Ao meio-dia
Glês Nascimento
Jornalista
glesnascimento@gmail.com
Twitter: glesnascimento
Fumaça e cheiro de alho tostando invadiam o ambiente. Passava do meio-dia e ele ainda preparava o almoço, tinha só mais 40 minutos até voltar a um trabalho que nem gostava.
Ouviu uns gritos aos longe. Não deu bola. A vizinha era sempre escandalosa. Voz grossa de quem fuma mais de uma carteira por dia, jeito de italianona, ou nona, como queiram. No prédio, chamavam-na “vovó†– de todos cuidava: viajava e deixava as chaves para que todos usufruÃssem de sua casa, de seus quitutes. Era ela.
O escândalo demorou a convencer. Ele mesmo só abriu a porta quando a ouviu gritar: “socorroâ€. Eis palavra. Mesmo que seja brincadeira, ninguém está imune a ela. Por curiosidade, abriu a porta e no corredor viu que todos tinham feito o mesmo. Uma mulher chorava, outra estava ao telefone. Crianças corriam. Vovó estava no chão, ajoelhada e apreensiva, gritando como se fora Nair Belo. Um homem caÃdo no chão e, outro, sobre ele, fazia massagem cardÃaca.
Ele perguntou: “o que houve?†Alguém aos prantos: “é o Vovôâ€. Ninguém sabia ao certo o que acontecia. Era muita gritaria, mas algo estava errado. Só o que ainda cheirava bem era a carne moÃda com batatinha que ele deixara no fogo enquanto fora acompanhar a movimentação.
Em minutos, um homem magro tomou o Vovô nos braços e desceu dois lances de escadas, como se fosse fácil. No meio do pátio, o homem sucumbiu: Vovô era pesado. Mulheres gritavam: “ajudem-noâ€. O SAMU não vinha. Os vizinhos colocaram Vovô no carro. Nona chorava, tremia – estava desconsolada. Seguiram para o hospital.
Os vizinhos ainda ficaram por ali, como quem não acredita que a vida seja mesmo tão frágil. Ele ainda perguntou: “Vovô tinha problemas de coração?†Uma jovem disse: “não. Fez recente cirurgia nos rinsâ€. Ele ainda ficou mais uns minutos; não queria demonstrar mais preocupação com o almoço que com uma vida.
Logo, desconcertado, entrou e apagou o fogo da panela. Tomou uma água e pensou: “nunca dediquei um tempo a conhecer o Vovô, nesses anos que aqui moroâ€. Sentou-se e escreveu esta crônica.
Quando se tem tudo, tudo pode-se perder.
Narrativa ( in ) tensa e sarcástica !
Muito bem sacada !
Um beijo !
Bonito trabalho, meus parabens!!! boa tarde , um abraço.
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