flor do campo! Se erguia como trepadeira que pela haste do milho, como uma amante pendurada
ao peito de raro, único amigo, só querendo ser notada...
Um silêncio tão profundo quanto demorado fez-me admirar tão bela florzinha que me falava, sussurrando docemente:
"Viste-me sem maquiagem, espiaste minha intimidade
Agora leve consigo meus rubros vestidos tão sem idade
Aos demais que nunca me viram, nem experimentaram
quer a cor ou o formato, ou o perfume que te calaram!
Mas ao levar e dividir-me, com os "nunca vi", mostre-lhes mais!
AQUILO! A verdade, beleza por trás de todas coisas tão Reais!
Sou uma estrela caída, aprisionada nestes esquecidos vales...
Obrigada a decorar tão injusta prisão e o mais vil dos Males:
Estar apartada, divorciada de tua Origem, de tua Luz-Pátria!
Explicai a todos: ninguém aqui VIVE, senão sendo Párias!
Vê minha veste? Como está reduzida? Foi me subtraída...
Por legiões de parasitas e de Tiranos, assim que me vi caída...
Estes, sem vida própria, são seres sem Lume, sugam apenas
O néctar, a seiva e toda essência de Todos, sem penas...
Se te emocionas,viajor, melhor ainda é a tua forma mesma!
Pois és própria imagem, a eões: da razão suprema!
Porém, anos neste cárcere,degenerastes a bela veste dada.
mais lindíssima e excelsa que as minhas: ó dádiva Iluminada!
Seguimos, ó andarilho, vereda tão efêmera como a vida minha!
Mas lembre-se de meu estelar aspecto, ainda tão pequeninha,
Erga a fronte, vença limitações, assuma de onde vens!
"És filho de Rei, não sois escravos! Guie-se na filiação, teus Gens!"
Não te acomodes, nem resignes com teu corpo e cadeias da matéria!
Lute! Principalmente em si mesmo, diariamente, é aí que reina a miséria!
Limpe vosso templo, tão energicamente como quem ara a terra, o campo!
Só assim, as verdadeiras sementes brotarão e se elevarão ao Espaço Amplo!
Siga, agora, carregando-me em seu coração, e nele irrompendo sem hesitação!
E nos veremos em breve, fora daqui, alhures, onde há Paz e contemplação!
Pois vida devota a Deus, não são discursos ou imitações: Transfiguração!
Eis minha oblação aos teus olhos, Cidadão, voemos à nossa Mansidão!"
Em Março de 2008, precisamente, no meu aniversário, 28, estava no parque PETAR, visitando as cavernas do vale do Ribeira.
Lá, pela manhã, me encontrei com esta flor...
E de sua conversa, nasceu estas linhas...
Tú és tão sensível...
Quanta beleza, quanto amor!
Maravilhoso.
Willian,
que beleza de texto.
Me fez lembrar dos arco-iris da vida, que não enxergamos
por estarmos preocupados com futilidades.
bjs
Linda flor... encantada, fiquei encantada...rs
Lhe inspirou nesse lindo texto...
voltarei depois...
bj na alma!
Willian,
continue sempre conversando com as flores,
que desse diálogo nascerá belos poemas.
e elas não machucam, nem transgridem, apenas agradam
Maravilha!
bjs e votos
esta é a terceira vez que leio. estou encantado com versos. quiz comentar antes mas quem impediu foi a flor estrela vermelha. afinal que era aquele belo exemplar de natureza que me hipnotizou. curiosidade aguçada, fui na botânica tropical só cheguei a saber que é uma espécie de trepadeira com flor tipo trobeta. misteriosa e maravilhosa, tão suave e bela quanto sua obra. entendi do seu encanto por ela até aos traços no papel.
abraço fraterno poeta.
Silveira
Que a bela, única voz dela
como inaudível trombeta
lhe desperte, como a mim fez
desfazendo, longo sono e querela...
abração
desculpe o atraso...
mas vo(l)tei!
bj na alma!!!
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