Além da periferia fastidiosa... É pecado querer ir além de nosso jardim?
O homem cria, não apenas porque quer, ou porque gosta e sim porque precisa. Ele só pode crescer enquanto ser humano, coerentemente, ordenando dando forma, criando. (Fayga Ostrower)
É possível apreender nossos sentimentos e percepções do mundo, além do meramente descritivo, admissível e concreto? É possível uma nova visão mais abrangente, onde a prepotência de nossa “lógica domesticada”, deixe de ser a via preferencial, a única variante aceitável? O veredicto final, que justifica definitivamente a verdade de todas as coisas?
É plausível um jeito novo de vivenciar os episódios na trajetória de nosso cotidiano? O sinal sensível de que podemos ir além da periferia fastidiosa, do simplesmente trivial, da comodidade de usufruir o que já está prontinho para consumir? Será que é pecado querer ir além de nosso jardim, dos limites de nossos muros e saborear o fruto da Árvore proibida?
Em “O homem e seus símbolos”, Carl G. Jung dá o sinal de alerta apontando os momentos cruciais que nossa civilização vive hoje:
“O homem moderno não entende o quanto o seu racionalismo (que lhe destruiu a capacidade para reagir a idéias e símbolos numinosos) o deixou à mercê do submundo psíquico. Libertou-se das supertições (ou pelo ao menos pensa tê-lo feito), mas neste processo perdeu seus valores espirituais em escala positivamente alarmante. Suas tradições morais e espirituais desintegraram-se e, por isto, paga agora um alto preço em termos de desorientação e dissociação universais”.
Passamos a construir literalmente a nossa própria identidade quando alcançamos um jeito novo de ver os acontecimentos; quando deixamos de ser sujeitos submissos, platéia passiva e nossa concepção de estar no mundo, deixa de ser unidirecional e ousa novas leituras multidimensionais de nós mesmos e das coisas. Como já cantava Milton Nascimento em “Travessia”, nos idos tempos de 1967: “Já não sonho, hoje faço com meu braço o meu Viver”.
O vivenciar Arte em Educação não tem a pretensão de formar artistas, no sentido restrito a que muitas das vezes nossa sociedade, está acostumada a aprovar como a melhor opção, para aqueles que ousam trilhar este caminho. Mais importante do que ostentar a glória do clichê “ser Artista”, está a elevação singular de nossas transmutações internas e a alegria de experienciar a vida em suas múltiplas faces.
A convicção de que a Arte em si, não é uma meta a ser atingida, mas um processo dinâmico infinito, uma prática constante que nos permite a cada nova experiência, crescer em autoestima, determinação, conhecimento e gratidão por estar vivo.
A certeza de que nascemos para “brilhar” sim, mas que, obviamente podemos ser muito mais do que meras ovelhinhas deslumbradas, aliciadas a alimentar a sedutora, mas conflitante ordem social estabelecida.
A presença da Arte no cotidiano das pessoas faz renascer nossos mais íntimos sentimentos sublimes, a consciência de si e dos outros, a vontade de viver intensamente cada momento, ensina a respeitar as pluralidades individuais e assegura a essência do humano, onde o desafio maior é o desenvolvimento sadio de todas as potencialidades construtivas do homem.
Fazer Arte está latente na natureza anímica do homem, faz parte de sua escalada
rumo ao Infinito e isto é, indiscutivelmente, um dos seus mais belo e autêntico legado.
Um dia há de vir, em que não precisaremos mais da Arte como forma de exprimir nossos limites e anseios, pois neste excelso dia com certeza o homem em si, será a expressão da própria da Arte, ou seja: será literalmente a Arte em sua plenitude.
Mas até lá, a caminhada perde de vista e temos que colocar “o pé na estrada” sem medir até onde chega nossas fronteiras, sabendo que sempre podemos mais do que imaginamos.
É pecado querer ir além de nosso jardim? jbconrado.
Conrado, como sempre acreditei, "nada vem por acaso" e talvez, por isso acabo de ler o seu texto e confesso que eu precisava ler cada palavra dessas. A "limitação de horizontes" imposta pelos outros ou por nós mesmos é algo que, direta ou indiretamente interfere na vida de todo mundo, e é na arte que o homem expressa seu verdadeiro íntimo porque, na prática até mesmo aquele que tem o anseio de seguir em frente, de ultrapassar os próprios limites, se curva diante de quaisquer obstáculo por censuras, muitas vezes, por ele mesmo impostas. Acredito que a arte é também uma espécie de refúgio onde depositamos nossas verdadeiras crenças, desejos, esperanças... Espero mesmo que um dia, sejamos literalmente a pura expressão da arte em pessoa e que seja essa a razão difundida por todos nós... sejamos ela e não dependentes dela como forma de nos revelar sem medo... "experimentar a vida em suas múltiplas faces" como você diz... ir mesmo além do jardim... Grande abraço, Conrado e volte sempre com mais e mais postados assim!!!
JACK CORREIA · Crato, CE 30/6/2008 17:12
JB, seu texto tão impecavelmente escrito em forma, é tão rico em conteúdo, que não fica muito a comentar.
Coincidentemente, releio Ostrower, no seu livro "criatividade" que acho talvez ser o que você retrata em seu texto. Relevante citação. E, sobre a citação de Jung, cito sua obra "Psicologia e religião oriental" onde ele chama a atenção para paradigmas ocidentais que deveriam ser quebrados e não tentativa de se moldar à filosofias orientais, uma espécie de amálgama de idéias de um e de outro, assim se conseguir chegar a algo novo, construtivo e "revolucionário".
E, para reponder à sua pergunta: não deveríamos nos "nivelar por baixo" sem juízo de valor à essa afirmativa, apenas criar algo novo, sim, além de nnossos jardins.
parabéns mesmo por seu texto.
abção caro amigo
Cristiano
Acredito que a arte é também uma espécie de refúgio onde depositamos nossas verdadeiras crenças, desejos, esperanças... Espero mesmo que um dia, sejamos literalmente a pura expressão da arte em pessoa e que seja essa a razão difundida por todos nós... sejamos ela e não dependentes dela como forma de nos revelar sem medo...
*****
Oi Jack. Belas palavras expressas. É este clima que me inspira em participar do OverMundo onde cada pessoa tem a oportunidade de se apresentar o mais inteiro possível. Saúde amigoOver...
Grande abraço! jbconrado
Cristiano. Bom revê-lo por estes mares. Sua participação é sempre uma Motivação e um compromisso a mais para com a qualidade daquilo que me proponho a apresentar no Over...
Um grande abraço... jbconrado
Passando para deixar meu carinho (INATIVA)
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 2/7/2008 04:54
Lindo trabalho, tanto texto como imagem! Parabéns!
votado
beijos
Enquanto não consiguemos SER a arte em sua plenitude, que a deixemos extravasar em poesia, como você fez!
Votado.
Enquanto não conseguimos SER a arte em sua plenitude, que a deixemos extravasar em poesia, como você fez!
Votado.
Que belo texto!
Parabéns.Voto certo com um beijinho doce, Sílvia.
JB,
Texto de uma magia literalmte artística.
Com a simplicidade dos jardins falaste sobre a arte.
Muito bom. Concordo contigo.
[...]"A presença da Arte no cotidiano das pessoas faz renascer nossos mais íntimos sentimentos sublimes, a consciência de si e dos outros, a vontade de viver intensamente cada momento, ensina a respeitar as pluralidades individuais e assegura a essência do humano, onde o desafio maior é o desenvolvimento sadio de todas as potencialidades construtivas do homem."[...]
Parabens!
Beijos e votos,
Regina
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
A Revista Overmundo está chegando ao fim de sua primeira temporada e você não pode perder a oportunidade de colaborar! A edição nº 6 da revista,... +leia
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!