Quando te deste conta, descias correndo as escadas em caracol. Gritavas. Ou será que não? Não, não gritavas. Pelo menos não era audível o grito que te consumia. Teu coração doía de tão forte que batia. Teu corpo pulsava. Teu cérebro não registrava teus passos. Não sentias teus pés tocarem o chão. Mesmo quando caísses e rolasses por um lance inteiro de escadas, não sentisses nada. Levantasses, quase que tranquilamente, como quem levanta da cama e vai caminhando para escovar os dentes.
Ao caminhar, a sequência de imagens, de acontecimentos, retornava a tua mente. Então era necessário correr novamente. Era necessário distanciar-se daquele momento, daquelas ações, distanciar-se de tudo. Como um copo de água sob uma goteira, que não para de pingar nunca, assim era teu cérebro. Às vezes transborda e precisa ser esvaziado. Às vezes recupera a consciência e precisa ser calado. Às vezes afoga-se de ódio. Às vezes afunda-se de pavor. Teu cérebro é, às vezes.
Meu corpo está morrendo. A cada palavra, o meu corpo está morrendo.
(Caio Fernando Abreu - O mar mais longe que vejo.)
Assim que, não havia outra alternativa, a não ser correr. Talvez houvesse outra alternativa. Talvez as coisas não fossem exatamente como tu imaginavas. Talvez. Mas a verdade, uma delas pelo menos, era que estavas te afogando. Estava com teu cérebro transbordando. Teu cérebro debaixo daquela maldita torneira que não parava de pingar nunca. Uma água suja. De sangue. De algo que havia sido feito e não poderia ser consertado.
Existem crimes que não têm conserto. Existem ações que não são passíveis de reparação. Existem quedas que não deixam a possibilidade de levantar-se. Existem torneiras que te perseguem, não importa onde você esteja. Elas pingam e afogam teu cérebro. E então, quando pensas que estas chorando, não é verdade. É a água suja da maldita torneira que está escorrendo pelos teus olhos. É a maldita água suja de sangue da torneira que enche tua boca e dificulta tua respiração. Então, tu corres, na tentativa de fugir da torneira. Na tentativa de escapar de teus atos. Na tentativa de recuperar algo que vês sendo engolido pela água.
Um dia, tu olhas para trás e vês. Claro, como uma fotografia. Tua infância afundando. Teus dias afundando. Tu, afundando. Então tu gritas. Ou será que não? Não, não gritas. Pelo menos não era audível o grito que tu soltas. Tu esticas o braço e estendes a mão para aquele guri que te olha de lá. Da tua infância. Tu dizes, ou pensas que dizes, "Vem comigo".
Então o guri te olha e corre. Na direção do mar. E tu, sem pensar, corres também. Quando te deste conta, descias correndo as escadas em caracol. Gritavas. Ou será que não? Não, não gritavas. Pelo menos não era audível o grito que te consumia.
Max,
Bela alusão ao Caio, aliás têm muitos dos seus escritos que se assemelham a umas fases dele. Impressionante como consegues prender o leitor por meio do fantástico e da maneira de se enrolar em caracol, como a escada que descia e gritava, mas um grito mudo.
Parabéns
abraços
Cristiano!!!
Brigadão querido...Você, como sempre, vai no ponto certo da questão!
Devemos ter algum sincronismo de idéias...
Quando vc vem pra SC mesmo??? rsss
Precisamos conversar!
Abraço
Max, se formos conversar e/ou começar a escrever juntos, vamos matar tudo que é personagem e ninguém vai entender bulhufas...
Mas tudo bem, podemos tentar escrever algo, já pensou? Vai ser um corre-corre danado
Vamos lá Cristiano... imprimir um pouco mais de sangue e nonsense a virtualidade!!!
Eu topo!!!!
Gostei do texto, Max.
Parabéns.
votado. abraço.
Cara ,
Que beleza de texto , fiz uma ótima leitura , to levando seu excelente trabalho para o Banco . Abraços...
Opa!
Obrigadçao Gabriel e Delen pelos votos!!!!
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