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Ana 01 - Vacas e Cigarro

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cochise césar · Divinópolis, MG
30/3/2009 · 47 · 3
 

O cigarro queimava em sua mão. Não o fumava. Não agora. Do outro lado da rua, nem tabacaria, nem pequenas comendo chocolates. Apenas prédios, multidões e carros.
Pelas frestas da janela o frio vento do inverno entrava no apartamento. passeava pelos seios semi suaves.
Hoje aliterações não adiantariam. Hoje o cigarro queimava entre seus dedos sem ser tragado, os carros passavam pelas ruas sem ser notados, as pessoas iam para seus destinos abscôndidos sem perceber a figura na janela do terceiro andar e sem serem percebidas.
Nenhuma palavra difícil faria o cigarro ter gosto ou as pessoas lá embaixo terem valor.
Ela estava só.
Não faltava ninguém que lhe acariciasse os seios ou sussurrasse palavras de amor no ouvido.
Com empenho isso se acha, mesmo que falte.
A janela a deixava solitária.
Um mundo inteiro acontecendo lá fora sem seu consentimento, permissão ou participação.
Se cometesse suicídio nesse apartamento quantos dias até ser encontrada?
Mesmo que trabalhasse, se faltasse ligariam para cobrar a presença, não para saber se estava bem. Como não atenderia em poucos dias outra pessoa a substituiria no serviço. Outra pessoa a substituiria no mundo.
Quem fazia falta? Talvez só os lixeiros e os policiais. Sem esses não se vive em uma cidade. Lixeiros de dois tipos para lixos de dois tipos.
E tudo isso sem sua participação.
Fechada num apartamento do terceiro andar, vivendo da mesada da mãe viúva de veterano da segunda guerra.
O mundo já estava aqui quando chegou. Vai continuar quando for embora.
Quem dera houvesse uma pequena do outro lado da rua a comer chocolates para ensinar metafísica.
Mas de que adianta uma metafísica dispensável? Quando a metafísica por fim e acabar, o mundo que acontece sem sua participação vai continuar acontecendo, sem perceber a falta de uma metafísica qualquer.
O cigarro lhe queimou os dedos. Já estava no filtro há algum tempo. Não largou. Não gostava de sentir dor, muito menos precisava dela para se sentir real. Se a realidade fosse um problema já estaria gorda e feia (pelo menos teria seios maiores, apesar de não ter ninguém para os acariciar) de tanto comer chocolates.
Não largou o cigarro porque havia força, beleza em continuar acontecendo apesar da queimadura. Como todo o resto acontecia apesar dos esforços, dos divertidos esforços plásticos da arte interferindo no espaço urbano.
Havia força em ser indiferente.
As vacas ainda estavam na calçada. (deus, como doía) Pretas, PVC, presas. Em alguns dias a prefeitura com britadeiras iria retirá-las da calçada (Esse filtro não acaba mais?) e elas iriam para algum depósito, ou quem sabe algum museu.
Escrito nelas "Roube-me". Chumbadas no chão e pedindo abrigo. Um incômodo na cidade como o cigarro era um incômodo para ela.
Mais que um incômodo. Suava, tremia.
Não estava solitária. Não pensava em nada. Apenas no incômodo. Apenas no cheiro de tabaco, misturado com o de espuma queimada e de seus dedos. Seus dois lindos dedos, queimados.
Seis vacas incomodam menos que um cigarro.
Incomodam. Quem sabe da próxima vez usem elefantes.
O último pedaço de espuma vira cinza e cai. A jaqueta está encharcada de suor num dia até há pouco frio. Trôpega vai até o banheiro mergulhar a mão em água. A dor sobe pelo braço em ondas à cada volta que a broca em seus dedos dá.
Resistiu. Resistiu ao incômodo sem tirar as vacas.
Mas não conseguiu continuar seu caminho. Desviar do obstáculo e continuar seu caminho, como todos que passavam pela rua onde as vacas já estavam há quatro dias.
Não passava por sua cabeça qualquer pensamento sobre ser menos indiferente que os passantes, mas sobre o cigarro ser mais forte que sua arte.

Originalmente publicado em http://descritor.blogspot.com/2008/02/textos-impressionistas-vacas-e-cigarro.html

Sobre a obra

Até onde somos fortes ou importantes?
Ana se pergunta isso em um diálogo com suas vacas de plástico, seu cigarro queimador de carne e a cidade indiferente e ciclópica.
Originalmente publicado em http://descritor.blogspot.com/2008/02/textos-impressionistas-vacas-e-cigarro.html

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Autoria
Cochise César
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Cláudia Campello
 

No caso da sua personagem, bom, eu acho que ela deixou arder de angustia sua solidão
e talvez depois, tenha ido dormir sensualmente... com suas vacas.

Tento jogar os meus pela janela
(no meu caso são elefantes, tenho alguns enorrrrrmes aqui !)
Oh insanos elefantes !
Mas no fundo, há razão alem da razão pra encararmos o lado positivo de viver,
estar e ser.
Daí que viver é um barato... caro. Mas que vale a pena.

Vixi, to escrevendo demais. Guenta ?! esse é um elefante...rsrsrs
dominar o vicio nao é facil... sorte que o meu é "legal", rs
bom, gostei do conto e depois te conto um.

bjssssss;)



Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 28/3/2009 05:47
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Bárbara
 

"A dor ser mais forte que a arte."

Votado. E com peso dois.

Bárbara "Akyra" Rocha · Belo Horizonte, MG 30/3/2009 22:04
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
cochise césar
 

Não foi dessa vez que Ana conzeguiu fazer algo....
É esse tipo de frustração que leva as pessoas para o assassínio em massa...

cochise césar · Divinópolis, MG 31/3/2009 21:05
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