A felicidade dos dois era tamanha
que de todos chamava à atenção
Ela cozinhava
passava
limpava
em troca de um olhar amoroso
uma palavra doce de seu doce amante
Ele trabalhava
fumava
pensava
estava ali como se não estivesse
amava com o amor próprio dos homens
Viveram felizes para sempre
por muitos anos
Compraram
casa
carro
móveis
eletro-anoréticos
Viajavam
dormiam juntos
iam ao banheiro juntos
mas tudo acabou
quando ela encontrou uma camisinha
no carro deles
Uma única e humilde camisinha
(ainda intacta no envelope metalizado)
Por mais que ele jurasse
que não era dele
talvez de um mecânico com quem deixara o carro
para consertar
a casca daquele mundinho perfeito explodiu
como a casca de uma ferida infeccionada
deixado vir à tona todo pus e podridão
com que são feitos todos os relacionamento humanos
e que se escondem nas aparências de uma normalidade
que cheira mal
Ela chorou
xingou
fungou
Ele sumiu no mundo.