Acho que foi naquele dia de chuva que eu entendi. Eu estava molhado até os ossos, tossindo, num puta mau-humor e ela dançava despreocupada e feliz na minha frente. Parecia uma afronta, saca? Como quando um molequinho se chafurda na lama feliz só pra horrorizar os pais. Fiquei puto, queria descer a mão, mas não podia e tinha certeza de que ia me arrepender. Não eu nunca bati, nem quando ela veio com aquela história de um outro cara, o playboyzinho da Zona Sul, fedendo a desodorante Nivea, metido a artista. Mas, tipo que eu acabei com ele: duas facadas bem dadas na altura dos rins. Aquilo me fez sentir bem, dessa vez era eu quem estava afrontando, saca? As pessoas me olhavam talvez com a mesma cara que eu olhei para ela naquele dia de chuva: a de quem rejeita.
Ela me disse que eu havia sido bruto, porra nenhuma. Respondi que brutalidade ia ser se eu tivesse arrancado os bagos dele e depois pregado na testa. Ele sobreviveu, claro, não teve coragem de prestar queixa e nunca mais aparaceu nas minha vida e na dela. Depois disso as coisas mudaram, ela ficava puta comigo o tempo todo: era como se eu sempre tivesse fazendo a coisa errada.
Foi assim quando eu cheguei bêbado em casa. Ela ava lá me esperando, com os olhos cheio se lágrimas, ela que nunca me esperou disse que eu era um insensível, um grosso, que eu não amava ela. Não, ela não entendia o que eu sentia: aquele misto de vontade de sair na mão com 70 caras maiores que eu misturado com a de cuidar dela, de colocá-la pra dormir do meu lado.
Eu amava ela sim, de um jeito intenso pra cacete. Mas ela nunca entenderia nada do que eu sentia. Pra ela era fácil sabe? Era o meu dever de homem, de macho, protegê-la. Eu tinha que ficar vigilante, era minha a responsabilidade de não deixar acontecer nada. Como daquela vez que eu quebrei as fuça daquele cara na festa da faculdade - eu sabia que ele tava afim dela, podia acabar agarrando ela qualquer dia. Escrevi no rosto dele "Em mulher minha ninguém põe a mão", mas tive que pagar a cirurgia no nariz. Devia ter pagado o médico pra marcar a cara dele com o bisturi.
Mas naquele dia de chuva, em que eu tava puto pra caralho, foi que saquei. Era isso que ela sentia de mim: achava que eu brigava só pra horrorizar. Não era verdade, acho. Naquele dia a gente terminou. Perguntei se era por causa de outro cara, ela respondeu que não, e eu sabia que não era. Tava na hora mesmo das coisas acabarem, tipo filme, quando passa os créditos significa que tá na hora da gente levantar da cadeira. Eram os créditos da nossa história porra... talvez ainda viessem aquelas cenas de depois, mas elas eram curtas.
Ela foi embora. Tava livre, acho.
Eu adorei o texto, mesmo, mas achei que no final ele perde o ritmo, saca?
Marcela Fells · Belo Horizonte, MG 26/8/2006 15:48Bem, era pra ser um conto curto mesmo : ) Essa quebra de ritmo foi meio que proposital, um pouco abrupto (ou bruto). Eu simplesmente não consigo pensar em um outro final pra ele!
Barba · Belo Horizonte, MG 27/8/2006 14:39
O texto é legal, sim! E gostei do final abrupto! Dá uma sensação de rompimento mesmo. "The end."
Uma dúvida a rusticidade do texto é proposital ou você realmente escreve assim no cotidiano?
Olá Hana,
Bom você ter gostado, até porque esse texto é meio velhão, e eu usei ele como uma colaboração-teste para o Overmundo. A rusticidade do texto é por conta do personagem que narra, que pensa, que fala assim. Eu tenho uma série de textos que usam esse tipo de linguagem e nem sempre acho que acerto o tom de uma naturalidade da linguagem coloquial...
Se você quiser ler mais tem essa série aqui. Talvez você reconheça o narrador do conto no meio dela :)
http://faire-savoir.blogspot.com/2006/05/escasso-1.html#links
http://faire-savoir.blogspot.com/2006/06/escasso-2.html#links
http://faire-savoir.blogspot.com/2006/06/escasso-3.html#links
Abraço!
Urgh!Realmente ,tenho de concordar contigo de que é realmente um amor bruto!hahah
Engraçado,eu ri só de pensar nele quebrando o pau dabarraca!
Sabe,eu leio,e gosto de botar vida naquilo,de poder imaginar as cenas e como que a pessoa ,sim a propria contando pra mim.
Amei!
parabéns
Ah!Deixei meu voto de presente pra vc.
ich_bien_ein_elmo · Coqueiro Seco, AL 1/1/2007 00:38
Gostei muito! Bruto, de fato. Abrupta a interrupção no final, mas providencial.
Bacanaço! (ou seria bacanasso?)
Porra, ler esse texto me deu vontade de espancar uns dois... hehe
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