Cantar é abraçar o invisível, preencher o vazio e se fazer presente até onde a emissão da voz alcança. É espalhar-se para o alto e para os lados, correndo espaços num piscar de olhos, até onde o som se esmaece e se perde.
É dar as mãos ao que não se vê e seguir junto e sem rumo certo com este ser abstrato, até que o silêncio chegue e desfaça esta união, interrompendo a caminhada.
Cantar é como falar, só que com mais habilidade. É falar poeticamente e em compassos. É saber conversar com instrumentos musicais, dialogar com os pássaros e, como eles, alçar vôo.
É transpor limites e poder se expressar aos falantes de qualquer língua, adentrando por seu corpo, fazendo se eriçarem seus pêlos e atingindo os recônditos onde mora a alma humana.
Cantar é falar, só que no tom da emoção, em sussurros, gritos guturais ou trinados. É dizer se sofre de amor ou se goza; se alegre ou triste, se terno ou possesso. É mexer com o outro, acalmando, agredindo, acalentando, incomodando.
E, fazendo-se aflorar sentimentos e sensações através da música, rompe-se a fronteira entre o real e o imaginário. Algo que antes era idéia, sentimento, consegue tocar o outro, mesmo sem tornar-se físico, como num encontro entre dimensões.
E tal encontro, apesar de mágico, pode se dar de modo tão natural que não o percebemos acontecer nem pensamos sobre ele. Outras vezes, não! Há uma energia diferente neste encontro, que faz quebrarem-se as taças de cristal, vibrarem as paredes e portas e os corpos entrarem em movimento.
As vezes o canto pode ser pura técnica – aí, não é completo. É um canto que sai pela metade, torto, roto, mesmo que íntegro em sua plasticidade. Outras vezes, cantar pode ser todo sentimento, mesmo que ensaiado exaustivamente e feito num estúdio frio, com hora marcada, no expediente da arte.
Do ar, faz-se tudo isso. Do ar, que nem encheria um simples balão, mas que causa pequenas vibrações vocais. O ar. Mas também as vísceras, o peito, o âmago. São essas as matérias-primas da arte de Piaf, Bethânia, Calas, Sarah Vaughan, Elizeth, Elza, Zizi, Amy...
O ar e as tripas. Essa é a matéria da arte destas mulheres, do seu canto. E o seu canto, esse é o preenchimento da minha matéria, o alimento da minha alma. O ar pelo qual elas cantam é o mesmo que mantém a minha respiração, o meu corpo vivo.
* Para ler ao som de “Alguém Cantando”, de Caetano Veloso.
Crônica sobre a sensibilidade do canto feminino
gostei mto.
escreves com maestria.
qse um canto de amor.
bjssssss;)
Você homenagear a Piaf já é formidável.
Ivette G M
O ar e as tripas. Essa é a matéria da arte destas mulheres, do seu canto. E o seu canto, esse é o preenchimento da minha matéria, o alimento da minha alma. O ar pelo qual elas cantam é o mesmo que mantém a minha respiração, o meu corpo vivo.
Muito bom!!! gostei, votei! Quem não entender o canto com suas palavras, nunca cantará!
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