Acredite se puder: Machismo e/ou Covardia!

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AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ
14/1/2008 · 89 · 14
 

Leiteiro e sua escola na rua Invasão da WE 29 Cidade Nova 6 Pará 1988

O destino por 3 x me levou a Santa Tereza, lindo bairro do RJ que nos remete ao passado. A 1ª foi com Verônica, a 2ª com minha ex, Stella, e a 3ª com meu professor Lua Rasta. Com Verônica ia sempre que podia, principalmente aos sabados e domingos.
Mais tarde meu patrão comprou uma motinha de 2ª mão para acelerar as entregas, e acelerei diariamente pra Santa.
Nos primeiros dias os moleques esvaziavam meus pneus, obrigando-me a descer ladeira abaixo, empurrando a dita cuja.
A "vagabunda" deu tantos problemas mecânicos que o patrão se desfez dela. Ultimo dia de um ano entre 1975-80, subo a Santa pra desejar Boas Entradas, e umas 22 horas saio correndo da casa de Verônica, tentando chegar na praia de Copacabana a tempo de ver a queima de fogos.
O transporte público de Santa Tereza é um bonde, cuja peculiaredade é ter um lado, o esquerdo, gratuito. E lá vem o bonde e eu fora do ponto tenho que pega-lo a unha, ou seja correndo. Caroneiro de carteira assinada foi moleza, só que pra meu azar tive que pegar no lado pago, com todo o morro descendo pra balada, o outro estava superlotado.
E lá vem o cobrador chato que já me conhecia de tantas idas e vindas, me apavorei e esse descuido foi fatal. As ruas são estreitas para 2 mãos, fazendo com que os bondes andem bem rente as calçadas, também estreitas, cujos postes ficam a menos de meio metro da rua.
Procurando um lugar vago do outro lado, não reparei que o poste vinha vindo, e POW !, fui atropelado pelo poste, que vinha a 40 km batendo na minha cabeça. Pretiou tudo mas não vi estrêlas, vi tudo em marrom claro, eu caindo em posição fetal, com o braço esquerdo dobrado atrás da costa.
Meu olhar a uns 4 metros acima, olhou meu corpo por alguns segundos, depois veio se aproximando suavemente e entrou pelo meu ombro direito. A medida que ele descia, meu ouvido ia começando a ouvir a freada do bonde e os comentários sobre o ocorrido. Abri os olhos e me vi na mesma posição que tinha visto no trailler, e pensei:
Perdi meu braço!
Tentei levantar meu corpo daquela posição fetal, e senti meu braço direito biônico, com musculos de aço. Estranha sensação pensei. Levantei-me, sentia-me leve, tinha perdido pouco sangue mas o dedo indicador entrava traquilamente no buraco aberto.
Acredito que se tivesse morrido meu "olhar" teria subido!

Levaram-me para o hospital, que naquele dia e hora, só tinha estagiário de Universidade de Medicina. Meia hora depois apareceu um que me deu 4 anestesias na cabeça, um verdadeiro banho, não reclamei, já estava todo molhado de sangue, depois eu estava indo tomar banho de mar mesmo. Não sei se por não ter carne na cabeça, a anestesia só pegou 50%, e para piorar ele costurou em espiral, deixando uma salcichinha.Recauchutado quis ir embora, as 7 ondas do mar sagrado me chamavam, não deixaram. Meia hora depois chegou o irmão de Madame Satã, trazido por 3 PMs, bem vestido, tinha até colete. No rosto, tinha um farol avariado e outro completamente apagado, fruto de uma provavel bicuda de um dos PMs.
Tinha uma bola 7 (rôxa) de bilhar embaixo da pálpebra, impressionando a quem olhasse, o quanto pode inchar o globo ocular. Dizia desafiador em alto e bom tom:
Tenho a costa quente, estou por dentro da sonoplastia!
Pedi a Deus que me liberassem logo, o cara estava pedindo pra morrer.
Conheci Stella e lá vou eu pra Santa Tereza. Stella dividia uma casa com Calixto um ótimo pintor e ator, e Elói Iglesias, famoso cantor performático aqui no Pará, mas que no RJ, salvo engano de minha parte, não se projetou.
Numa bela manhã subimos pra Santa Tereza, pegamos o bonde no meio da subida. Os bancos todos ocupados, Stella , grávida de uns 5 meses teve que...
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informações

Autoria
Leiteiro
Ficha técnica
5 meses teve que ir em pé, agarrada no apoio do encosto de um passageiro, e eu fiquei no apoio do corredor.
Não era a toa que só tinha aqueles 2 apoios vazios, subimos e o bonde seguiu, enquanto no banco do meu corredor, um magricela em pé de frente a uma jovem de uns 20 anos, dava um senhor tapa no rosto da mesma.
Eu gelei, (expressão paraense muito apropriada por sinal) mas nem me mexi, afinal eu conhecia a Lei de Muricy:
Na Lei de Muricy, cada um cuida de si!
Também estava embasado pelo velho deitado:
Em briga de marido e mulher não se mete a colher!
Stella ferveu! e disse:
Voçe deixa de ser covarde!
Ele não contou até 3, e sentou a mão no rosto de minha mulher.
Aí eu congelei.
Olhei lá no fundo do bonde, um senhor negro, uns 50 anos e bem forte, e pensei:
Bastaria eu dar um peteleco neste vagabundo, e todos os homens (éramos uns 6) fariam picadinho do patife.
Nem me mexi!
As leis incutidas desde pequeno nos amarraram, não sabiamos o tamanho do crime, (leia-se traição) que ela teria feito.
As mulheres conhecem a Lei:
Os homens podem ser "galinhas", as mulheres não!
Até hoje penso se fui Machista ou Covarde, já que não permito um tratamento desses numa criança, mas admito numa mulher.
O destino não me deu outra chance, mas se ele me der será que farei diferente?
Leiteiro
PS: Apartir deste ocorrido, passei a acreditar que todos que são mortos pelas costas, ou dormindo, vêem seu assassino!
Quem morrer, verá!

O homem é um animal que pensa que é homem!

Cada um tem os seus erros... Não faz bem ficarmos aceitando influência negativa no nosso bem-estar devido 'as atitudes alheias.
Sem falar que não somos 100% corretos também!



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Cintia Thome
 

Leite, Só você e suas lembranças. Verdadeiro contador de estórias reais. abç

Cintia Thome · São Paulo, SP 11/1/2008 20:08
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Lígia Saavedra
 

Amigo, vc foi "muito homem", por que só sendo "muito homem" é que se engole um sapo desse tamanho sem partir para a violência, (bem maior), que nesse caso poderia ter acabado no cemitério ou na Delegacia.
Texto engraçadissimo, se foi tudo verdade desculpe-me, mas vc a descreveu de uma maneira muito divertida.

Um bjão

Lígia Saavedra · Ananindeua, PA 11/1/2008 20:31
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brigitte
 

Sergio, tens razão quando afirmas que as leis incutidas desde pequenos nos amarram e para delas se soltar é um desafio e tanto!
Acredito que se o fato ocorresse hoje você reagiria de forma diferente.
A narração é muito, muito boa e relatada de forma bem descontraida.
Gostei!
Abração e até mais.

brigitte · Goiânia, GO 11/1/2008 21:47
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Saramar
 

Ainda bem que você voltou.
Eu adoro suas histórias e esse modo especial de nos colocar quase dentro delas, pelo quase coloquial.
Devo concordar com a Lígia. Só homem de verdade é capaz de se segurar para não dar vez à violência.

Gostei demais, como sempre.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 11/1/2008 22:31
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Ize
 

Ei Leiteiro, claro que adorei seu relato. Só fiquei na dúvida se vc aplicou mesmo a Lei de Muricy no caso do tapa que sua mulher grávida levou do sujeitinho. Não fiquei bem certa se vc não estava apenas querendo acabar a história do jeitinho como vc a finalizou.
Verdade ou ficção pouco importa. O causo é ótimo principalmente pq vc é um narrador e tanto.
Parabéns e saudações.
Bj

Ize · Rio de Janeiro, RJ 11/1/2008 23:23
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Branca Pires
 

Olá, vim conferir de perto oteu chamado: machismo ou covardia?"
Pode ser as duas coisas. Por pura precaução, rs.
Gostei muito do jeito bem humarado que narrou. Real o fictício, é uma bela história.
abçs

Branca Pires · Aracaju, SE 12/1/2008 03:28
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AZnº 666
 

Aos que leram, ou que ainda vão ler, a história é verdadeira, e eu fiquei muito mal perante minha ex, por não ter feito nada, sendo eu professor de Arte Marcial. Ela não conseguia entender, mesmo conhecendo a Lei de Muricy, porque não a defendi. Ali eu dei um grande passo, para o início do fim de nosso relacionamento.
Esta história é parte de uma seleção que se chamaria:
Verdadeiros Causos ou CAOSos Verdadeiros?
Já pensou, 6 histórias dessas juntas ia parecer mentira. Leiam a próxima e me darão razão!
Beijos de Leite

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 12/1/2008 12:54
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Cintia Thome
 

Boa estória, votada.
abç

Cintia Thome · São Paulo, SP 13/1/2008 15:54
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brigitte
 

Sergio, sem dúvida votado!
Abraços.

brigitte · Goiânia, GO 13/1/2008 19:49
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Maniefurt
 

Muito boa a história...votada com certeza. Quanto à pergunta, se foi covarde ou machista, talvez um pouco dos dois...ou quem sabe muito de nenhum? Tua mulher deve ter te achado um covarde, sem dúvida...mas já imaginou se tivesse realmente concretizado a tal briga que idealizou? (Acredito que o fato de ser professor de Artes Marciais só ajudou no fato "pacificador") Abraço

Maniefurt · Salvador, BA 13/1/2008 20:58
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azuirfilho
 

AZnº 666 · Rio de Janeiro (RJ)
Nem Machismo nem Covardia!
Foram as condicóes do momento que ditaram a definicáo para a situacáo enclusive com a sua concordáncia.
Escreve muito bem.
Tem muita facilidade de criar e de descrever estas situacóes que lhe tornaram popular como poeta e escritor.
Náo repare mas, meu micro náo tem til, cedilha e acentos.
Quando posso arrasto de onde tiver.
Um abraco Fraterno.
Reconheco seu merecimento com meu voto.

azuirfilho · Campinas, SP 14/1/2008 13:01
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poty
 

Bom dia Leiteiro, bastante interessate o conto. Existe no entanto muitas nuances. Para mim, pessoalmente, ao mesmo tempo intrigante e invasivo. Por outro lado, são histórias que eu não saberia de outra forma. Um feliz 2008 e realmente, o texto é muito bom, só ficou devendo a terceira ida a santa com o Lua. bjs.

poty · Rio de Janeiro, RJ 17/1/2008 12:43
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AZnº 666
 

Oi Poty!
Éporque a história é pequena, ja que pediste, aí vai: O Lua Rasta foi o 1º que conheço a trabalhar com meninos de rua, sem ser uma entidade oficial. Ajuntou uns 8 na Cinêlandia e levou pra casa em Santa, e danou a ensinar percussão, músicas, Capoeira e folclore. Não sei quantos dias fora, mas não demorou,
ele precisou sair e deixou os moleques na casa em confiança. Havia um de uns 15-17 anos. Levaram tudo dele, aí ele abandonou os moleques lá na Cinelândia. Quando a gente chegava, tempos depois, pra fazer Roda de Capoeira na Cine, os moleques encostavam e roubavam os espectadores, não sei se por vingança.
Roubaram tanto que a polícia nos proibiu de fazer Roda, achando que nós armava-mos para eles. A Sra. tem o mesmo nome de minha filha, e até parece um pouco, confira:
http://www.overmundo.com.br/banco/pequenas-historias-pequenas-licoes-porcaria-de-azn-8
Coloque um recado no meu Perfil para que eu receba teu email, posso lhe mandar mais histórias!
Beijos de Leite

AZnº 666 · Rio de Janeiro, RJ 17/1/2008 13:20
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raphaelreys
 

Caro vermelho 666! Votei na sua história, por aqui temos a Casa do Tambor, com muitos meninos e meninas. A temática de percursão foi dada pelo mestre Mauricio Tizumba! E o projeto é da TIM e parceiros.

raphaelreys · Montes Claros, MG 21/1/2008 07:16
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