Alice não estava no país das Maravilhas
Por Fátima Venutti
Pela janela, uma brisa serena brincava e invadia, por fim, o espaço daquele quarto naquela manhã chuvosa de setembro. Bailavam as cortinas de voil rosa claro. Lentamente, Dora foi despertando e pode sentir novamente o pulsar da vida através da luz a iluminar e tomar conta suavemente daquele seu mundo, antes tão incolor e sem graça alguma.
Ainda dormente, instintivamente deslizou a mão sobre o lençol da cama, a buscar algo. Foi então que abriu de súbito os olhos e foi conferir o que tocara. Espalhadas pela cama, lá estavam elas: as pétalas de rosas vermelhas.
Um sorriso de prazer esboçou seu rosto. Ela espreguiçou como de costume, sentou-se dobrando e abraçando os joelhos feito uma menina, observando minuciosamente o cenário que encontrara. Pelo chão, a visão de outras rosas espalhadas, ainda intactas com seus galhos e folhas quase murchas, rastros de roupas espalhadas sem pudor por sobre móveis e objetos e um cheiro que agora era respirado por ela num êxtase mais que absoluto tecendo em sua mente e trazendo de volta as imagens da noite anterior. Uma noite de total prazer.
Por minutos Dora ficou naquela posição, buscando em cada detalhe de seu quarto preencher, por mais uma vez, o espaço de sua alma e as frestas de seu corpo com os resquícios dos aromas, tentando ainda ouvir os gemidos, gritos e palavras trocadas há poucas horas.
Observando as pétalas jogadas e debulhadas pelas dobras do lençol, descobriu outro tom de vermelho tatuado. Naquele momento se deu conta de que ingressara numa outra fase de sua vida. A menina há poucas horas, agora, mulher. As gotas de sangue seco e já incorporado à malha do tecido, agora revelavam o verdadeiro significado das rosas vermelhas.
Imediatamente veio em sua mente o conto de fadas de Alice no País das Maravilhas, de L. Carrol, e ela mergulhou em cada cena da trama que tantas e tantas vezes ouviu sua mãe contar e por tantas outras foi embalada para dormir.
O caminho das rosas vermelhas mostrou-se como uma fase na vida de uma mulher, simbolizando a passagem da menina-flor de inocência em rosas brancas para a mulher liberta pela menarca e consciente de que jamais sua vida seria como antes. Bonecas começavam a ser encaixotadas e as brincadeiras ingênuas do pêra-uva-maçâ se apresentavam com um hálito mais apimentado de prazer.
Dora levantou-se e foi até a estante de livros. Ainda nua e já descalça de seus dogmas e pudores, começou a jogar pelo chão a sua inocência. A literatura infantil deixou espaços vagos no mogno escuro. As revistas e jogos de brincadeiras se mostraram fora de sua faixa etária e ela começou a lançá-los ao ar, Abriam-se as páginas em flaps e sons e uma baderna hasteou uma nova bandeira naquele mundo não mais de fantasia.
Uma mulher aflorou, feito todas as rosas que espalhadas estavam no chão. Ela não queria mais a ingenuidade daquele mundo. Por sobre a escrivaninha, sua agenda. Mais que depressa ela abriu na data do dia e escreveu em letras garrafais: O dia em que Dora, a mulher, nasceu!
Quando a menina torna-se mulher...
saiba que já passei para a leitura umas seis vezes,na volta comento.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 2/11/2008 08:05
Fátima, beleza de conto sobre a inciação feminina, apesar de sozinha, a personagem pôde encontrar o seu insight em meio as metáforas das rosas de Alice...
Muito bom, muito bom
Parabéns, sempre bom ler seu trabalho
beijos
Onde está o príncipe encantado nessas horas?
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 2/11/2008 16:57Volto,e deixo meus votos de muito sucesso.
clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 3/11/2008 13:32Já conhecia esse texto da nossa querida Fátima , mas não pude deixar de expressar o que sinto com os textos que ela sempre nos presenteia ,são todos de muito bom gosto e requinte e de ótima qualidade,mais uma vez parabéns ao seu talento ,beijos
Edson Alves · Rio de Janeiro, RJ 3/11/2008 14:07Ai que frio, Fátima! Apesar das rosas;)
Compulsão Diária · São Paulo, SP 3/11/2008 14:16
Fátima...Ufa!Ufa!!! Nossa que perfeição de texto. Que percepção fina da Natureza Feminina. Parabens.
Tenha uma boa Semana.
Fátima obrigada pelo convite, quis dizer frio da solidão e não do texto bem escrito.
Beijo
Fátima, gostei muito do seu texto. Está votado
Frederico Rego · Rio de Janeiro, RJ 3/11/2008 14:46
Fátima, um conto sensível, com uma narração muito bem conduzida onde você explora as sutilezas da alma feminina.
Muito bom! Gostei muito do trabalho.
Deixo aqui meu beijo e votos.
boa semana.
-"Mulher é bicho esquisito, todo mÊs sangra !", já profetizava a nossa querida Rita Lee que bom que atualmente tudo já está superado e não existem mais aqueles tabus de não lavar a cabeça ou trancarem as "incomodadas" no fundo da casa...
Textos como esse seu são ótimos para tirarem o azedume duma coisa que deveria ser considerada como um marco na vida da mulher que é a menarca, ou seja a sua primeira menstruação, um 'début' de menina para mulher, com todas as suas eventuais responsabilidades
Parabéns peo "tato" !
Um beijo !
Dora é a flor que se abriu - para a beleza, a contemplação, a doação. Também para a solidão.
Beijos.
belíssimo texto, gostei muito.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 3/11/2008 16:32
Quando se torna mulher é bom;
permanecer menina sempre,
melhor ainda...
Parabéns, Fátima.
O problema é que homem não entende nada disso.
Alece abre portais entre dimensões do ser!
raphaelreys · Montes Claros, MG 3/11/2008 18:13
Maravilha de texto Fátima
Desculpe a demora,não entrei no Overmundo esse fim de semana
Beijos e parabéns
Parabéns. Muita criatividade.
Desculpe se estou votando só agora.
Gostei e gostei Fátima, muito interessante.
Abçs..
Lindo, lindo o texto....como é bela e magnifica a natureza....
parabens...
abraços
Belo texto. Muito bem descrito esse momento que se torna inesquecivel na vida de uma menina virando mulher.
Parabéns
Fátima, eu gostei bastante de sua Alice prontificada.
abço.
Um ato de liberdade. Contudo, depois olhamos para trás e lamentamos o que perdemos, ou melhor, abandonamos. Paradoxalmente precisamos fazer isto para encontrar isto mesmo que já estava na gente.
O que é realidade e ilusão não é fácil definir, determinar. Um neurótico, por exemplo, acha que vive e ver o mundo real, como ele é, sem graça.
Um dia temos que fazer o caminho inverso. Precisaremos resgatar a criança que existe na gente.
O texto, enfim, é maravilhoso é provoca muitas reflexões
FÁTIMA,
Seu conto é um pedaço,
de cada uma d nós mulheres...
Mas sobreviver à essa perda,
da menina q havia dentro
da gente,dói!
É COMO PARIR,TODA A INGENUIDADE...
Arrepia,
Devora,
RUMINA...
G E N I A L ! ! !
BJS,
BOA SEMANA,
fÁTIMA
maravilha de narrativa sobre a primeira noite de uma mulher se rendendo, de corpo e alma, para os desejos da carne. Dora sempre será feliz no amor, na sua vida sexual, porque se entregou sem as futilidades dos prazeres de apenas uma noite. Acreditou no amor...e nos seus longos caminhos
Magnifico texto texto, escritos com as tintas das poesias da vida
Beijos
Noélio
Belo conto, bem narrado, fácil de digerir e profundamente real. Contudo eu penso q Dora não deveria jogar fora sua infância. É fundamental q possamos guardar nosso mundo. Mas isso é Dora ....e eu sou eu... Tenho ainda minhas bolas de gude, meus cubos de montar e me lembro com felicidade do mini -bonecos do forte apache q tenho. Tudo guardado numa parte do armário. Minha infância foi um mundo de fantasias.
Thiers · Rio de Janeiro, RJ 4/11/2008 00:22
Muito romântico e bonito.
As rosas, as lemebranças prazerosas, a felicidade...
Depois, ela irá retomar essa criança que, por alguns momentos, quis afastar de si.
Gostei.
beijos
Fátima amiga .
Um lindo conto cheio de romance e realidade , Dora com certeza levará esse dia como o melhor de sua vida , parabéns deixo meu voto e admirações. Bjs...
Fatima,
Bem contado essa passagem de
menina- mulher.
bjss
Fátima,
Um lindo texto sobre um acontecimento que deve ser inesquecível.
Bjs
À primeira vez, que venham rosas de todas as cores...E todas as Doras que advirão...
Excelente, Poetisa !
beijo, votado !
Joe
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