Conto
Me chamo Brasil. Sério. Justino Amaral do Amoroso Brasil, ao seu dispor.
Saí de casa hoje agoniado, com aquela sanha de matar uns dois ou três. Sem brutalidade, claro, que isto, podem crer, não é comigo. Matar sim mas, sem sadismo. Matar simplesmente, como minha mãe matava as galinhas de domingo. Uma torcida rápida no pescoço e, babáu!
As vezes uma boa faca, bem amolada também resolvia bem a situação.
Aliás, esta minha ojeriza a sadismo deve ter vindo daí, do dia em que a velha, assoberbada com a salada de maionese, me pediu para fazer o serviço com a galinha. Servicinho, pensei. Nem pestanejei. Era só pegar a bicha, forçar a cabeça dela na tábua de cortar carne e zás! Cortar. De um golpe só.
Mas fiz com piedade, me disse a Velha. E piedade não se pode ter na hora de matar uma galinha. Um amigo meu, da vigésima DP, que é legista, me ensinou:
_”A galinha está na base de nossa cadeia alimentar, meu chapa. Fazer o quê? Temos que viver, ora bolas! Vai desprezar a delícia que é uma moela ensopada, uma asa assada, uma coxa empanada?”
Mas fiz com remorso. Fiz sim. Eu sei. Um remorso prévio, mal disfarçado, que, não sei como, a pobrezinha sentiu, anteviu.
Foi de dar vertigem. O maior terror que eu já passei na minha vida.
O corpo da galinha tombou para um lado, tombou para o outro e logo começou a se debater. Quase, não sei como, conseguiu ficar em pé. Como explicar? Fiquei embasbacado pensando como é que um corpo sem cabeça pode entender o que é ficar em pé? Foi aí que, para o meu alívio, o corpo dela caiu de novo, na tábua de carne, ficando só com aqueles tremeliques, aqueles espasmos de penosa moribunda. Me aliviei.
Mas qual o quê. Foi aí que a coisa ficou ainda mais apavorante: Na cabeça dela, os olhos piscavam como a procurar alguma coisa que eu tive certeza que era eu, o assassino. A bicha abria e fechava o bico, como a querer exprimir algo, algum cacarejo acusatório, quem sabe alguma severa condenação. Ai! Aquele bico apontado para mim, inquisidor.
Fiquei num desespero tão sem tamanho, que cheguei até a pensar em juntar de novo as partes, como fez aquele tal de Doutor Frankenstein.
Tarde demais. O sangue da bicha já se esvaía e eu lembrei ali, naquele mesmo instante, que tinha que recolher todo aquele caldo escuro e viscoso num copo, senão, a velha me matava e me esfolava. Como a galinha.
O certo é que, talvez, esta minha sanha assassina tenha nascido ali mesmo, nos preparativos daquele rotineiro almoço de Domingo, no tempo em que eu ainda só bebia guaraná.
(Continua no download)
Vim até aqui.
Tô expectante pelo fim, mas não tenho pdf.
Vou amanhã na casa de uma amiga e aproveito e já conto de tu pra ela querido Spirito.
Nem vou dormir direito pensando se esse cara não é aparentado com o tal de Romão lá da novela do Adroaldo, que já arranca navalhando o pescoço dum cuera.
Prosa muito da fina.
Tri gostosa.
Tem molho (rsrsrs)
Vou contar pra ele que tu gostastes. Aí, já são dois que escapam com vida: Tu e eu.
Posso mandar uma cópia word pro caso de não abrires o PDF.
Abs,
Já li o restante, Spirito. Gostei muito.
É tri do arco.
Meu email é juliaura@portoweb.com.br
para fins.
Agora, cá entre nós, o Adroaldo me contou dos ameaços teus e está até te chamando de Santinho, coisa e tal, em busca do habeas prometido (rsrsrs) causo dos comentos dele naquele texto em internetês que cê plantou lá noutras bandas deste overmundo.
Dá uma colher pro hômi que ele pensa que ainda é moço pra sair dessa, tchê!
Juliaura,
Diz pro Adroaldo pra ficar tranqüilo. O Brasil tá velho pra caramba. Caquético. já tá com 107 anos e não mata nem mosca mais. Escrevi aquilo porque ele estava perto, com o olho grudado no monitor vendo o que eu escrevia. Foi para levantar a auto estima do velho, coitado. Só de saber que o Adroaldo tremeu nas bases ele já deu um sorriso assim, maroto. Sabe como é?
Grande abraço e brigadão!
Muito bacana,Spírito. Parabéns.
Carlos Magno.
Spirito Santo:
Prosa de fina estampa, viu? Parabéns.
Ah! Estou com REQUIEM PARA UM HOMEM NU na fila de edição do banco de cultura, conto com a sua atenção. O link é: http://www.overmundo.com.br/banco/sala_edicao.php?em_edicao=8577
Abçs. Benny Franklin
Seu texto me fez lembrar da vez que minha mãe matou minha gata Faísca a golpes de martelo só pq ela comeu a galinha q estava no vinhadalho... Volatrei +tarde para continuar me deliciando com o seu conto.
Abrs
Soaroir,
bacana você ter gostado. Vê só que coincidência: Acabo de cometer uma série de poeminhas sobre gatos nos quais eu 'mato', simbolicamente, todos. A série se chama 'Cama de gatos (de 01 a 07) está lá no meu perfil.
Sua história é muito parecida com a da minha mãe, que também teve que matar uma galinha quando pequena. Só que a galinha dela ficou em pé e ainda saiu correndo sem a cabeça. Vai saber se é verdade, né? Bom, pelo menos é verdade que minha mãe se chama Vanessa Brasil. hihihi. Adorei a história. Fiquei numa agonia só. Abraços.
Bel Fonseca · Belo Horizonte, MG 18/8/2007 20:25
Valeu, Bel!
A cena da galinha aconteceu comigo mesmo também. Nem traumatizei. Até hoje adoro galinha ao molho pardo.
Abs,
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