O dia chegou chuvoso.
A taberna onde Manoel Cascudo costumava prosear acordou molhada, com as horas se espreguiçando na parede durante toda a manhã.
Pela vidraça úmida os olhos do balcão seguiam, em silêncio, guarda-chuvas que singravam buliçosos o curso da calçada. Os de Manoel corriam pelas mesas solitárias à caça implacável do jornal do dia que um menino encharcado atirara pela janela.
Manoel aparentava estirpe nobre, era bem-falante e apessoado, mas quase um miserável, sem emprego fixo e de mal com a sorte. Morava por aí. Costumava ganhar tablóides lidos dos fregueses que invariavelmente também lhe pagavam uma xícara de pingado. Mas naquele dia de nuvens negras, nenhuma branca alma havia para lhe aplacar a vontade que estava de esquentar as tripas, conquanto a chuva deixara o dono do Café com cara de poucos amigos.
O jeito foi sair com o jornal na cabeça e a chuva na calça de mescla azul em direção à praça, para onde o relógio o empurrava célere, na ânsia de cumprir o combinado das nove horas. Ali, num banco de cimento, entre gotas de água e de letras, encarou vento frio e soletrava as quentes do jornal com o olho morno na rua. Incontinenti, uma freada brusca de pneus lhe arrancou de susto o tablóide do rosto ensopado, e do carro de luxo desceram dois saltos altos de andar atraente, que estancaram diante do par de alparcatas, com ar de interrogação e dilúvio:
– Manoel?!
– Maria?!
A pororoca foi inevitável. Os corpos molhados se encontraram bravios. O jornal, indefeso, quedou carregado pelo vento insano, decompondo-se na água morta do chão. Mãos se procuravam, perdidas de desejo, e braços se encontravam em redemoinho. Lábios colidiam ofegantes sob trovoadas de corações em chama. A rua espreitava tudo. Olhos masculinos se atiravam feito boto nas ondas sedutoras do vestido molhado; os femininos, de través, desdenhavam a fusão ardente. As águas que despencavam forte eram figurantes celestes daquele inusitado encontro, até que os dois mergulharam exaustos no carro que esqueceu a praça.
No último domingo de verão um chofer engravatado estacionou na porta da Matriz e o casal deixou a igreja com os convidados em festa. Logo, o choro de um menino avisou que a primavera enchia de felicidade o lar de Manoel e Maria. O destino havia cumprido sua tarefa, de tal forma que o macaréu se fazia permanente naquele rio-mar de paixão.
Maria das Dores, formosa e delicada, tinha fartura nos lábios, a cor do entardecer e olhos e cabelos da noite. Era órfã e herdeira de invejável seringal amazonense. Aquele era o primeiro homem da sua vida e com quem dividia o coração e a lida empresarial que se ampliava pela crescente produção de borracha, sorva e castanha-do-pará.
Manoel Cascudo nunca mais reclamou da sorte. Casara-se com a fortuna e a beleza. Sua vida mudara completamente. Apenas tornava-se áspero no trato com a esposa quando ela, aos dengos, lhe cobrava palavras poéticas e românticas. Maria sentia falta das doces mensagens de amor que outrora lhe traziam os misteriosos bilhetes perfumados do seu “Admirador Secreto” Manoel.
Certa feita, ele encontrou, às escondidas, os bilhetes apaixonados que ela guardava como relíquia no fundo de um baú de aviamentos. Também comprou no Regatão o mesmo perfume que embebia as mensagens. Para ele foi a chave do problema: quando ela soltava os cabelos e ficava com cara de pororoca, ele recorria à fragrância e às palavras dos tais bilhetes, repetindo-as, ainda que um tanto quanto prosaico. Assim, o romantismo voltava a reinar, o amor entrava em redemoinho e Maria se amoldava febril em seus braços (Continua no arquivo anexo)
Salve, Frazão!
Conto de prima. Personagens da vida real.
Gostei imensamente do texto. E parabéns pela preimação.
Abçs. Benny
Acabei de ler um conto de pimeira qualidade, riquíssimo em detalhes.
Muito bom, parabéns!
Abraços.
Professor,
O amor, é o amor. O amor é belo, porque é misterioso; se nada é eterno o estado e o estágio do amor são mutantes, lindos contrafeitos. Mas o amor contado por voce fica mais misterioso, mutante, bonito, um abraço, andre.
Benny, um dos personagens da vida real é o prórpio folclorista potiguar Luiz da Câmara Cascudo, disfarçado de Manoel. Obrigado.
Clara, ganhei uma inteligente leitora na cidade morena. Obrigado pela sua leitura e comentário, professora.
André, a ilusão é perigosa porque não tem defeito. Daí o perigo do amor naufragar. Obrigado, irmão.
P.S.: Minha filha, a Cecília - que tirou essa foto e fez o desenho do casal (pela metade) insiste para eu dizer que o vestido azul e a calça bege saíram com as cores invertidas: conforme o texto, a calça de Manoel é de mescla azul. Porém, o mais importante na leitura (visualização) de Cecília é que o desenho representa o encontro de Manoel e Maria, mas, sobretudo, o encontro das águas - a pororoca.
abrs.
Frazão que prazer!
O conto é muito interessante, envolvente e para o meu deleite se passa pelas bandas de cá, no Pará. Maravilha!
Parabéns e um grande abraço marajoara.
Frazão, que primor e que prazer foi ler este texto maravilhoso, rico em detalhe. Não sei se foi sexto sentido, mas, quando li o nome da personagem masculina Manoel Cascudo, eu lebrei do nosso grande Câmara Cascudo e no seu recado vc fala isso mesmo. Legal, PARABÉNS, PARABÉNS.
Elizete
Que conto Bonito, Manoel e Maria (nomes de meus avós), mas que encanto , a lida do amor não é tão fácil, mas adorei Frazão tamanha "boniteza" parabéns pelo prêmio que foi merecido. abçs.
A imagem feita por sua filha é muito 10. abç
Frazão, maravilhoso conto!
As descrições dos personagens femininos são verdadeiros poemas.
E este encontro na praça, meu Deus! é arrebatador.
Senti os cheiros e as cores, como se estivesse dentro da história.
Belo, belo, voltarei para o voto.
beijos
My Brother,
Fantástica a tua narrativa... capaz de prener a atenação do leitor desde o início. Pergunto se vc já viveu na Amazônia pois só com a imaginação seria muito difícil descrever com tamanha familiaridade cenas e personagens do teu conto. Mais do que justo o justo prêmio recebido.
Parabéns
Abraços.
Eita!
Coisa mais di linda a narrativa e a própria história recriada. De gente e personagens mais que humanas. Iguaizinhas às várias que conhecemos de todo o dia e que nunca se revelam.
Secreto, gostos, maravilhoso e cheiroso de lindo e belo, Frazão.
Beijin.
Com racional naturalidade, eu já afirmei que J. P. Frazão é um dos melhores contistas e prosadores do nosso país.
Este premiado conto, que também foi destaque no Jornal do Brasil, é uma das provas desta minha afirmação. Para visualizá-lo em outra edição (da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras) é só clicar no link abaixo:
http://www.acletrasms.com.br/materia.asp?ID=70
Fraterno abraço.
meu lado rondoniense diria: ichi, esse texto é bom ó! mas meu lado carioca fala mais alto e diz: bom p kct, mandou bem!!!
jujuba melo · Porto Velho, RO 5/10/2007 17:43
Lígia, obrigado.
Não sei se sou boto ou arigó, mas conheci pororocas, açaí, cupuaçu, tacacá e bebi água de rio na cuia, para inventar essa história que deu certo.
Elizete, Cíntia e Saramar – Batizei Manoel de Cascudo apenas para homenagear o folclorista, que teve vida bem diferente. Mas poderia, em vez de Maria, chamar a bela seringalista de Elizete, Cíntia ou Saramar... Já pensou que pororoca!
bjs
Agenor – Vivi sim no Amazonas: Nasci em Belém, morei em Manaus e depois em Porto Velho (onde estudei), antes de virar baguá pantaneiro.
abrs
Juli – Que bom vc, nos pampas, ter gostado de uma invenção literária dum arigó. Obrigado.
Rubenio – Como bem diz o nosso poeta Fernando Cunha Lima: “Agora to lascado, com tantos adjetivos” rss
Mas vc sabe, amigo, que precisamos de um pouco de sorte em tudo, pois são tantos artistas e escritores de grande gabarito (muito acima do meu) que não têm oportunidade.
abrs
Jujuba.
Rapá, valeu o teu comentário, muito “pai d’égua” - como diz o rondoniense da gema...
Bravo Frazão, conto serenissimo, coisa de primeira agua.Voce já tem um voto.
abraços
do julio rodrigues correia
FRAZAO,
lindo conto, moderno, sedutor, apaixonante...!
Abçs de Betha.
Frazão, amigo, cumprimenta por mim a Cecília pela pororoca que só percebi assim em razão de teu comentário.
Depois da pista que destes do encontro das águas estar na figura do encontro das almas, não consigo deixar de perceber, embora nunca tenha assistido à pororoca, sei de ver em tela e de comentários que exatamente é o que está no desenho, não só o claro e o escuro, mas o azul e o bege.
E tendo lido o inteiro teor, louvo a escrita e parabenizo o escriba, que o tema é difícil de abordar, proque recorrente, mas o fizeste com uma flama que nos deu uma vez ou duas até pena da dama e mesmo do que engana, que enganado foi e foi-se.
Belo texto de afirmação, também do regional, peculiar e universal porque bonito e expressivo.
Parabéns também pelos prêmios merecidos!
Frazão, achei muito interessante essa idéia de batizar a moça com nossos nomes (risos).
Voltei para votar.
beijos
Muito Bom é pouco. É fantástico. Um texto tão refinado e com tantos elementos da nossa região é difícil de ser encontrado. Parabéns.
Meu caro Frazão, realmente o este conta é maravilhoso. Soa bem como as coisas da amazônia rondoniense. Valeu o prêmio. Abr. Ignis.
ignis liberati · Porto Velho, RO 9/10/2007 23:00
Olá Frazão...!!
Gostei muito do livro que vc me enviou...
Abraços
uma coisa é certa, irei incluir nas minhas aulas de leitura e literatura aos meus alunos, parabéns...
medhusas · Rondon do Pará, PA 9/6/2008 23:35Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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