ÁGUA DE MORINGA

andrea dutra
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andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ
15/7/2008 · 88 · 5
 

Coloquei os lábios ao redor do bico do apito de cerâmica em forma de galinha, que quando é soprado cheio d’água, soa como o trinado de um pássaro. Mágica. Enchi o apito de água, encostei-o nos lábios, e soprei, querendo ouvir novamente o som que ouvi na pracinha de Tiradentes, no dia em que comprei minha moringa, um domingo ardido de sol. Meus lábios úmidos grudaram naquela cerâmica fria, porosa, seca. Delicadamente fui descolando a pele fina, da boca, daquela aspereza desértica do barro cozido e rústico, sem acabamento, sem verniz. Puxei o lábio com cuidado, muito lentamente, pra não romper a pele da boca. Desgrudei com sucesso o lábio inferior, e depois o superior, e mergulhei com pressa o apito inteiro dentro de um pote cheio de água. Ele borbulhava, sorvia a água, mudava de cor, fazendo uma musiquinha peculiar, parecida também com canários piando. Deixei o pássaro submerso e fui me ocupar da moringa.

Vinha de viagem, encantada com as maravilhas do barro cozido, recipientes, potes, panelas, apitos. Mãos moldando o barro, um deus moldando o homem, a ciranda da criação, de mão em mão.

Sempre quis Ter uma moringa na minha mesinha de cabeceira. Pra olhar pra ela, por anos e anos a fio e pensar: envelheci. Envelhecemos. Ter uma moringa na cabeceira é coisa de gente velha.

Por hora, quero minha água com jeito de sombra, apesar do verão tórrido que se anuncia, e a moringa cheia de sombra e água fresca na minha cabeceira.

Penso em varandas por sobre um gramado em leve declive, com uma ou duas árvores frondosas, um pneu pendurado por uma corda, fazendo as vezes de balanço em uma delas; e um banco troncho de madeira, na sombra generosa da outra, onde se desejava mesmo uma cadeira de balanço pra Pixinguinha, pra Clementina, pra Villa-lobos, pra montar uma mesa e colocar uma jarra de limonada muito gelada, de suco de pitanga, e um prato cheio de laranjas bem madurinhas pra se chupar cuspindo os caroços, em algum alvo no meio do mato. E ver a brisa fraca da tarde quente soprando, de vez em quando, as pontinhas das folhas. Os galhos imóveis, a superfície do lago sem marolas, os peixes de boca aberta, as abelhas abelhando, as jabuticabas jabuticabando, e o cachorro.

Mesa na sombra, sobre a qual se coloca uma moringa cheia, de onde se serve um copo de água pra tomar pensando. A moringa, quando está seca, precisa ser preenchida de água, como se ela mesma estivesse sedenta, daquela primeira sede, plena da mesma secura que me grudou os lábios no apito. Quando se enche uma moringa de água pela primeira vez, ela canta. O canto da moringa é um dobrado delicado, que soa a ondas do mar, a uma revoada de pássaros por sobre as nossas cabeças, e a respiração. A moringa também morre de sede.

Até agora guardo nos lábios a secura do barro. Tomo um gole d’água e penso, precoce: É... O tempo... Passou...

Sobre a obra

secos e molhados

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Autoria
andrea dutra, cantora e jornalista
www.andreadutra.com.br
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MarcilioMedeiros
 

Andrea,
Gostoso de ler seu texto.
Bjs,

MarcilioMedeiros · Aracaju, SE 15/7/2008 01:18
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andrea dutra
 

;) valeu, marcilio

andrea dutra · Rio de Janeiro, RJ 15/7/2008 02:11
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Fabrício Costa
 

Que leitura gostosa, agradável. Lembrei da época que morava na roça, seu texto faz sentir o gosto da terra, o cheiro do mato, a paisagem dos grotões tão belos e conhecidos por poucos. Parabéns! Votada.

Fabrício Costa · Vitória, ES 15/7/2008 09:53
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Bethânia Zanatta
 

obrigada pela calma trasmitida no teu bonito texto.
abraço.

Bethânia Zanatta · Santa Maria, RS 15/7/2008 12:16
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Vincius Becker
 

maravilhoso."daquela aspereza desértica do barro cozido e rústico, sem acabamento, sem verniz" que lindo isso. votei.

Vincius Becker · São Paulo, SP 15/7/2008 14:37
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