AIMBERÊ NO RIO DO SÉCULO XXI
Aimberê desceu no Rio do século XXI direto de uma nave espacial, e não me perguntem como isso aconteceu que nesses tempos high tech tudo é possível, até apagão aéreo (dão sorte, pois o referido acontece no chão – já pensou o piloto dizendo: “senhoras e senhores, apagão aéreo a 10 mil pés de galinha. Vamos direto para o chão, com a sorte dos 154 coitados!” seria muito pior –, mas ainda assim reclamam!). Bom, mas cadê o Aimberê? Ah! Tá ali, comprando um terno Armani, que andar nu por esse Rio, oitava maravilha do mundo, dá cana e é mais perigoso que bala perdida.
Orou rapidamente no calçadão de Copacabana com sol a pino pra Tupã, para que protegesse os seus e a si mesmo. Mas aquele homem alto, acentuada cara de tamoio, uma gravata Gucci no pescoço e várias outras com desenhos de palmeiras no bolso, compradas em Miami (ele não toma remédios tarja-preta automedicados, e por isso não tem ‘transtorno inexplicável’). Mas chamou atenção de muitos canais de tv e jornais, ávidos em surrupiar audiência umas às outras e meter goela abaixo dos leitores um medo de que perdidos somos nós, pois a bala é certa! Foi rodeado pelos senhores da mídia. Sua primeira reação, pois não sabia do que se tratava foi dizer: “não surrupiei nenhuma gravata! Isso aqui foi escambo com mairs e perós” E iam eles entender patavinas do que o chefe tamoio falava? Eles para o morubixaba: “Quem é o senhor?” E não é que ele entendeu o português? “Eu sou Aimberê, morubixaba tamoio, dono de tudo isso aqui. Pindorama me pertence!” Os repórteres riram em sua cara, como ele não entendeu por que, riu também. Passaram meia hora rindo (o chefe de edição faria os cortes). Depois sério e temeroso, ele perguntou: “Cadê os perós? Há portugueses por aqui?” A laia de repórteres falou: “Só o Manoel da padaria, ali na esquina. Mas não se incomode, ele é vascaíno e agora anda mais preocupado em saber em quem o Romário fará o milésimo gol”. Despreocupou-se: a rivalidade perós/tupiniquins x mairs/tupinambás era tão antiga quanto o hábito de traficar nessa terra: o primeiro foi com o pau-brasil. Atualmente, a grande moda é o tráfico político.
Aimberê andou pela rua e a chusma atrás. Deu uma volta pela Lagoa Sacopenapan ou Piraguá (Rodrigo de Freitas) e espantou-se com os espigões por ali. Gritou, chorando: “Salema! Salema!” Os repórteres repetiram o nome, achando que era um grito de guerra, não sabiam que esconjurava o mouro Antônio de Salema, governador do Rio naqueles tempos de cobiça que, para surrupiar as terras aos tamoios em volta da lagoa, distribuiu pela sua orla roupas de etiqueta que os desavisados tamoios vestiram. Morreram todos de varíola, pois as roupas eram de defuntos vitimados pela doença. E Salema, o mouro, esperto que era, pôde construir seu engenho de cana ali, que naquele tempo isso dava mais dinheiro que o tráfico de drogas. Nascia então no Novo Mundo técnicas avançadas de combate e extermínio em massa: a temida guerra bacteriológica, melhor que mil tiros de arcabuz.
Antes de correr ao morro Cara de Cão para dar um soco no focinho de Salema, vociferou contra o carrasco português: “Se te pego, te mato; te mando algumas flores e depois escapo!”, fazendo uso do refrão de uma antiga ária do cantor Sidnei Mingal muito em voga em seu tempo. Mas qual, Salema não estava mais lá desde há muito, a cidade havia sido transferida por Men de Sá após a morte de Estácio no Carnaval por overdose de coca (nunca gostou do sabor adocicado da pepsi), para o morro do Castelo.
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confesso que não baixei o arquivo.( mas que ele merece ser baixado.)
excelente crônica!!!
abços,
Obrigado, Marcos. Essa crônica surgiu da pesquisa que estou fazendo para um romance cujo nome será "IPEROIG - O fim da primeira nação pindorama na era da invasão portuguesa". Tratará sobe a Confederação dos Tamoios, movimento que rebelou os tupinambás contra a exploração e escravização portuguesas para colonização e trabalho nos engenhos de açúcar no litoral sudeste brasileiro. É um momento belíssimo e cruel de nossa história, sobre o qual pouco lançamos os olhos. Se houver condição e competência pretende um romance que misture ficção e história. Uma empresa difícil à qual já comecei a me dedicar. Entre pesquisas na internet sobre o período e aquisição de livros, vou compondo a bibliografia para estudo. Han Staden, arcabuzeiro alemão, escreveu à época um livro importantíssimo sobre os tupinambás e a sua convivência com eles por mais de ano, considerado fundamenal no estudo da etnografia sul-americana: Duas Viagens ao Brasil. Tb já adquiri A Guerra dos Tamoios e Tratado Descritivo do Brasil em 1587, de Jean de Lery, As singularidades da França Antártica, de André Thevet e
História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão, de
de Claude D'abbeville. Espero chegar lá.
O meu artigo no Overblog: http://www.overmundo.com.br/overblog/onde-estao-os-nossos-grandes-escritores é tópico relacionado a esse assunto.
abcs
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jjLeandro
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Ótima crônica, mestre Leandro!
E essa fotografia aí... muito bonita paisagem!
Grande abraço!
Rapáz ! esta cônica, tá arretada de gostosa. É uma verdadeira aula de história do Brasil. temperada com humor e crítica do momento atual. A vizsão aéria focada também é maravilhosa.
Parabéns Leandro e meus abraços.
Carlos Magno
Leandro, excelente a sua crônica.
A beleza inquestionável da imagem reforça a dualidade do olhar: o nosso, marcado pelo tributo à modernidade, manifesto na contemplação das formas arquitetônicas - orgulho da geração presente; o do indígena, olhar original - revelador da prova do extermínio de uma sociedade, exploração, usurpação do que lhe era precioso e de direito. Brilhantemente você aproximou as duas extremidades da linha temporal da história e nos faz pensar que nao temos olhos para irmos mais além das "bizarrices" que ocupam nossos dias. Nada como um depoimento deste para tirar-nos dessa amnésia histórica. Com leveza e humor e profundidade você mandou o seu recado.
A sua pesquisa está fantástica. Já estou ansiosa pela conclusão do seu romance. Avise-nos o lançamento.
Parabéns!
OLá,Edna. Muito obrigado pelas suas palavras e pela sua interpretação. Tão lúcida e perfeita que cheguei a assustar-me se deveras havia escrito isso tudo. De fato, o livro é projeto ao qual me estou dedicando e espero concluir em pelo menos um ano e meio, pois requer muita pesquisa para que o cenário, os diálogos e a própria história sejam críveis.
Um grande abraço.
Como estarei sempre por aqui, claro que quando concluir avisarei a overcomunidade.
abcs
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jjLeandro.
Seu texto é mesmo incrível. Existe riqueza em cada cena. Dentre tantas, gostei do papel da imprensa, dos 'senhores da mídia'. O pior é que muitos dos formadores de opinião chegam a ser patéticos.
Vou parando por aqui, porque se não me empolgo. O texto já fala por si. A pesquisa será intensa, mas com certeza será um sucesso. A prova você nos deu.
abraços
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