AMOR AO DENTISTA

google imagens
1
LadyQueiroz · Rio de Janeiro, RJ
22/7/2010 · 6 · 12
 

Dentre as manifestações de amor, existe uma que consiste em total estranheza para a maioria das pessoas. É o amor do paciente pelo dentista, como conseqüência do tratamento dentário feito por amor e prazer.
Muitos de vocês perguntarão:
_O quê? Prazer em ir ao dentista?!

Isto mesmo: den-tis-ta! Para eles, a odontologia é considerada uma das mais sensuais profissões e o dentista, por si só, um objeto de amor e prazer. Porém, ele (ou ela) tem que estar dentro de um consultório, vestido a caráter e com um instrumento odontológico ao seu alcance, ou seja, uma pinça, uma broca, um raio-X, etc. O tom de seus gestos, vai dar a idéia da intensidade da relação para esses curtidores “oro-dentais”. A atração começa na observação do odonto-profissional logo nas primeiras consultas: a forma de segurar a lâmpada e direcioná-la à boca; o modo descontraído de segurar a pinça e olhar os dentes; a forma de segurar os maxilares, de tocar nos lábios e, principalmente, o brilho em seus olhos denotando prazer no que faz.

De grande parte das pessoas, escuta-se sempre as mesmas coisas:
_Tratamento dentário? Cruz credo, Deus me livre! Tenho horror à dentista! E aquele barulhinho da broca?
Há, no entanto, quem tenha guardado boas recordações de seus dentistas e de sua relação amorosa com eles. Recordam com certo carinho destas relações - como diria? – “buco-erótico-oro-dental”, a despeito da incompreensão dos amigos, como uma das coisas que mais gera prazer em suas vidas.

Há quem pergunte como alguém, em sã consciência, pode sentir prazer numa cadeira de dentista. Explica-se que este prazer singular começa, exatamente, por esta peça básica que não pode faltar no mobiliário do consultório. Não existe cadeira nenhuma mais confortável. Totalmente anatômica, deixa o corpo completamente relaxado para o ato em si.

_ Aaato?! - vocês poderiam perguntar, perplexos. Sim, a começar pela proximidade dos corpos, as respirações, os olhos nos olhos, as bocas intimamente próximas, e o hálito, mormente cálido, do dentista. Há dentistas que, independente do seu gênero sexual, têm uma imensa capacidade sedutora de fazerem o cliente abrir a boca. A proximidade dos rostos e a posição dos corpos dão-lhes um enorme poder de sedução que nem a todos é permitido. O perscrutar de seus olhos na intimidade do rosto do cliente, devassando cada linha de sua face, dá-lhes um poder de captura da alma, e tem sido justamente nestes momentos que os clientes se rendem, passivamente, à vontade deles.

Houve uma mulher, acreditem, que amava tanto seu dentista, que em determinada época chegou a acreditar que aquelas histórias maliciosas sobre mulheres que desapareciam à tarde e voltavam satisfeitas dizendo aos maridos terem “ido ao dentista”, eram verdadeiras. Afinal de contas, ela também ia ao dentista e voltava para casa literalmente satisfeita com o seu tratamento dentário. Para ela, o ato de ir ao dentista, sempre foi um ato de prazer.

Contou, certa vez, que o toque dos dedos do profissional em seus lábios era apenas a preliminar de uma promessa maior e detalhou como seu dentista sabia fazer isto muito bem. Primeiro, ele a cumprimentava formalmente no adentrar a sala, como faz um bom profissional. Delicadamente, mandava-a deitar-se na cadeira e pedia a sua auxiliar para prepará-la para o sagrado momento. Isto consistia em vesti-la num avental muito alvo, colocar uma touca prendendo seus cabelos e dar-lhe um lenço de papel para que ela retirasse o batom – coisa que sempre caprichava especialmente para aquelas ocasiões. Gostava de estar com os lábios sempre bem delineados de uma cor rubra e sensual e de retirar o batom na cadeira do dentista, como quem retira uma peça íntima, de modo um tanto recatado, porém com um quê de sensualidade.

Achava que seu dentista aprovava aquela ação, pois na hora de tal ato ele, discretamente, e para deixá-la mais à vontade, desviava o olhar. Como um cavalheiro, ele também, discretamente, se preparava para o intercurso da relação. Sentava-se ao seu lado portando uma touca branca e uma máscara, levemente caída de modo que ainda podiam se insinuar os seus lábios. As mãos, muito bem higienizadas e ainda sem luvas, começavam a tocar seus maxilares de modo a lhe fornecer todas as informações a respeito de seu tratamento e os procedimentos que deveria tomar em relação ao seu caso. Olhava-a dentro dos olhos e parecia brincar com sua face e lábios antes de iniciar o tratamento. Falava de sua anatomia dentária com intimidade e amorosidade e parecia conhecer mais sobre cada um daqueles dentes do que ela mesma. Mostrava-lhe os raios X e desvendava cada raiz que ela não conhecia.

Ficou sabendo, através dele, que seu último dente, o siso, era especial e extremamente “nervoso” pois, o fato de não ter nascido seu par inferior, deixara-o sem uma função específica na arcada dentária. Isto o tornava cheio de “sensibilidades”. Aconselhou-a muita paciência na hora da escovação, pois precisava conciliá-lo com a gengiva que, por já não suportar excessos, vivia querendo expulsá-lo.
Explicou-lhe também sobre seu “bruxismo” noturno e sua conseqüência para as raízes. Falava sobre aquelas singularidades de sua boca com tanto carinho que ela, entre rubor e suspiros, ia se entregando àquelas intimidades cada vez maiores.
_ Só mesmo um dentista para descobrir até nossas bruxinhas internas! - dizia.

Contou ainda que, enquanto falava, os dedos dele deslizavam por sua face ao redor de seus lábios prometendo um prazer cada vez maior. Depois de uma extensa preliminar cheia de explicações e justificações, parecia saber o exato momento para vestir suas luvas. Seu olhar decidido confirmava aquilo que ela já sabia: a certeza de que não se oporia àquele tratamento.

_ Está pronta? Abra a boca, por favor!
Não era preciso repetir. Lá estava ela entregue aos seus desejos.
_ Arrim?
_Vou te dar uma anestesia rápida. Nem vai doer, só uma picadinha ... Pronto! Doeu?
_ Não, foi ótimo.
_ Vou massagear a área para que o efeito seja mais rápido.
_ Humm ...
_ Já começou a fazer efeito?
_ Sim, não pare ...
_Agora, vou te pedir para abrir a boca de novo.
_ Arrim ?
_Não, um pouco mais.
_ E a-ho-a?
_ Tente abrir um pouco mais ...
_ Á hom a-ho-a?
_ O dente é o último superior molar e vou mexer na parte do vestibular. Abra mais! – sussurrava.
_ Aiix ?
_Mais, mais .. Arreganha de uma vez, vai!
_ Ahhhhh....
_ Ótimo! Perfeito! Fica bem quietinha agora. Humm! A visão está ótima ... vou direto ao ponto, bem devagarinho...
_ Huumm ...
_ Se doer, levanta a mãozinha esquerda, ta bem? Não quero te machucar ...
_ Um-hum ...
_ Dona Glória, me ajuda aqui, estou escorregando na saliva dela. Segura o lábio dela deste lado e suga do lado de cá, para eu poder prosseguir. Não fecha a boquinha, tá bem?
_ Uum-huuummm .....
_ Está quase... quase ...mais um pouquinho e, .... aháá! Pronto, consegui! Perfeito! “Gol de placa”!
_ Hummmm...
_ Vamos fechar tudo agora. Dona Glória faz aquele preparado bem geladinho, do jeito que gosto. Doeu?
_ Ão...
_ Ótimo! Pode relaxar agora e cuspir.
_ Acabou?
_ Por hoje, sim. Da próxima vez, vamos mexer naquela raiz do canto esquerdo. Será um pouquinho mais demorado, mas se você colaborar ....
_Ora, para mim será um prazer ...
_ E hoje, foi tudo bem para você?
_ Foi muito bom. Foi bom para você também?

Depois daquelas sessões odontológicas, ela voltava pra casa sentindo-se muito relaxada e, se encontrasse alguma amiga pelo caminho, invariavelmente, dava sempre a mesma resposta para aquele seu ar de completude e felicidade:

_ É que fui ao dentista!

As amigas riam dando-lhe tapinhas nas costas e perguntavam se ele era bom mesmo e outras perguntas maliciosas. Ela, porém, apenas sabia que seu prazer, único e singular, não podia ser compartilhado com a maioria. Assim, apenas sorria e guardava para si o seu caso de amor, até a próxima consulta ou dor de dente.

Rio, julho/05

Sobre a obra

Dentre as manifestações de amor, existe uma que consiste em total estranheza para a maioria das pessoas. É o amor do paciente pelo dentista, como conseqüência do tratamento dentário feito por amor e prazer.

Se existem esses curtidores oro-dentais? Existem, sim. Conheci alguns deles. Espero que curtam e riam muito, amigos over, rsss...

compartilhe



informações

Autoria
Marisa Queiroz
Downloads
510 downloads

comentários feed

+ comentar
Doroni Hilgenberg
 

eheheheh!!!

Não duvido...
a ultima vez que fui no dentista em minha cidade ele era bacana e bem simpático. Conversou que só!!!

Mas tem g ente que já vai ao dentista com segundas intenções... ai, a coisa pega!!!

b js

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 23/7/2010 16:44
sua opinião: subir
alcanu
 

Tem gosto pra tudo, cruzes !
Fecha a boca !
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 23/7/2010 18:08
sua opinião: subir
Vinícius Motta
 

Não tinha pensado uma consulta odontológica por este ãngulo, mas tá valendo. Onde tem gente no meio, tudo é possível.
Bem legal o seu texto. Envolvente e no tamanho certo.
Parabéns.

Vinícius Motta · Rio de Janeiro, RJ 23/7/2010 21:29
sua opinião: subir
Juscelino Mendes
 

Do dentista não gosto, mas de seu texto bem escrito, sim.
Um beijo!

Juscelino Mendes · Campinas, SP 24/7/2010 14:50
sua opinião: subir
gteixeira
 

Eu gosta da dentista, porem qdo ela pede prá abrir a boca,
hum aí o bicho pega.
Valeu pelo texto
o tema também é bom
variavel deixando todos c/vontade de ir ao dentista, menos eu.
Bjs
Gteixeira

gteixeira · Salinas da Margarida, BA 24/7/2010 20:08
sua opinião: subir
LAURO WINCK
 

Por isso prefiro As dentistas e não os...
bjs

LAURO WINCK · Rio Pardo, RS 26/7/2010 14:16
sua opinião: subir
LadyQueiroz
 

Meninos (Alcanu, Vinicius, Juscelino, gteixeira, e Lauro), abram a boca, relaxem e gozem na cadeira do dentista. Depois que vcs descobrirem esse prazer, não vão querer outra coisa na vida, rsss... Brincadeirinha, meninos, obrigada pela visita de vcs. Beijos

LadyQueiroz · Rio de Janeiro, RJ 26/7/2010 14:25
sua opinião: subir
LadyQueiroz
 

Doroni, fala a verdade, tem uns dentistas que só de olhar, a boca da gente se abre, é ou num é? kkk Um beijo, querida

LadyQueiroz · Rio de Janeiro, RJ 26/7/2010 14:27
sua opinião: subir
Vasqs
 

Sacanagem Lady! Sempre pensei que fossem os ginecologistas. Me lembrei do Dr. T. , o filme do Altman, as mulheres alvoroçadas com o Richard Gere.
Agora , oro?, v. não quis dizer ouro? O dentista da minha filha - grande cirurgião! - sangrou minha conta bancária por anos a fio.
Brilhante, seu texto, gostei muito.
abraço

Vasqs · São Paulo, SP 26/7/2010 19:29
sua opinião: subir
kfarias
 

Graças a Deus existe o tal "Ponto de Vista" exclusivo e único a cada pessoa, eu sempre preferi as dentistas, são mais delicadas e gentis...

kfarias · Águas de Lindóia, SP 27/7/2010 21:40
sua opinião: subir
Rogério Silvério de Farias
 

nem me fala, vou gastar uma grana com ele o dentista! Tou ficando véio e não quero ficar banguelo na terceira idade, já pensou eu andar com dentadura?

Rogério Silvério de Farias · Tubarão, SC 27/7/2010 22:57
sua opinião: subir
Greta Marcon
 

Caramba, Lady! Nunca imaginei que isso existisse... O meu dentista é jóvem, lindo, carinhoso e muito meu amigo; mesmo assim, tenho pavor da broca... Mas taras existem...
Beijosss

Greta Marcon · Ponte Nova, MG 28/7/2010 03:15
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

filtro por estado

busca por tag

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados