Lauro winck
Beiço levantou ainda meio zonzo depois de mais uma daquelas bebedeiras em que saía de quatro pés do bar e nem imaginava como viera parar em casa. Não gostava do apelido, mas o que fazer, era beiçudo mesmo. Dirigiu-se ao banheiro, mas, não conseguiu abrir a porta. – Diabo! Minha mão atravessa a porta? Será que ainda estou bêbado? Que horas são? Nossa! Dormi pra caramba. A peste da Marilda ronca que nem uma porca e nem me viu levantar. Porra! Tem um cara dormindo do lado dela! Será que a desgraçada me traiu na minha cama ao meu lado? E eu tava tão bêbado que não vi? Ta bem, vou aproveitar pra me mandar. Já estou mesmo cheio dela. Tentou acender o fogão pra tomar um café, mas, que nada. – Droga! Que diabo! Será que eu morri? Vai ver que é isso! Bem! Quem mandou beber tanto? Até não é ruim, deixa ver, estou inteiro, é isso! Estou morto! Livre da Marilda pra sempre. Há! Então o cara do lado dela, era... Eu mesmo? Bem melhor assim, depois não vão dizer, lá vai a viúva do beiço corno. Legal, essa de morrer, não tem mais que pagar conta! Puxa quase hora do jogo. Será que dá pra ver? Claro, defunto não paga entrada. Pegar o ônibus? Pera aí dizem que defunto voa. Legal! Funciona, lá vou eu. Nossa que legal acima das nuvens. Lá está o estádio, puxa! Ta lotado. Vou direto pro camarote da diretoria. Dali a gente vê melhor. Legal! Chamam isso de camarote? Droga! Onde fica o banheiro? Mas. pra que banheiro? Ninguém ta vendo, vou mijar naquele vaso de folhagem. – Moço! Não pode fazer isso aí! – Hei! Se você ta falando comigo, deve estar morto também. – Claro, vim te ajudar. – A mijar? – Não! Você morreu, precisa de ajuda. – Há! Você tem um cigarro? – Não! Aqui não pode fumar. – Pera aí! Se nós estamos mortos, ninguém vai ver a gente fumar. – Não é isso! Aqui onde estamos é proibido fumar. – Aqui também? Aqui não é o céu? – Não! O céu é dos católicos eu sou budista. – Bundista? O que é isso? – Não cara, B-u-d-i-s-t-a, sem “n”, outra religião. – Há! Sei, foi caco de linguagem, fique sabendo que na escola eu ganhava nota “O”. – Aquilo não era “O” era “zero”. – Mas e daí? Que se danem eu quero um crivo. - Não pode, é proibido. – E quem proíbe? Olha cara, se eu to morto, ninguém mais pode me fazer mal.Certo? Então! Não posso mais morrer, já morri. – Mas você pode ser castigado pela sua consciência. – E eu lá sei o que é isso? Onde fica? Na cuca ou no...? Olha! To nem aí! Já se viu, lá não pode. Fumante lá virou discriminado aí chega aqui e também é discriminado. Aqui não é o tal paraíso? Quem afinal manda nesse barraco? Onde ta o Deus, quero falar com ele. – Não pode, precisa de autorização. – Há! Aqui também tem essa babaquice de burocracia? Será que a fila é muito grande? – Bastante! - Puxa! Isso aqui é muito chato. – Tem 10 mangos pra me emprestar? – Aqui não tem dinheiro! Não tem essas coisas mundanas. - Ta! Não vai me dizer que aqui tem político também! – Não! Isso ainda não tem. Você já viu político onde não há dinheiro? Há! Pelo menos isso. Hei! Mulher tem? – Claro! – Digo daquelas, sabe como é? - Sei! Mas aqui não tem isso. Quer saber? Tchau, vou voltar lá pra casa pensar pra onde vou. Droga o jogo terminou e nem vi o resultado. Fiquei dando papo pra esse chato. Bem sempre posso agora ler o jornal de graça. Deve ter um lugar por aqui onde a gente possa fumar e tomar uns tragos. Beiço desiludido com as regras do outro lado resolveu voltar pra sua casa. – Aquele chato não deve saber onde eu moro. Que se dane! Chegando em casa, sentou-se a mesa e sem se dar conta estava fumando. – Legal! É só ficar longe dos chatos que a gente consegue. Quem sabe um traguinho pra acompanhar? Legal, funcionou de novo. – Beiço! Seu bêbado imundo! Onde está você? – Chii! É a chata da Marilda! – Seu imundo! Você mijou na gaveta da cômoda que estava aberta, vai limpar Já! – Hei! Se ela ta falando comigo, significa que... Que... Ela também ta morta? Não! Deus não pode ser tão mau assim! Era sorte de mais, me livrar da gorda de uma vez e agora ela ta aqui também pra me azucrinar a vida. Não! Na vida já me azucrinou que chegue e agora na morte também? Olha! Não sei pra onde eu vou, mas quer saber? Fui!
As vezes é complicado decidir se você está morto ou vivo, principalmante para o Beiço.
Ajudem o Beiço a decidir se afinal está morto? Ou vivo.
LAURO WINCK · Rio Pardo, RS 12/9/2009 09:46um texto magnífico amigo, abraçosssss
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 12/9/2009 10:29
LAURO WINCK · Rio Pardo (RS) ·
Agruras de um fantasma
Uma situação fantasmagórica, beiço aprontando todas e Marilda pegando no seu Pé toirando o romantismo de todas peripécias e aventuras. Como se estivesse vendo fantasmas.
Parabéns.
Abração Amigo.
O negócio é hilário e o pobre do Beiço sofre com a Marilda dele, mas... Cada qual colhe aquilo que plantou, fazer o quê?
Muito bom, como os outros, e estamos esperand o seu livro, pense nisso.
kfarias.
Não há nada pior do que voltar da Morte, maldito 'corredor', hehehe, brinca com isso, não Hómi !
Um beijo !
Leitura insuperável, até esqueci do espaço, intergalático ( num me enrola ! )
Por enquanto, o que me parece é que o Beiço teve um puta pesadelo...
A Marilda pode ser chata, mas já pensou, suportar um bêbado imundo na cama? A morte seria um alívio para oos dois...
Adelante!!!
votado
Beijos
É o famoso estado intermediário de consciência!
raphaelreys · Montes Claros, MG 14/9/2009 08:13
Meu amigo escritor Lauro que imaginação!
Acho que o Beiço está pra lá de Bagdá que já nem sabe quem é ou o que quer...
Está tão 'chapado' que prefere até mesmo estar morto a segurar as pontas do pós bebedeira.
Ele está é muito vivo e vem aí muita dor de cabeça. Em todos os sentidos...
Muito divertido o seu texto.
Bjos
Patty
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