ANJOS DE BARRO

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raphaelreys · Montes Claros, MG
23/3/2015 · 2 · 6
 

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ANJOS DE BARRO

Raphael Reys

A urbe campesina da minha juventude era dotada de tipos simples, portadores da sabedora nativa e sentimentos puros. São almas enviadas a esse mundo doido em missão, para nos trazer a sustentabilidade da alma.
Eles carregam no forno alquímico dos seus corações, um natural método de depuração de sentimentos e emoções. O Artífice, aos cria-los o fez com suas mágicas mãos e sabedoria.
Vendo a trajetória dos mesmos chego mesmo a pensar na reflexão poética de Calderón de La Barca:
Es La vida sueno, solo?
Em minha narrativa, trarei três deles, personagens da minha alegre juventude.
Gau era de estatura alta, tez mulata, corpulento, musculoso, carrancudo e generoso. Um galalau. De nome, Olegário Maciel. Amigo do peito e empregado da fazenda Lagoinha de propriedade de Biô Maia. Derrubava uma rês no muque.
Alpercatas de couro, canivete Corneta, palha macia e fumo de rolo goiano, um boque com acendedor de pedra e ferro, calças de Triunfador amarelo, camisas de riscadinho.
Vestia-se sem cuidado, igual aos lírios do campo. Na bainha uma faca lambedeira 12 polegadas.
No peito um patuá dependurado em um cordão de algodão com sete nós. Coisas de sua origem ligadas a ritos afros. Presente que recebeu quando menino de sua avó Belmira Rezadeira.
Meio desligado das coisas deste mundo bobo, desatento. Seu espírito passeava no etéreo e ele caminhava na realidade opressora desse mundo doido.
Sancho Pança do Dom Quixote Biô (Gabriel da Silva Maia), proprietário das terras, assim era o nosso herói.
Nos anos 50 ele vinha à cidade buscar a menina Quita Maia (irmã mais nova do seu patrão) para passar uns dias na fazenda no Cedro. Imitando Ford Bigode, ele botava a cunhã pendurada na sua costa e saia com as mãos suspensas segurando um guidom imaginário e guiando feito carro pelas trilhas da Malhada, até a propriedade. Pisava tão macio que a menina chegava dormindo no destino.
Em 1967 com a venda das terras, seu único rincão, veio com o seu amigo e patrão, morar no apartamento de Quita Maia, já adulta e casada, na Rua Dom Pedro II, no centro de Montes Claros. Não ficou embora tivesse cama, mesa e banho.
Detestava modernidades, não misturava o seu barro humano as gentes da cidade.
Chegou a comprar uma alpercata Roda para passear a noite no footing da Praça Coronel Ribeiro. Assustou-se com a mistura de aromas dos perfumes usados pelas meninas moças. Nuit de Noel, Lorigan, Chashemere Bouquet. Estava acostumado ao cheiro de suor e brilhantina Glostora.
Na morada nova havia escadas e os botões do elevador para apertar. Ele não sabia mexer nessas modernidades. A solidão da urbe agregou à sua alma o peso da saudade. Quando se botava a beber a cachaça, sorvida na meiota, aliviava.
Às vezes, duas. Era difícil subir todos aqueles degraus variando o guengo com os parietais pegando fogo e as pernas bambas.
O bom mesmo era morar no plano, no chão de Meu Deus, lá na beirada da serra, onde tinha canário cantador sob a amplidão dos céus, as lagartixas comendo inseto nas palhas.
A modernidade trouxe a telefonia e, com ela, o aparelho telefônico de baquelita preta da Siemens. Chamado para receber um comunicado do patrão, vindo em espirais metálicas.
Como o berço não lhe embalara a retórica, exclamou no dialeto pé-quebrado, estando espavorecido.
Ué! - Como é que cabe seu Biô aqui dentro desse trem preto...
Ato seguinte arrancou os tentáculos e artérias daquele monstro grudado na parede. E com sua violência em nome do pudor, quebrou tudo, visando libertar o patrão. Possivelmente espremido ali na barriga daquela instrumenga moderna.
Voltou para a fazenda e foi morar numa palhoça de taipa. Um pau-a-pique com telhado de sapé e chão de barro batido, no pé do morro Dois Irmãos. Figura símbolo da nossa cidade.
Debaixo da ramada, uma rede feita de palha de tucum, um toco servindo de banco, um pilão velho e muitas cabaças ocas. Morada de pequenos viventes da chapada.
Dizem que criou uma pendenga com o novo dono das terras.
Não tinha mais o amigo para dois dedos de prosa. Agora conversava com os duendes, o espírito da serra e o caipora das florestas.
Assoviava para os fogo-pagô que pulavam no capim nativo e usando um apito de madeira imitava canário-pardo, sabiá, bicudo e galo de campina.
A noite se botava no sereno a escutar o choro da mata no anoitecer e o chiado do chocalho da cascavel marcando presença. Nos serrotes de pedra, uma lapa, morada de um gato maracajá que urrava imitando onça. Pura técnica de sobrevivência.
Assistia o sol nascer, via as sombras do lusco-fusco e as assombrações da chapada.
Dizem que chegou a ver um Saci-Pererê de gorro vermelho pitando um cachimbo cotó.
Vento de agosto, o mês do desgosto. Uma lufada de ar atiçou uma faísca do fogão de barro e a Salamandra do pé da serra pôs fogo na palha do casebre.
Naquela noite, Gau, tinha tombado no chão de terra batida, vencido pela cachaça branquinha, saída da cabeça do alambique e ingerida sob a égide da tristeza. Há controvérsias.
E aí, foi fogo no lombo. Ficou que nem tição. Virou cinza! Retornou às cinzas de que viera e como uma Fênix, sua alma alçou vôo com as asas de Piteros.
Gigantes, efebos e homens-menino, quando morrem vão para o Oráculo de Oxalá.
Já Gregorinho Deitado, nasceu Gregório Pereira da Silva na campesina Brasília de Minas (MG) em 1910, era em que a providência divina mandou a esse mundo de manifestações, uma plêiade de grandes almas.
Meninote ainda, o destino o levou para a Fazenda Brejeira, município de Santa Rosa de Lima. Terra da boa cachaça. Como uma cantiga de grilo, viveu ali com a família de Sebastião Souto, por oitenta longos anos.
De biótipo pequeno, morenado, ossudo e por ser careca, usava sempre um boné. Com o peso da idade, aos setenta anos, andava bastante encurvado e Marilene Souto, que assumira a direção da fazenda de criação, o chamava de Gregorinho Deitado.
Era um libertário. Viveu como um ermitão em sua choupana limitada por cerca de pau a pique entremeado com vasta folhagem. O que garantia a sua privacidade, necessária as suas artes mágicas, rezas e mandingas.
Acordava as quatro da matina, fazia e degustava a sua feijoada curraleira com umas boas talagadas de pinga corada.
Carpinteiro dos bons confeccionava como ninguém uma roda de carroça, um escorraçador. Sabia manejar o gado, curava bicheira e acalmava a boiada quando em descontrole. Relatam os locais, que ele conversava com os bichos e a criação.
Gostava de viajar com a comitiva do patrão conduzindo a manada para os frigoríficos e compradores. Quando idoso, o senhor se recusava a levá-lo na jornada, ocasião e que batia os pés na cancela do curral e fincava uma pequena vara (a Aguiada) de madeira no chão. O gado ficava estático. Não se movia nem a ferrão.
Aí Tião Souto liberava a sua ida. Ele selava o seu alazão, seguia na cabeceira da peãozada e a trupe rompia mansa. Nosso herói sabia fazer reza para afastar cobras e onças da propriedade.
Tinha sua própria plantação de verduras e hortaliças, assim como ervas das quais prepara chás, infusões e garrafagens curativas. Criava pequenos capados, cocas, galinhas. Em pequenas cabaças no seu oculto quintal, moravam lagartixas, coelhos, gambás e outros entes da mata.
Dado a sua idade já avançada, a nova patroa cuidou da sua aposentadoria e o desobrigou de prestar serviço à propriedade. Mantendo, entretanto, a sua morada e a convivência íntima com a família.
Em suas constantes idas e vindas, a Serra da Cruz Alta, relatou ter visto o pouso de um OVNI. Levou pessoas para constatar as marcas redondas, deixadas supostamente pelo trem de pouso da nave, da qual, consta ter decido ou desembarcado Cinco Hominhos Orelhudos.
Aos noventa anos, idade da luz, carecia de internamento hospitalar e quando ia ser trazido a Santa Casa da nossa urbe, perguntou a sua patroa:
Marilene - O que é esse tal de hospital que eu vou?
Recebidas as explicações convincentes veio receber socorro médico.
Foi sua última posada. O Pai carecia dele nos mundos Súperos e o levou de volta ao seu oráculo.
No Sétimo Céu de Beatrice!
Já o Lourenço, chamado de Denço nasceu nas águas de março, abençoado por São José e sob a proteção das almas ciganas. Um filho do gênio da humanidade.
Cedo ainda, recebeu de sua avó, a velha Zulmira, benzeções, contra mandingas e as artes do catimbó. A matriarca era filha de escravos livres, nascida no final da era dos oito, na Cachoeira do Jaguar. Bahia de todos os Orixás.
Intuitivo, logo percebeu que os animais domésticos falavam a sua própria maneira. Bastava para isso, assuntar a sua linguagem corporal e a expressão dos olhos, janelas da alma.
Tinha o Amarelão, um cão mestiço de estimação que vivia na larga, a rolar na beira de currais e a lambuzar-se de lama nos córregos. Passava horas deitado no chão de terra batida da cozinha, na casa do patrão, a escutar o pipoco das brasas e as chamas da madeira que queimava no fogão de lenha.
Uma verdadeira prosa mágica!
Vivia espreitando o gato manhoso que se aquecia nas cinzas do borralho, os dois dedos de prosa das comadres e compadres. Sempre de caneca esmaltada na mão esperando um gole de café moído no pilão e adoçado com rapadura.
Amarelão aprendera a sentir as intenções dos humanos pelo vitrô dos seus olhos.
O menino Lourenço era alma liberta das coisas e peias do mundo. Vivia mergulhado em seu universo interior. O barro do qual foi constituído, fora avivado pelo vento doce do Astro Taunay.
Sabia fazer reza catimbozeira, ficar oculto de alguém, passar em chuva sem se molhar. Afugentava cobras, escorpiões e marimbondos. Quando desafiado por algum infante desafeto rezava no pisadô.
O dito tropicava e batia as fuças no chão!
Assobiava notas de um mantra e cachorro bravo vinha de mansinho lamber o couro das suas alpercatas de couro crú.
Rouxinol, seu burrico branco, quase albino, mais parecia um unicórnio tupiniquim.
Aos onze anos, viajando pelas escarpas da Serra da Jaguatirica, em noite de chuva pesada, caiu em uma enorme fenda entre os paredões das rochas.
O Cavaleiro da Lança Negra viera buscá-lo. Ele havia terminado a sua missão na terra.
Com ele caíram Rouxinol e Amarelão, que também estava na garupa. Bem que no dia anterior tivera um presságio. Perdera a sua medalha de São José e o coração pediu-lhe que adiasse a viagem.
Denço, Rouxinol e Amarelão foram-se ajuntar à boa alma da Zulmira que cantava ponto na Roda de Aruanda, no Oráculo de Oxalá.


Sobre a obra

Almas campesinas

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raphaelreys
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anjos entre nós...
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raphaelreys
 

Eles estão entre nós...

raphaelreys · Montes Claros, MG 23/3/2015 08:44
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Estrela Guia
 

Eu sei que é feio, mas sou ré confessa, guardo uma grande inveja de quem nasceu neste universo encantado e, mais ainda, de quem teve a ventura de conviver com estas personagens mágicas. Sinta-se um privilegiado, Raphael! Obrigada por sua sensibilidade em captar a alma destas pessoas e por apresentá-las a nós. Você nem imagina o quanto fez meu dia mais leve por plantar em meu coração a certeza de que o anjos estão mesmo entre nós. Um beijo! Abraço apertado....

Estrela Guia · Belo Vale, MG 23/3/2015 09:20
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raphaelreys
 

Estrela Guia...Agradeço pela sua sensibilidade...

raphaelreys · Montes Claros, MG 24/3/2015 08:31
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alcanu
 

Estórias como essa que só você mesmo para nos contar...
Sem querer espezinhar na Crítica ( e já espezinhando... ), notei a falta das Ondinas, onde estariam elas? visto que menciona duendes, sacis e até salamandras...Já não se fazem serviçais como ante se faziam, que levantavam cedo, tarde se deitavam, viviam o dia todo na lida e não reclamavam jamais de Direitos Trabalhistas e outras quimeras sociais atuais...
Seu estilo detalhista de escrever nos remete a esse mundo mágico, esse preciosismo todo, faz com que respondamos com todos os nossos sentidos( não apenas os cinco habituais ), você bem nos desperta aos nossos desvarios humanos, a aquilo que todos nós sentimos e somos e vivemos e que o ritmo dessa cidade desgraçada, desse Governo maldito, que nos sorve tal um torvelinho, emoção, dinheiro, Imposto de Renda, Imposto de Renda, Imposto de Renda, fiquei louco !
Pirei: no seu texto lindo & maravilhoso e nessa realidade absurda de convivermos com as quinze cidades mais pobres do Brasil:
Veja a relação dos 15 municípios brasilieros com as menores rendas - Fonte IBGE.

1 - Belágua (MA) R$ 146,70
2 - Marajá do Sena (MA) R$ 153,47
3 - Cachoeira do Piriá (PA) R$ 163,65
4 - Fernando Falcão (MA) R$ 166,73
5 - Matões do Norte (MA) R$ 170,76
6 - Melgaço (PA) R$ 172,28
7 - Assunção do Piauí (PI) R$ 174,44
8 - Milagres do Maranhão (MA) R$ 175, 99
9 - Satubinha (MA) R$ 177, 11
10 - Bagre (PA) R$ 178,04
11 - Cachoeira GRande (MA) R$ 180,02
12 - Santo Amaro do Maranhão (MA) R$ 181,08
13 - São Roberto (MA) R$ 181,77
14 - Ipixuna (AM) R$ 181,98
15 - Presidente Juscelino (MA) R$ 182,18

Fonte: IBGE / Folha Online

Fora Dilma !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 24/3/2015 10:42
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raphaelreys
 

alcanu...Conheco as três do Maranhão e Assunção do Piaui...Bota asilamento por lá...Nos os modernos urbanizados somos escravos de uma formatação. No meu caso restou só a memória do mundo campesino que tive a oportunidade de lidar na minha infancia e pré-adolescencia... Um beijo no coração e obrigado pelo incentivo...

raphaelreys · Montes Claros, MG 24/3/2015 15:24
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raphaelreys
 

alcanu...Perdão por ter esquecido as ondinas...Na próxima elas estarçao presentes..

raphaelreys · Montes Claros, MG 24/3/2015 15:26
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