AINDA OS ANOS DOURADOS
“Houve um tempo em que dizia-se que o mundo era dividido entre os que amavam os Beatles e os que amavam os Rolling Stones” –
Patrícia Cosede
O sonho ainda existia, a galera sintonizava nas rádios piratas com o seu Disk Jockey, Rodrigo Lucas, dirigia Dreyfus e as meninas eram dondocas. Um francês argelino dono de um restaurante em Niterói matava Kennedy a serviço do FBI e da máfia, havia a fracassada guerra do Vietnã com soldados sendo drogados para agüentarem o tranco da guerrilha.
Aqui no Brasil, a CIA implantava o AI5 e Beto Guedes ainda garoto usava camiseta de vidrilhos e soltava papagaios na Praça da Catedral, no centro dos Montes Claros. O glamour era as moças usarem sapato salto plataforma alta e roqueiros pintavam o rosto ao bom estilo dos Mutantes e de Alice Cooper.
Apareciam as saias calças e os rapazes sarados eram chamados de Pães e as meninas de geração Pão com Cocada ou Doce de Leite... Tudo era bacana, bárbaro. O sexo deixava de ser entrepernas e a rapaziada aprendia Kama-Sutra tupiniquim e sacanagem com as revistas mimeografadas de Carlos Zéfiro.
Rapazes com cintos de couro com fivela de prata ou de alpaca estilo cowboy e tomavam Urupol para limpar a bexiga após curarem a blenorragia tropical. O sonho ainda não havia acabado e aqui nos Montes Claros dançavam bolero no lupanar de Roxa sob as luzes do abajur lilás. Sob o manto da luxúria havia as tardes de bolero na boate de Leobina e dançávamos o Sirtaki na praça do Restaurante Redondo.
As histórias de Bolão, Reco Reco e Azeitona. Os almanaques e a figura feminista de Luluzinha. A revista Amiguinho e a Cine fã. As investigações metropolitanas e o clima de urbanidade de Shell Scott e da Filmelândia. A Revista do Rádio, os quadrinhos da Disney o Pererê de Ziraldo e as fotonovelas de Você.
A Revista Alterosa, o Grande Hotel com as novelas quadrinizadas e os modelos de roupas extraídos da Revista Glamour. Os leques importados do oriente com os quais as senhoras se abanavam nas reuniões de fim de tarde nos clubes de serviço, tomando chá com torradas e usando blusas Ban Lon, Buclê e broche coco-e-ouro (esses herdados da avó).
Mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades e as moças não usavam mais laquê para armar a Touca Holandesa no cabelo e quando se apaixonavam, dançavam ouvindo Billy Vaughan e se deliciavam pensando ser Andrey Hepburn, tendo como fundo a trilha de Moon River. Saias de mini e micro, longuetes, midis e Lewis Straus.
Meias arrastão, bota de cano alto. A homossexualidade deixava de ser crime na terra da Rainha Elizabete. As coisas eram IN ou OUT e algumas calças jeans eram usados escargaçadas.
Elas se encantavam quando viam Try Donahue. Usavam calça boca de sino e suspiravam com a Jovem Guarda. Logo trocavam o modelo pela calça Saint Tropez de Brigitte Bardot e assistiam ao filme. Tempos em que a bala que matou Kennedy foi preparada em um restaurante de Niterói, que pertencia à máfia de Marselha.
Amantes e apaixonados escutavam Dio Como Te Amo e Roberta. Veio o movimento psicodélico e os mantras da Hare Krisnha Temple. Crescia o artesanato hippie, aparecia Gal Costa e o Beautiful People e os Beatles cantavam Baby You Are Rich Moon e todo mundo assistia Hair. Os meninos viraram bicho e estava todo mundo louco, oba!
Betânia cantava Carcará, o atual ministro Gil ia em cana, Geraldo Vandré jogava violão na platéia e crescia o movimento Black is Beautiful. Havia Bob Dylan e Chico Buarque e o Festival de San Remo, com Roberto Carlos vitorioso com a música, Canzone Per Te:
La festa appena cominciata è giá finita / Il cielo non è piu com noi / Il nostro amore era l`invida di chi è solo / La mia richezza la tua allegria / Perché giurare Che sara l`ultima volta / Il cuore non ti crederà / Qualcumo ti darà la mano / E com um bacio um`altra storia nascerà / E tu, tu mi dirai / Che sei felice come non sei stata mai / E a um`altra io dirò / Lê cose Che dicevo a te / Ma oggi devo dire ti voglio bene / Per questo canto e canto te / La solitudene Che mi hai regalato / I ola coltivo como um fiore ////... Ma oggi devo dire Che ti voglio bene / Per questo canto e canto te / La solitudine Che tu mi hai regalato / I ola coltivo como um fiore / Ma oggi devo dire ti voglio bene.
Algumas cabeças de bagre cheiravam teracloretileno-etil (um vermífugo) e diziam que estavam doidos e flutuando...
Não mais havia as fitas de Roy Rogers de Roque Lane e nem o cavalo Silver do Zorro. Sarita Montiel e Miguel Acheves Mejia cantavam e usavam sombreros e disputava os palcos com Mário Moreno, o Cantinflas.
Fidel Castro fazia pose com o seu charuto Habana, após tacar fumo no general Batista e Che ganhava o mundo com sua foto de artista romântico. Os nossos militares treinados pelo exército norte americano tomavam o poder, por absoluta falta de que fazer nos quartéis.
Na época, escrevia o maravilhoso e corajoso Rubem Braga, que: militar não faz nada, mas começa cedo prá burro: às 7 da manhã estão todos lá...
A máfia tirava Kennedy e impunha Jonshon, um cego moral.
A rapaziada fumava cigarros Capri com filtro, tomava Cuba Libre, comia canapés e usava camisa McGregor abertas no sovaco. Os Condons não eram lubrificados e muito menos musicados. A tralha de pescaria era levada de Rural Willes. Ainda havia as garruchas Rabo de Égua, calibres 320 e 380. Dois tiros, uma pedrada e uma carreira!
As meninas assistiam ao filme O Mágico de Oz e cantavam a música tema:
Em algum lugar sobre o arco-íris/ Bem alto/ Existe uma terra sobre a qual eu ouvi/ Uma vez uma canção de ninar/ Em algum lugar sob o arco-íris/ Os céus são azuis/ E os sonhos que você se atreve a sonhar/ realmente se realizam/ Um dia eu farei um pedido a uma estrela/ E acordarei onde as nuvens estejam longe/ Detrás de mim/ Onde os problemas derretem como pastilhas de limão/ Longe, acima do topo das chaminés/ E lá que você me encontrará/ Em algum lugar sob o arco-íris/ Azulões voam/ pássaros voam por sobre o arco-íris/ Por que, então, ah por que não posso?/ Se felizes azulõezinhos voam/ Além do arco-íris/ Por que, ah por que não posso...
(crônica feita após troca de email e de reminiscências com a minha amiga Virgínia Abreu de Paula. Uma sessentona que ainda ama os Beatles e os Rolling Stones. Muitos dados foram extraídos da sua memória de elefante)
Alguém disse que a vida é feita de pequenos “nada” e que recordar é viver. O sábio Platão relata que tudo são reminiscências. A infância e adolescência é o momento mágico da nossa vida. Terminava o Romantismo e nascia os "anos dourados".
Ainda sou 'uma garota ' que "ama os Beatles eo os Rolling Stones"
Ainda era Pasárgada que Bandeira reclamava não existir....
Cíntia Thome! Bandeira era intuitivo e mediúnico. No fundo ele sabia que existia. Bem que seu coração ainda ama os Beatles e os Rolling Stones. Penso que ama também Ray Charles! Um beijão nos seus olhos lindos!
raphaelreys · Montes Claros, MG 15/7/2009 09:52
Raphael,
Blusinhas de Ban-Lon e Buclê eram adoráveis.
E Jamais esquecerei da Jovem Guarda e os filmes de Sara Montiel.
Feliz de quem tem um tempo bom para recordar
bjs
Raphael,
apesar do título que remete aos anos 50 - portanto antes de muita coisa que recorda -, a crônica tem a sua marca de bom prosador. Uma delícia de ler e recordar com saudades dos nossos bons (e muitas vezes maus) tempos. Mais uma vez, parabéns, amigo.
Sou igual a todo mundo da nossa época...tambem amo os Bealtes e os Rolling Stones !!!! Mas hohe amo de tudo...inclusive poesia...te ler...e mais umas mil coisas maravilhosas !!!!
Volto p votar !!!
Mil beijos !!!!
Doroni! A recordacao desses anos dourados aliviam o estresse moderno! Beleza era Sarita Montiel, Miguel Acerves Mejia!
Nivaldo Lemos!
NIvaldo Lemos! Os anos 50 e 60 se misturam. Era fim do romantismo!
Marília Carboni! Obrigado pela presença e pelos olhos lindos!
Eu peguei o trem a noite em BH e chequei em Montes Claros as 8 da matina, desci a pe' ate a praça da Matriz, perto era a republica do meu irmao em frente uma geradora de luz a diesel que urrava a noite toda que ficava exatamente em frente a Roxa...
Suas lembranças, trazem lembranças...
Parabens
O presente é o "Presente". Do passado podemos buscar momentos eternizados que ainda hoje revigoram nossas Almas...
Abraços fraternos e Paz na Terra. jbconrado.
Eita seu Raphael ,
E eu que vim conhecer os catecismos só nos setenta, porque foi nos setenta que meu olhar se aguçava, pré adolescente, não só o olhar...
Mas, rapaz, quem quebrou,jogou, o violão na platéia foi o Sergio Ricardo .
Abs
Se recordar é viver, você está cheio de vida!
bjs
Victorvapt! Então curtistes a delícias da boate da Roxa meu caro! Foi lá que aprendi a danças e cantar tango!
Ayrumam! Buscando momentos eternizados! Obrigado pela passagem!
Aldy Carvalho! Bem lembrando o Sérgio Ricardo. TROQUEI AS BOLAS!
Sonia Brandão! Cheio de vida e de amor para dar! um beijo!
Rapai!, eu usei esse ban lon!, não conte pra ninguém.
Vê como o tempo avua, la festa appena cominciata è giá finita ...
Mas eu gostomuito de olhar pra trás, a mulher do Lot virou sal, lembra?
Ótimo texto,como sempre.
abraço
Vasqs! A mulher do Lot sublimou e virou fumaça cósmica. Beleza a canção do rei Roberto não?
Querido amigo Raphael - seu texto me faz sentir saudades de uma época não vivida ou sentida - apenas contada.
Os Anos Dourados se foram e deixaram marcas em quem os viveu e saudades em quem gostaria de ter vivido uma época mais doce e mais cheias de mistérios de descobertas. Hoje o romantismo se perdeu.
Gostei do seu texto.
E adoro a musica ' Canzone per te'.
Parabéns.
Bjos
Patty
Bom, eu nasci em MIL NOVECENTOS E RECENTEMENTE.....rsrs
mas amo tudo relacionado áquela epoca.....e convenhamos
nao se fazem mais musicas como aquelas.......e dizem que nem amantes, ó?! rsrsrs
gostei do texto, mto mto.
bjssssssssssssssss proce que veio de la.
Raphael! gostei muito do seu texto, pois me trouxe belas recordaçoes; foi a melhor época da minha vida; curti, usei, assisti, ouvi, comi, participei, cantei, enfim, vivi tudo que vc descreveu. Ainda canto Dio come te amo e Canzone per te; ainda uso leque e tomo chá com torradas; adoro tangos e boleros; de vez em quando ainda uso laquê nos cabelos... Bacana seu trabalho!... eu volto...
beijos
Menina Flor! O romantismo ficou apenas em alguns coração que insistem em ser a via da alma!
Cláudia Campello! Seus olhos são cheios de mistérios!
Greta Marcon! Não sabia que ainda existia o laquê! Um beijo!
V oltando
Raphael, o laquê também se modernizou
agora é " Hair Spray". ( de diversas marcas)
bjs
Doroni! Não sabia que o laquê recebeu essa roupagem globalizada. Beleza que continua entre nós! Um beijoi!
raphaelreys · Montes Claros, MG 17/7/2009 13:44
Raphael,
Que volta ao passado, apesar de algumas coisas não serem da minha geração, mas sou muito ligada às coisas do passado que são bem melhores, tanto que até hoje são copiadas.
Bem legal esse sentimento de nostalgia!!!
Beijos!!!
Como sempre amei sua narrativa, cheia de detalhes e que me fizeram viajar pela memória da vivência daqueles nascidos naquela época. Eu queria ter bem mais que meus 30 anos!! Eu trago cada vez mais a certeza de que nasci na época errada, porém tenha a sorte de poder absorver as memórias daqueles que lá estiveram.
Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 17/7/2009 13:55
Os anos dourados pararam em meus olhos.... meu poeta Rey´s
ainda vivo sonhos..... acordo pesadelos....
Disfarço as verdades... mas não há mistérios....
como tudo não são mais flores.
mas olhe nos meus olhos
escuta-os, entenda-os...
no fundo, no fundo eles crêem no genuíno amor
da década de sessenta. saca?!
te gosto e adoro te ler.
bjssssssss♥;;
raphaelreys · Montes Claros (MG)
AINDA OS ANOS DOURADOS
Tempos de transformações. os anos valiam imensidões.
Tudo estava acontecendo e tudo era novidade.
Caminhos do Arco Íris e os Sonhos a Mil.
Seu texto é extraordinário na reprodução da época.
Parabéns.
Abração Amigo
Amigo Raphel,
Retornando com o meu romantismo e deixando meu carinho e voto.
Bjos
Patty
Caro Raphael,
Acredito que a nossa geração que viveu tudo isso continua amando e cada vez mais os Beatles, os Rolling Stones, os Bee Gees, o Bob Dylan, o Roberto, o Gil, ....
Lembro ainda das blusas com gola olímpica, camisa volta ao mundo, as calças de tergal, substituídas depois pela Lee e pela Lewis. Fazia coleção de marcas de cigarros e além do Capri (se não me engano era de caixinha), o Continental, O minister e o Fulgor (arrebenta peito) eram muito comuns.
Deliciosas reminiscências...
Um grande abraço
Raphael, meu caro
Bela viagem nostálgica-histórica pelos anos dourados. Época rica de cultura e contra-cultura. O nascimento do rock n´roll, e a divisão do mundo em dois pólos (Beatles X Rolling Stones e Capitalismo X Comunismo). O início do consumo de massa, do marketing mais agressivo. Da psicodelia dos Mutantes e Secos e Molhados. Da Guerra do Vietnã, e dos movimentos pacifistas e anti-racistas. Do Ai5, tolhendo a liberdade civil em nosso país. Do sonho além do aro-íris. Enfim, uma época de efervescência mundial, onde tudo era mudado, revisto, revolucionado, combatido, experimentado (não vivi esses anos, mas imagino como era demais essa época)...
Parabéns !
Abração.
Assino embaixo do que afirmou o Nivaldo Lemos: "a crônica tem a sua marca de bom prosador. Uma delícia de ler e recordar com saudades.
E, como disse o victorvapf, suas lembranças, trazem lembranças...
E me lembrei das histórias do detetive SHELL SCOTT.
Dou meu reino por um livrinho de Shell Scott (eram escritos por Richard S. Prater? Se não me falha a memória).
OIe poeta!!!
Um tempo que minha mãe sempre recorda. Bela saudade.
Beijinhos poeticos.
Naggai! Sou platônico! Nada como as reminiscências. Um beijão.
Daniele! Por certo a sua alma estava acompanhando tudo ante4s de decidir vir a esse mundo de provas! Ainda bem que veio!
Cláudia Campello! Você é um poço de pura emoção. Eu que te aodro!
Mestre Azuir Filho! Camionhos de sonhos certamente! Um abraço!
Menina Flor! Seu carionho será sempre absorvido com o coração! Te beijo!
Agnor! Tinha também o isqueiro Ronsons e no fim do romantismo veio a calça Pervinc 70.
Gustavo Adonias! Era o fim dos sonhos e começo do mundo gobalizado meu caro overmano!
Onivaldo Paiva! Além do policial, tinha também O Coiote, a revista da Dinners e um mundo de emoções!
Ilia Noronha! Sua presença enche o ar de paixão doce ninfa das florestas! Te beijo pasional!
Parabens Josef !!!
Votadinho!!!
Mil beijos !!!!
Marilia Carboni!Obrigado pela passagem! Um beijo!
Joe Brasuca! rELIDADE E SONHO É A MESMA COISA!
maravilha e votado
tamanha fragrancia do elevar-se
Wadochicchan! Obrigado pela passagem no postado! Um abraço mineiro!
raphaelreys · Montes Claros, MG 18/12/2009 07:54Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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